Foi triste e desolador o que ontem se (não) viu no Campo Pequeno. Menos público ainda que na semana anterior numa corrida com cartel muito bem montado e rematado e onde deviam ter estado todos, quanto mais não fosse por solidariedade com o empresário e com a própria Festa e com a necessidade de a defender neste momento tão difícil e, acima de tudo, com o regresso do toureio a pé
Miguel Alvarenga - Das piores coisas que podem acontecer na vida é a falta de reconhecimento das pessoas pelo empenho, o esforço e o sacrifício que alguém faz em prol da defesa de valores e tradições que essas mesmas pessoas apregoam aos quatro ventos defender e a que depois, no momento da verdade, viram as costas.
Doa a quem doer (e se calhar dói a alguns...), Luis Miguel Pombeiro, até mais que o salvador da Pátria (taurina), é o grande herói desta temporada. A ele ficamos a dever o regresso das corridas de toiros quando, mal terminou o confinamento e com todas as restrições impostas, deu o passo à frente e levou por diante a primeira corrida a nível mundial, quando já poucos acreditavam que ia haver touradas este ano e muitas empresas tinham mesmo anunciado o cancelamento das suas temporadas.
A ele ficamos a dever também - como certamente o teríamos ficado aos outros que concorreram, há que ser justo - a concretização da temporada no Campo Pequeno, que era a praça sobre a qual recaiam as maiores dúvidas quanto à existência de corridas.
O cartel da semana passada era demasiado "corriqueiro", sem desprimor pelo valor de todos os que o integravam, mas era o cartel "menos" para Lisboa, justificando-se por isso a ausência de público. Ou talvez não. Mesmo assim, a todas as corridas do Campo Pequeno deveríamos dizer sempre presente!, quanto mais não fosse por uma questão de solidariedade e porque, mais que nunca, é necessário e urgente que demonstremos a nossa força, a nossa união e o nosso entusiasmo. Mas ninguém parece ainda ter entendido isso...
O cartel de ontem era um grande cartel. Com a ganadaria Vinhas a celebrar o seu 70º aniversário, com o Maestro António Telles (que deu lição de cátedra), com o fantástico Francisco Palha (que teve a sua melhor actuação de sempre na capital), com o regresso do toureio a pé com a arte e o valor do heróico António João Ferreira, depois da violenta colhida que ali sofreu há um ano. E mesmo assim o público não foi.
Justificações? Ilacções? Lições? Muitas. E algumas más.
Acredito que as pessoas andem assustadas com o aumento diário de casos de contaminação da covid-19 e evitem cada vez mais ajuntamentos. Mas o Campo Pequeno continua a ser um exemplo de respeito pelas novas regras de segurança. Mesmo assim, essa pode ser a justificação mais plausível - e a mais aceitável - para explicar a fraca adesão de público à corrida de ontem.
Tudo o mais são tretas. A tão proclamada (por alguns românticos que ainda acreditam nisso...) aficion ao toureio a pé é, foi sempre nos últimos anos, uma mentira. Viu-se outra vez ontem. Os fingidos aficionados do toureio a pé são, apenas e só, aqueles vinte ou trinta que em Março vão beber cañas, comer tapas e fumar grandes charutos a Olivença. Ontem não souberam vir apoiar o valoroso António João Ferreira. Nem o toureio a pé.
Falei esta manhã com Pombeiro. Está triste e desolado, como é óbvio. "Mas paciência, o público não veio, mas foi uma grande corrida", disse-me. Sem desistir. A passar à frente. Já entusiasmadíssimo com a corrida de 1 de Outubro e com a outra que ainda vai dar a 16 do mesmo mês. Herói!
Foram muitos nos últimos 50 anos (os anteriores já não são do meu tempo) os empresários que estiveram à frente do Campo Pequeno. Todos fizeram História e nenhum se pode comparar ao outro. Mas temos que fazer justiça a Luis Miguel Pombeiro - que agarrou a praça num momento complicadíssimo e tudo tem feito, dentro das restrições existentes (incluindo a impossibilidade de trazer grandes figuras de Espanha, como era usual e provavelmente voltará a acontecer no próximo ano) para levar o barco a bom porto.
Deviam todos estar a seu lado - e vir ao Campo Pequeno.
O deus Pombeiro dá nozes aos "aficionados" que não têm dentes. E é pena que assim seja.
Fotos M. Alvarenga
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| Onde estavam ontem os ditos aficionados do toureio a pé?... |

