sábado, 12 de setembro de 2015

Évora, ontem: Bastinhas e Telles em grande "guerra", Moura azarado e pegas monumentais

Público de Évora não encheu ontem a praça para ver os 3 Ases. A corrida foi
agradável e foi pena que os três jovens toureiros não repetissem o êxito
de bilheteira de Agosto no Redondo
Marcos Bastinhas prestou ontem a maior homenagem que podia ter tributado
a seu Pai com dois monumentais triunfos em Évora
João Telles não perde nem a feijões e ontem respondeu aos triunfos de Bastinhas
com duas grandes actuações, a reafirmar o momento altíssimo que está a viver
Miguel Moura bailou com as mais feias e teve o grande valor de dar a volta
a complicados toiros de Pinto Barreiros com a arte que marca os Mouras
Grandes pegas, ontem em Évora, dos Amadores de Évora (João Pedro Oliveira
na foto de cima) e dos Amadores de Alcochete (António José Cardoso na foto
de baixo) - mais logo, não perca o "filme" das 6 pegas



Miguel Alvarenga - A viver um momento particularmente complicado e doloroso pelo grave acidente sofrido por seu Pai (graças a Deus, a recuperar com a força "do outro mundo" que todos lhe conhecemos), Marcos Tenório Bastinhas reafirmou ontem em Évora toda a sua raça e a sua casta de "toureiro de raiva" em duas portentosas e magistrais actuações frente a toiros de Pinto Barreiros, onde pôs à prova uma moral elevada e uma força anímica capaz de dobrar todos os Cabos Bojadores. Esteve realmente fantástico, quer a lidar, a bregar, a recortar-se em pormenores de imensa arte e a cravar em sortes de muita emoção e reconhecido valor. Terá prestado, com estas duas grandes actuações, a maior homenagem que poderia ter tributado a seu Pai, o nosso querido Joaquim Bastinhas.
João Ribeiro Telles atravessa um momento invencível, não perde nem a feijões e respondeu ontem aos triunfos de Bastinhas com duas inspiradas actuações, sobretudo a segunda, de tom altíssimo e em que deixou sobressair o domínio, a arte e o absoluto controlo de todas as situações, reafirmando a maturidade e a - há que dizê-lo, sem rodeios - maestria do seu toureio que, tal como o de seu Pai, João Palha Ribeiro Telles, é um misto de classicismo e de momentânea inspiração, como bem dizia o saudoso Bacatum, uma espécie de "romerismo", em clara alusão à "estranha arte" que foi apanágio das faenas mágicas do grande Curro Romero.

Miguel Moura bailou com as mais feias...

Ontem, Miguel Moura teve toda a vontade do mundo, mas teve também o azar de bailar com as mais feias. Enfrentou o pior lote e fez das tripas coração para dar a volta - que deu mesmo - ao primeiro de Pinto Barreiros que nem sequer se dignava a investir e ao outro, reservado, complicado e mansarrão. É um Moura e os Mouras são sempre Mouras - está tudo dito. E como com os toiros maus se vêem os bons toureiros, Miguel esteve superior e senhor da situação, escutando música e dando aplaudidas voltas nos dois toiros, em reconhecimento (do director de corrida Marco Gomes e do público) pelo seu esforço, pelo seu brilhante desempenho e pela excelente resposta dos seus cavalos a ultrapassar todas as dificuldades que os dois oponentes impuseram.
O ganadeiro Joaquim Alves ainda foi chamado à arena por João Telles no quinto da ordem, mas ficou na bancada, consciente de que não tinha havido mérito suficiente dos seus toiros para justificar tal honraria.
O primeiro toiro da noite (castanho) deixou-se lidar, o quarto e o quinto foram bons, sérios e a pôr respeito na arena, os restantes mansearam.
Noite grande para os dois grupos de forcados, os de Évora e os de Alcochete, numa temporada que está a ser marcada pela glória dos homens valentes das jaquetas de ramagens - que ontem voltaram a estar em grande evidência e a protagonizar, ela por ela, os momentos mais emotivos da corrida de Évora.
Pelo grupo da casa destacou-se o enorme João Pedro Oliveira num assombroso pegão (à segunda tentativa) ao quinto toiro da noite, onde evidenciou o seu muito valor e a sua aprumada técnica, galvanizando o público pela forma como esteve diante do toiro, como recuou toureando e como se fechou com decisão, aguentando uma barbaridade de derrotes, havendo que destacar também a pronta e eficiente ajuda de todos os companheiros.
A primeira pega da noite coube a Gonçalo Pires, que esteve muito bem, aguentando forte derrote e a consumou com galhardia e técnica, tendo todo o grupo ajudado prontamente. No segundo toiro dos Amadores de Évora (terceiro da ordem), um Pinto Barreiros cheio de sentido e que nunca se deixou "enrolar", tentaram a pega de cernelha (por opção, por mais nada) Manuel Rovisco e Cláudio Carujo, tendo este sido bastante maltratado e depois dobrado pelo próprio cabo António Alfacinha, acabando por ser concretizada a sorte sem aparato e com aparente facilidade, depois de várias entradas da dupla inicial, sem sucesso, valendo a condescendência e a aficion do director de corrida Marco Gomes, que deixou arrastar a situação por algum tempo. Mas cumpriu-se a pega e ninguém saíu derrotado. Uma cernelha não tem sempre que ser uma pega de recurso, aliás antigamente era tradição os grupos executarem essa sorte, bem como a desaparecida "casa da guarda", a par das pegas de caras. A decisão de Alfacinha, ontem, de brindar o público da sua terra com uma pega de cernelha, é plenamente aceitável, só foi pena que, pelo apurado sentido do toiro, não tivesse tido o brilho desejado.

António J. Cardoso: o pequeno-grande forcado

Os Amadores de Alcochete voltaram ontem a marcar uma destacada posição e brilharam em duas pegas monumentais de Nuno Santana (que brindou à fantástica Banda de Alcochete e esteve enorme, como sempre, fechando-se à primeira com braços de ferro e não mais saindo, por muito que o toiro o quisesse derrotar) e do jovem António José Cardoso, filho de "Nené" (que é o mesmo que dizer filho de peixe, razão pela qual sabe, e bem, nadar), que se está este ano a revelar um forcado de eleição. Pequeno, franzino, ar de anti-vedeta, agiganta-se frente aos toiros e é um verdadeiro monumento a pegar. Como em Santarém e como na Figueira da Foz, fez ontem em Évora, logo à primeira, uma pega extraordinária. Cita com serenidade, recua com a tranquilidade e a toreria dos maiores (tal Pai, tal filho) e tem um poder arrasador na cara dos toiros. Ontem, aguentou firme um sem número de derrotes e ficou, sem pestanejar, com a força e a decisão dos maiores, até que os companheiros chegaram, depois de o toiro desviar a rota e ele ali, sózinho, feito herói, a dizer "estou aqui", a dizer "vou fazer história". Grande António José!
A primeira intervenção do Grupo de Alcochete, no segundo toiro da corrida, coube ao experiente Fernando Quintela, que pegou muito bem, mas acabou derrotado, concretizando à segunda, outra vez brilhante e com o grupo a ajudar coeso e em força, evitando a todo o custo mais um derrote idêntico ao que o toiro dera na primeira tentativa, tirando Quintela fora. O valoroso forcado esteve valente nas duas tentativas e deu depoos merecida e aplaudida volta.
Sobretudo na colocação dos toiros para os forcados, mas também em momentos importantes de brega, destacaram-se os seus bandarilheiros intervenientes na nocturna de ontem e há que aplaudir, por isso, o desempenho de Ricardo Raimundo e Gonçalo Veloso, Nuno Oliveira e João Curto, João Ganhão e Nuno Miguel Boga.

Apesar dos Ases, público eborense não quis jogar às cartas...

Anunciada como a Corrida dos 3 Ases, a noite de ontem não repetiu o êxito de bilheteira que os júniores Bastinhas, Telles e Moura tinham conseguido no mês anterior no Redondo, quando esgotaram o Coliseu. Com o Benfica a jogar à mesma hora, a aficion eborense não quis ontem jogar às cartas, por mais ases que o empresário "Nené" tivesse colocado neste bem rematado elenco, limitando-se a preencher pouco mais de metade das bancadas. Foi pena, porque a corrida acabou por resultar agradável e viveram-se grandes momentos de emoção, quer por parte dos três cavaleiros, quer por parte dos forcados.
Marco Gomes dirigiu com eficiência e aficion. Houve brindes solidários a Marcos Bastinhas por parte de Miguel Moura e dos dois grupos de forcados. Marcos dedicou a sua segunda lide a João Moura. E foi assim a corrida nocturna de ontem em Évora - onde a temporada encerra no próximo dia 1 de Novembro. Faça chuva ou faça sol.

Mais logo, não perca, a grande foto-reportagem de Maria João Mil-Homens: o "filme" das seis pegas de ontem em Évora, com todo o pormenor; e, amanhã, os Famosos que ontem marcaram presença em Évora.

Fotos Maria João Mil-Homens