
Miguel Alvarenga - Alcochete e sobretudo a sua Feira de Agosto, pelas festas tão portuguesas do Barrete Verde e das Salinas, era a tua menina dos olhos, "Nené".
Andavas para trás e para a frente, embirravas com este e com aquele, discutias com outro, batias o pé a uma série deles, fumavas mais uns cigarritos e bebias mais um ou dois uisques e no fim telefonavas-me a contar os cartéis que tinhas montado.
Tinhas um feitio do caraças. A quem apoderavas, defendias com unhas e dentes e chateavas-me até me fazer perder a cabeça - às vezes, fazias mesmo perder a paciência a um santo, ou dois, ou mais - se uma ou outra vez não concordavas com aquilo que eu tinha escrito. O teu toureiro tinha que ser sempre o triunfador.
Chegámos a estar "brigados". Não era bem brigados. Apenas amuavas. Mas depois voltava sempre tudo ao normal. "Já leste o que o Alvarenga escreveu?", perguntou-te, perguntavam tanta vez, um amigo. Que depois me contou o que tu tinhas respondido: "Já li, sim, esse gajo é lixado, mas é meu amigo e eu sou amigo dele".
Tinhas um coração do tamanho do mundo, despias a camisa para a dar a um amigo. Eras um homem bem formado, educado, charmoso. Tinhas piada, sentido de humor. E esse teu sorriso maroto e às vezes tão sacaninha, fazia em ti a diferença.
Foste o último grande empresário tauromáquico deste país. O último romântico também. O que fazias, fazias bem feito. E fazias com alma.
E como forcado, nem vou falar. Foste dos grandes. E quando há tão poucos anos, com 60 e poucos anos, te voltaste a fardar e foste à cara de um toiro, ninguém mais teve dúvidas da grandeza que te ia, ainda e sempre, na alma. Foste diferente, "Nené". Foste único em tudo.
Lembras-te daquela viagem a Madrid, há mais de trinta anos, quarenta talvez, com o Rogério Amaro, com o José António Lázaro, com o nosso Amorim? Lembras-te do último jantar, dias antes de te ires embora sem sequer te despedires de nós, com o Rogério, no restaurante do meu irmão? Que noite, meu Deus! Que noite pelo que recordámos, pelo que rimos, pelo gosto que nos deu aos dois estar ali outra vez com o nosso "Pipi". E vinhas de tal maneira emocionado para esse encontro que quando me apanhaste à porta de casa disseste que o carro vinha estranho, aos soluços, desde Alcochete... pudera, tinhas posto gasolina e devias ter posto gasóleo...
Falaste-me das datas de Évora e das datas de Alcochete, dos cartéis que tinhas na cabeça. Agora, puta de vida, já não vais estar em Alcochete, como já não estiveste em Évora. Mas olha, os teus filhos queridos continuaram o teu trabalho com a mesma aficion, a mesma seriedade e o mesmo entusiasmo com que tu preparavas sempre esta Feira de Alcochete, as corridas em Évora e nas praças por onde passaste, onde fizeste história, onde deixaste o teu cunho. A Paula mantém o entusiasmo que era teu. O Carlos Ferreira tem sido incansável a apoiar os "miúdos". E a Feira vai ser um sucesso, vais ver. É a melhor homenagem que eles, que todos nós, te podemos fazer. Nunca te esquecendo. Isso, nunca!
Domingo lá estarei em Alcochete. E nos outros dias. Vamos todos esgotar a praça, lembrar-te, homenagear-te, dizer-te que nos deixaste, mas nós jamais te deixaremos.
Venha a Feira de Alcochete! Um beijo, "Nené".
Foto Emílio de Jesus
