| Público de Évora não encheu ontem a praça para ver os 3 Ases. A corrida foi agradável e foi pena que os três jovens toureiros não repetissem o êxito de bilheteira de Agosto no Redondo |
| Marcos Bastinhas prestou ontem a maior homenagem que podia ter tributado a seu Pai com dois monumentais triunfos em Évora |
| João Telles não perde nem a feijões e ontem respondeu aos triunfos de Bastinhas com duas grandes actuações, a reafirmar o momento altíssimo que está a viver |
| Miguel Moura bailou com as mais feias e teve o grande valor de dar a volta a complicados toiros de Pinto Barreiros com a arte que marca os Mouras |
Miguel Alvarenga - A viver um momento
particularmente complicado e doloroso pelo grave acidente sofrido por seu Pai
(graças a Deus, a recuperar com a força "do outro mundo" que todos
lhe conhecemos), Marcos Tenório Bastinhas reafirmou ontem em Évora toda a sua
raça e a sua casta de "toureiro de raiva" em duas portentosas e
magistrais actuações frente a toiros de Pinto Barreiros, onde pôs à prova uma
moral elevada e uma força anímica capaz de dobrar todos os Cabos Bojadores.
Esteve realmente fantástico, quer a lidar, a bregar, a recortar-se em
pormenores de imensa arte e a cravar em sortes de muita emoção e reconhecido
valor. Terá prestado, com estas duas grandes actuações, a maior homenagem que
poderia ter tributado a seu Pai, o nosso querido Joaquim Bastinhas.
João Ribeiro Telles atravessa um momento
invencível, não perde nem a feijões e respondeu ontem aos triunfos de Bastinhas com duas inspiradas
actuações, sobretudo a segunda, de tom altíssimo e em que deixou sobressair o
domínio, a arte e o absoluto controlo de todas as situações, reafirmando a
maturidade e a - há que dizê-lo, sem rodeios - maestria do seu toureio que, tal
como o de seu Pai, João Palha Ribeiro Telles, é um misto de classicismo e de
momentânea inspiração, como bem dizia o saudoso Bacatum, uma espécie de
"romerismo", em clara alusão à "estranha arte" que foi
apanágio das faenas mágicas do grande Curro Romero.
Miguel Moura bailou com as mais feias...
Miguel Moura bailou com as mais feias...
Ontem, Miguel Moura teve toda a vontade
do mundo, mas teve também o azar de bailar com as mais feias. Enfrentou o pior
lote e fez das tripas coração para dar a volta - que deu mesmo - ao primeiro de
Pinto Barreiros que nem sequer se dignava a investir e ao outro, reservado,
complicado e mansarrão. É um Moura e os Mouras são sempre Mouras - está tudo dito. E como com os
toiros maus se vêem os bons toureiros, Miguel esteve superior e senhor da
situação, escutando música e dando aplaudidas voltas nos dois toiros, em
reconhecimento (do director de corrida Marco Gomes e do público) pelo seu
esforço, pelo seu brilhante desempenho e pela excelente resposta dos seus cavalos
a ultrapassar todas as dificuldades que os dois oponentes impuseram.
O ganadeiro Joaquim Alves ainda foi
chamado à arena por João Telles no quinto da ordem, mas ficou na bancada,
consciente de que não tinha havido mérito suficiente dos seus toiros para
justificar tal honraria.
O primeiro toiro da noite (castanho)
deixou-se lidar, o quarto e o quinto foram bons, sérios e a pôr respeito na
arena, os restantes mansearam.
Noite grande para os dois grupos de
forcados, os de Évora e os de Alcochete, numa temporada que está a ser marcada
pela glória dos homens valentes das jaquetas de ramagens - que ontem voltaram a
estar em grande evidência e a protagonizar, ela por ela, os momentos mais
emotivos da corrida de Évora.
Pelo grupo da casa destacou-se o enorme
João Pedro Oliveira num assombroso pegão (à segunda tentativa) ao quinto toiro
da noite, onde evidenciou o seu muito valor e a sua aprumada técnica,
galvanizando o público pela forma como esteve diante do toiro, como recuou
toureando e como se fechou com decisão, aguentando uma barbaridade de derrotes,
havendo que destacar também a pronta e eficiente ajuda de todos os
companheiros.
A primeira pega da noite coube a Gonçalo
Pires, que esteve muito bem, aguentando forte derrote e a consumou com
galhardia e técnica, tendo todo o grupo ajudado prontamente. No segundo toiro
dos Amadores de Évora (terceiro da ordem), um Pinto Barreiros cheio de sentido
e que nunca se deixou "enrolar", tentaram a pega de cernelha (por
opção, por mais nada) Manuel Rovisco e Cláudio Carujo, tendo este sido bastante
maltratado e depois dobrado pelo próprio cabo António Alfacinha, acabando por
ser concretizada a sorte sem aparato e com aparente facilidade, depois de
várias entradas da dupla inicial, sem sucesso, valendo a condescendência e a
aficion do director de corrida Marco Gomes, que deixou arrastar a situação por
algum tempo. Mas cumpriu-se a pega e ninguém saíu derrotado. Uma cernelha não
tem sempre que ser uma pega de recurso, aliás antigamente era tradição os
grupos executarem essa sorte, bem como a desaparecida "casa da
guarda", a par das pegas de caras. A decisão de Alfacinha, ontem, de
brindar o público da sua terra com uma pega de cernelha, é plenamente
aceitável, só foi pena que, pelo apurado sentido do toiro, não tivesse tido o
brilho desejado.
António J. Cardoso: o pequeno-grande forcado
António J. Cardoso: o pequeno-grande forcado
Os Amadores de Alcochete voltaram ontem
a marcar uma destacada posição e brilharam em duas pegas monumentais de Nuno
Santana (que brindou à fantástica Banda de Alcochete e esteve enorme, como
sempre, fechando-se à primeira com braços de ferro e não mais saindo, por muito
que o toiro o quisesse derrotar) e do jovem António José Cardoso, filho de
"Nené" (que é o mesmo que dizer filho de peixe, razão pela qual sabe,
e bem, nadar), que se está este ano a revelar um forcado de eleição. Pequeno,
franzino, ar de anti-vedeta, agiganta-se frente aos toiros e é um verdadeiro
monumento a pegar. Como em Santarém e como na Figueira da Foz, fez ontem em
Évora, logo à primeira, uma pega extraordinária. Cita com serenidade, recua com
a tranquilidade e a toreria dos maiores (tal Pai, tal filho) e tem um poder
arrasador na cara dos toiros. Ontem, aguentou firme um sem número de derrotes e
ficou, sem pestanejar, com a força e a decisão dos maiores, até que os
companheiros chegaram, depois de o toiro desviar a rota e ele ali, sózinho,
feito herói, a dizer "estou aqui", a dizer "vou fazer
história". Grande António José!
A primeira intervenção do Grupo de
Alcochete, no segundo toiro da corrida, coube ao experiente Fernando Quintela,
que pegou muito bem, mas acabou derrotado, concretizando à segunda, outra vez
brilhante e com o grupo a ajudar coeso e em força, evitando a todo o custo mais
um derrote idêntico ao que o toiro dera na primeira tentativa, tirando Quintela
fora. O valoroso forcado esteve valente nas duas tentativas e deu depoos merecida
e aplaudida volta.
Sobretudo na colocação dos toiros para
os forcados, mas também em momentos importantes de brega, destacaram-se os seus
bandarilheiros intervenientes na nocturna de ontem e há que aplaudir, por isso,
o desempenho de Ricardo Raimundo e Gonçalo Veloso, Nuno Oliveira e João Curto,
João Ganhão e Nuno Miguel Boga.
Apesar dos Ases, público eborense não quis jogar às cartas...
Apesar dos Ases, público eborense não quis jogar às cartas...
Anunciada como a Corrida dos 3 Ases, a
noite de ontem não repetiu o êxito de bilheteira que os júniores Bastinhas, Telles e Moura
tinham conseguido no mês anterior no Redondo, quando esgotaram o Coliseu. Com o
Benfica a jogar à mesma hora, a aficion eborense não quis ontem jogar às
cartas, por mais ases que o empresário "Nené" tivesse colocado neste
bem rematado elenco, limitando-se a preencher pouco mais de metade das bancadas.
Foi pena, porque a corrida acabou por resultar agradável e viveram-se grandes
momentos de emoção, quer por parte dos três cavaleiros, quer por parte dos
forcados.
Marco Gomes dirigiu com eficiência e
aficion. Houve brindes solidários a Marcos Bastinhas por parte de Miguel Moura
e dos dois grupos de forcados. Marcos dedicou a sua segunda lide a João Moura.
E foi assim a corrida nocturna de ontem em Évora - onde a temporada encerra no
próximo dia 1 de Novembro. Faça chuva ou faça sol.
Mais logo, não perca, a grande foto-reportagem
de Maria João Mil-Homens: o "filme" das seis pegas de ontem em Évora,
com todo o pormenor; e, amanhã, os Famosos que ontem marcaram
presença em Évora.
Fotos Maria João Mil-Homens