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| Não foram apenas as duas "mourinas", foram as duas lides de estrondo que ontem reafirmaram João Moura Júnior na incontestável liderança do pelotão |
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| João Ribeiro Telles está num momento apoteótico e ontem marcou as suas duas actuações em Santarém com ferros de parar corações |

A associação Praça Maior devolveu aos aficionados o gosto de ir aos toiros na Monumental de Santarém. Ontem a praça voltou a encher com o regresso da histórica Corrida da CAP. O público encheu as bancadas para ver o novo Trio da Apoteose. Moura reafirmou e liderança, Telles empolgou com ferros de grande emoção e Palha marcou o seu regresso voltando a pisar a linha de fogo. Três toureiros com atitude, com ganas e com raça. Tarde grande para os forcados de Santarém e Montemor e toiros sérios e exigentes de Veiga Teixeira... que deu volta à arena no toiro errado...
Miguel Alvarenga - A Corrida da CAP (Confederação dos Agricultores de Portugal) nasceu no final da década de 70, quando estavam ainda quentes as chamas da "revolução", por obra e graça do sempre lembrado José Manuel Casqueiro. Foi, nas suas primeiras edições, uma corrida de praça cheia e com um significado político importante e marcante na época. Ontem, muitos anos depois de não se efectuar, regressou à Monumental de Santarém, já com outro sentido, sem o mesmo cunho político desses anos 70, mas com o mesmo carisma e o mesmo fulgor. Desta vez, marcou decisivamente a grande vitória alcançada pelo grupo de jovens que formou a associação Praça Maior e que conseguiu, mercê de um trabalho e um empenho notáveis, devolver aos aficionados o gosto de ir aos toiros à recuperada praça que tem o nome de Celestino Graça, o grande obreiro da Feira Nacional da Agricultura.
E foi precisamente para eles, os empreendedores e dinâmicos gestores da Monumental, uma das maiores e mais calorosas ovações da tarde de ontem, com o público de pé, quando Francisco Palha se apeou do seu cavalo e com as maneiras senhoriais que o carcaterizam, lhes brindou a lide do seu último toiro.
A aposta foi ganha, os objectivos foram alcançados, a associação Praça Maior é, com toda a justiça, a grande e maior triunfadora desta temporada em Santarém. Bem hajam!
Depois, o novo Trio da Apoteose. Moura, Telles e Palha são, a par de poucos mais - entre os quais há que referir Rouxinol Júnor, Telles Bastos, Duarte Pinto, Marcos Bastinhas, Salgueiro da Costa e agora também, prestes a entrar no pelotão da frente, António Prates e Moura Caetano de novo com uma quadra em grande e que dia 28 terá o primeiro grande desafio da sua temporada no Montijo -, três dos cavaleiros de maior interesse na actualidade. O confronto de ontem era um dos mais esperados da temporada e os empresários, se quiserem encher de novo as praças, não podem a partir de agora fugir muito das composições com estes nomes que referi. É chegada a hora de separar o trigo do joio.
E foi isso que fizeram ontem os jovens gestores da Monumental de Santarém. Um cartel de máxima qualidade, de alta competição - e que encheu a praça.
Frente a toiros de Veiga Teixeira indiscutivelmente bem apresentados, sérios, exigentes, a dar emoção, mas a transmitir menos do que se desejava e sem um gás por aí além, valeu sobretudo a entrega, a atitude, as ganas com que os três cavaleiros ali estiveram, com a raiva de "se comerem" uns aos outros, com a vontade de dizerem, todos eles, que "aqui quem manda sou eu!".
Estiveram os três ao melhor nível, mas ontem quem mandou foi João Moura Jr. Que manda, aliás, há cinco anos. Com maturidade, serenidade, segurança e plena maestria, reafirmou ontem a liderança de forma decisiva. O novo "Niño Moura", certamente consciente de que as portas gaiolas fazem parte da marca de Francisco Palha, antecipou-se e foi-se ao primeiro toiro da tarde numa arrepiante sorte dessas, que constituiu acima de tudo, e assim o devemos interpretar, um claro desafio ao companheiro de cartel. Resultou em cheio e repetiu a atitude no seu segundo toiro, onde a sorte de gaiola teve menos impacto - mas não menor fulgor.
Moura Júnior enfrentou dois toiros complicados, que pediam contas, lidando-os na perfeição. A primeira actuação, em que deu toda a prioridade ao oponente, esperando, entrando-lhe nos terrenos, cravando com emoção, foi como que um compêndio de verdade e de emoção.
A segunda voltou a ser uma lide "de estrondo", com a ousadia de terminar com duas "mourinas" frente a um toiro sério e que comprometia, galvanizando o público com esta sua nova sorte. Marcou a diferença.
João Ribeiro Telles vive também um momento de sonho e de enorme esplendor. Levara a melhor a Moura na véspera em Reguengos e ontem esteve em Santarém com as mesmas ganas e a mesma raça de chegar ao trono.
O segundo toiro da corrida era algo reservado e com pouco movimento. Telles lidou-o na perfeição, provocando-o, deixando ferros de uma imensa emoção.
O seu segundo toiro, quinto da tarde, foi um toiro de bandeira, um toiro para qualquer toureiro explodir. Talvez tivesse merecido uma outra lide, mas João deu-lhe a que entendeu, sem desiludir, antes pelo contrário. E marcou essa actuação, sobretudo, pela cravagem de ferros "do outro mundo", empolgando, galvanizando, confirmando a força com que está na "guerra". Onde é dos primeiros da frente.
Francisco Palha regressava ontem às lides depois da brutal colhida que sofreu há um mês em Salvaterra. Apeou-se do cavalo e brindou a sua actuação aos grandes obreiros da sua recuperação, o Dr. Manuel Passarinho, o fisioterapeuta Alfredo Nogueira e o amigo Francisco Marques "Chalana".
Era sério e exigente o toiro, como os demais, e Palhinha foi-se à luta com a decisão e o querer de sempre - como um herói. Uma notável sorte de gaiola deixou o público em alvoroço. E depois seguiu em frente, e de frente, pisando a linha de fogo, cravando ferros de máxima emoção, com a sua marca - que faz a diferença.
O último toiro da tarde não era pêra doce, nem nada que se lhe parecesse. E Francisco também não esteve aí no seu melhor. Foi uma lide marcada por alguma irregularidade, alguns desacertos e algo aquém do que ele queria - e todos queríamos também. No final, reconhecendo isso mesmo, recusou a volta à arena e entregou o tricórnio ao forcado Francisco Borges, recolhendo à trincheira.
Numa praça com um público "pouco cómodo" para os bandarilheiros, defensor dos forcados e que não permite abusos de capotazos nas lides, estiveram eficientes na brega e na colocação dos toiros para as pegas as quadrilhas dos três ginetes: Filipe Gravito e João Oliveira; Nuno Oliveira e Duarte Alegrete; Diogo Malafaia e Jorge Alegrias.
Tarde de triunfo e de seis grandes pegas, como já aqui referimos em pormenor, para os grupos de forcados Amadores de Santarém (António Taurino à terceira, Francisco Graciosa e Lourenço Ribeiro à primeira) e Amadores de Montemor (João da Câmara e Francisco Barreto à primeira e Francisco Borges à segunda).
Assessorado pelo médico veterinário Dr. José Luis da Cruz, foi ontem director de corrida Lourenço Luzio. Nada a apontar, a não ser o facto de não ter concedido volta à arena ao ganadero António Francisco da Veiga Teixeira quando este a merecia, no quinto toiro, e o ter contemplado depois com essa honraria no sexto, um dos piores da tarde. Voltas trocadas, foi o que foi...
Depois das três corridas de praça cheia em Santarém, fica o desafio à associação Praça Maior: porque não, como antigamente era tradição, uma quarta corrida na Feira da Piedade? Fazia todo o sentido.
Fotos Mónica Mendes




