“Gostava de ser recordado como alguém que deu tudo pelo Grupo e que respeitou sempre as pessoas do Grupo, os aficionados e outros agentes da Festa. Se conseguir deixar essa memória, então saio desta vida de Forcado com a sensação de missão cumprida” - foram estas as últimas palavras de Pedro Maria Gomes, 45 anos, nesta derradeira entrevista ainda como cabo do Grupo de Forcados Amadores de Lisboa, cargo que vai deixar na sexta-feira (depois de amanhã) na última corrida da temporada do Campo Pequeno, que será também a sua última corrida como forcado. Para trás, ficam 29 anos a honrar a jaqueta do grupo fundado por Nuno Salvação Barreto, 17 dos quais como cabo e, pelo meio, uma gravíssima colhida na Malveira em Junho de 2003, que o deixou mais de um mês às portas da morte.
Conheço o Pedro desde criança. Admiro-o como homem, admiro-o como forcado, como cabo de forcados. Lisboa vai ter “mais encanto na hora da despedida”.
Duarte Mira é o sucessor e o quarto cabo do histórico Grupo de Lisboa, depois do fundador Nuno Salvação Barreto, de José Luis Gomes (pai do Pedro) e de Pedro Maria Gomes.
“Ao Duarte deixo um Grupo com história e com valores que sempre estiveram nas decisões tomadas pelo Grupo de Forcados Amadores de Lisboa. Sei que vai dar continuidade a esta história, à sua maneira, com a sua personalidade e as suas ideias” - afirma Pedro. Fica a última entrevista.
Entrevista de Miguel Alvarenga
- Qual a sensação, Pedro, a poucos dias do adeus às arenas?
- É uma mistura de sentimentos. Há muita emoção, algum nervosismo e, naturalmente, alguma nostalgia. Entrei de pequeno e saio aos 45 anos, são muitos anos de vida ligados ao Grupo e às pessoas que fizeram parte deste caminho. Custa pensar que está a chegar o fim de uma etapa tão importante da minha vida, mas, ao mesmo tempo, sinto uma enorme paz e orgulho por tudo aquilo que vivi.
- Quantos anos como cabo do GFA de Lisboa? Formaste muitos forcados, alguns já se despediram. Como deixas o grupo ao Duarte Mira?
- Sou cabo desde 2010. Foram anos de enorme responsabilidade, mas também de enorme privilégio. Foram muitos os Forcados com quem tive o prazer de me fardar e, para mim, o mais importante foi poder contribuir para a formação deles, não apenas enquanto forcados, mas sobretudo enquanto homens e pessoas.
Alguns já se despediram, outros continuam e outros estão agora a começar o seu caminho. Isso faz parte da vida de um Grupo e do que é ser Forcado.
Ao Duarte fica um Grupo com história e com valores que sempre estiveram nas decisões tomadas pelo Grupo de Forcados Amadores de Lisboa. Sei que vai dar continuidade a esta história, à sua maneira, com a sua personalidade e as suas ideias. E isso é importante. O Grupo não pode ficar preso a uma pessoa, é muito maior do que qualquer Cabo.
- Foste o terceiro cabo, sucedendo a Nuno Salvação Barreto e ao teu pai, José Luís Gomes. Eras ainda muito novo quando assumiste esse desafio. Foi fácil?
- Não foi fácil assumir o Grupo de Lisboa, depois de Nuno Salvação Barreto e do meu pai, José Luís Gomes, era uma responsabilidade enorme. Tinha consciência da história e do peso que o nome do Grupo representa.
Fui aprendendo ao longo destes anos, cometi erros, naturalmente, mas tive a sorte de estar rodeado de pessoas que, com a sua experiência, me ajudaram a tomar boas decisões.
Houve uma coisa que sempre tive muito presente: eu não precisava de ser igual aos Cabos que me antecederam. Tinha era a obrigação de respeitar aquilo que eles construiram e tentar acrescentar valor à nossa História.
- Quantos anos de forcado, Pedro? Com uma gravíssima colhida pelo meio… alguma vez pensaste que não sobrevivias, nesses meses difíceis em que estiveste hospitalizado?
- Fez este ano, no passado dia 14 de Agosto, 29 anos que me fardei pela primeira vez e por isso fiz questão de pegar este ano em Abiul, não só por essa minha efeméride, mas também pelo dia de aniversário do Grupo.
Quanto à colhida, o Miguel acompanhou muito de perto essa fase e sabe o quanto foi difícil conseguir ultrapassar tudo e, felizmente, ter uma vida normal passados 23 anos.
Não tinha sequer noção do que se estava a passar, sei que, nos momentos em que tinha consciência, tive sempre na cabeça voltar a fardar-me e a pegar, foi isso que também me ajudou a recuperar,
Foi também nessa altura que senti uma força enorme das pessoas que estavam comigo. A minha família, os meus amigos, o Grupo e todos aqueles que estiveram presentes.
Hoje olho para isso de outra forma. Foi uma experiência que me marcou, que me marcou e que me fez perceber ainda mais o valor da vida, o risco que corremos e da importância das pessoas que temos ao nosso lado.
- O GFA de Lisboa é um dos mais antigos grupos de forcados e com maior história. Mesmo assim, tem havido épocas em que tem actuado muito pouco. O que se passa, Pedro? Os tempos mudaram? Há hoje grupos a mais e isso, obviamente, prejudica todos?
- Os tempos mudaram, sem dúvida. O número de grupos aumentou, o número de corridas tem vindo a diminuir drasticamente e hoje um Cabo tem de pôr em prática outras valências que vão muito além do que é ser Cabo de um Grupo. Algumas estou de acordo e é uma adaptação aos tempos em que estamos, mas noutras nunca entrei e sei que o Duarte também não irá entrar.
O Grupo de Lisboa tem uma história enorme e uma responsabilidade acrescida por aquilo que representa. Temos de honrar essa história, mas também temos de olhar para o futuro, mas nunca indo contra o que acreditamos, mesmo que para isso tenhamos de fazer menos corridas.
- Se te perguntasse como está o mundo da forcadagem nos dias de hoje…
- Diria que está igual à nossa sociedade… falta de carácter, má formação e xicos espertos.
Como disse antes, temos que nos adaptar, mas, e foi sempre assim que pensei, nunca indo contra o que acredito e defendo, mesmo que seja prejudicado por isso, mas o que me deixa tranquilo, é que de noite posso-me deitar de cabeça tranquila e com a certeza que defendi o Grupo.
Felizmente conheço alguns que não são assim e isso dá-me alguma esperança.
- Na sexta-feira vão fardar-se também antigos elementos. Faz uma antevisão do que vai acontecer. Vão pegar alguns antigos forcados? Vais pegar um toiro, se bem que os médicos, depois da colhida, te tenham aconselhado a não pegar mais?
- O dia 4 vai ser, acima de tudo, um encontro de gerações e uma data marcante para o Grupo.
Vai ser muito bonito voltar a ver antigos elementos do Grupo fardados ao lado daqueles que hoje o representam, são Forcados que fizeram parte da nossa história e que, de uma forma ou de outra, também ajudaram a construir o Grupo que existe hoje.
Quanto às pegas, é possível que existam surpresas e tenho a certeza que os sete toiros serão poucos para a vontade que os antigos e os actuais vão ter nessa noite. É uma pressão que não quero ter, à medida que os toiros vão sendo lidados vou sentindo o Grupo e decido no momento.
E sobre pegar… no dia 14 de Agosto em Abiul, parti cinco costelas e fiz fractura e luxação também de um dedo do pé, por isso não vai ser fácil pegar o meu último toiro nessa corrida… mas ainda não perdi o sonho.
O mais importante para mim é que esse dia seja uma celebração e não uma despedida triste.
- Fala-me do Duarte Mira, que te vai suceder e será o quarto cabo da história dos Amadores de Lisboa.
- O Duarte é uma pessoa em quem confio plenamente. Conheço-o bem, conheço a forma como pensa, é humilde, ponderado e sei o respeito que tem pelo Grupo, assim como a forma como o vive no dia-a-dia.
Não lhe vou dizer como deve ser como Cabo. Acho que cada Cabo tem a sua forma de liderar. O que lhe desejo é que seja feliz, que desfrute e que tenha a capacidade de colocar sempre o Grupo à frente de qualquer interesse individual.
Vai ter momentos muito bons e outros mais difíceis, como todos tivemos. Mas sei que vai estar à altura da responsabilidade.
- E como vai ser o dia seguinte à tua despedida?
- Provavelmente vai ser um dia estranho. Durante tantos anos houve sempre uma corrida seguinte, um treino seguinte, uma preparação, uma preocupação com o Grupo. De repente, isso vai deixar de existir da mesma forma.
Mas também vai ser o início de uma nova fase. Quero aproveitar mais a família, que é quem tem sido mais prejudicado, durante estes anos.
- Vais continuar, certamente, a acompanhar o grupo?
- Sem dúvida. Deixo de ser Cabo, mas nunca vou deixar de ser Forcado do Grupo de Lisboa.
Aliás, eu nasci no seio do Grupo e desde os 13 anos que fui praticamente a todas as corridas do Grupo, por isso não é algo que seja fácil que acabe. Uma das coisas bonitas é que podemos deixar de nos fardar, podemos deixar de pegar, mas o sentimento de pertença ao Grupo fica para sempre.
Vou estar sempre disponível para ajudar, mas agora será a vez do Duarte decidir e liderar o Grupo à sua maneira.
- Em poucas palavras, faz-me um resumo da tua trajectória como forcado e da tua experiência como cabo de um dos principais grupos de forcados nacionais.
- É difícil resumir tantos anos e sentimentos em poucas palavras.
Comecei muito novo no Grupo e com 16 anos tive a minha oportunidade para me fardar e nos primeiros anos ajudava, depois além de ajudar comecei a pegar de caras até que tive a lesão na Malveira. Estive quatro anos parado e neste período iniciei as funções de Director de Corrida. Com 23 anos vejo-me numa posição com outro destaque na nossa Tauromaquia e creio que, além de cumprir o Regulamento Taurino, coloquei sempre a minha sensibilidade como aficionado e Forcado nas minhas decisões em cada espectáculo que dirigi.
Entretanto acabei o curso superior e decidi deixar de ser Director de Corrida e voltar a fardar-me pelo Grupo. Depois houve a despedida do meu Pai enquanto Cabo e acabei por assumir a liderança do Grupo, por votação dos elementos que compunham o Grupo nesse momento.
Enquanto Cabo são 17 anos com muita aprendizagem tanto do conhecimento do toiro, como no conhecimento de cada um dos elementos que liderei, creio até que este foi o maior desafio, a gestão de recursos humanos.
São 29 anos desde a primeira vez que me fardei e 17 anos de Cabo, por isso existiram muitos momentos que nunca vou esquecer, alegrias, dificuldades, sucessos, desaires, lesões e cicatrizes, mas acima de tudo, algumas pessoas que me ajudaram e ajudam, tanto na difícil tarefa de arranjar corridas, como no momento da corrida e, num momento que poucos dão importância, o dia seguinte e como gerir as frustrações e os desaires.
Estes 17 anos tinham sido diferentes sem a ajuda que tive, a seu tempo agradecerei pessoalmente a cada um, mas não posso deixar de agradecer ao meu Pai por tudo o que fez e continua a fazer pelo Grupo.
- Como gostavas que os aficionados te lembrassem no futuro?
- Nós estamos ali para pegar toiros e isso é o mais importante, no entanto eu costumo dizer muitas vezes ao Grupo, as pegas ficam para os momentos de tertúlia, o que valorizo mais é a forma como tratamos, nos relacionamos e como influenciamos os outros, é isso que fica e que nos faz ser respeitados e lembrados.
Por isso gostava de ser recordado como alguém que deu tudo pelo Grupo e que respeitou sempre as pessoas do Grupo, os aficionados e outros agentes da Festa.
Se conseguir deixar essa memória, então saio desta vida de Forcado com a sensação de missão cumprida.
Fotos M. Alvarenga e Emílio de Jesus/Arquivo
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| O ex-cabo José Luis Gomes, o ainda cabo Pedro M. Gomes e o futuro cabo Duarte Mira |
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| Pedro M. Gomes em 2004 no stand do "Farpas" na II Feira do Toiro em Santarém, junto da capa do jornal após a grave colhida que sofrera um ano antes numa corrida na Malveira |


























