"Chaubet", um dos grandes forcados da nossa História, autor de vários livros sobre a arte que tanto amava, morreu há dois anos com 92 anos e sem ter conseguido realizar o sonho de erguer no Campo Pequeno um Monumento ao Forcado. Fica a nossa homenagem
Miguel Alvarenga - Carlos Alberto Neves Anapaz Patrício Álvares, assim se chamava, que todos no meio taurino conheciam por “Chaubet”, foi durante muitos anos controlador aéreo de profissão, mas foi nas arenas e no mundo da forcadagem que fez história e que se tornou célebre. Um forcado que deixou rasto. E era uma referência.
"Que me perdoem os que não estejam de acordo comigo, mas as minhas preferências vão para o 'Chaubet', que foi um forcado que deixou rasto, que foi pilar fundamental do Grupo (de Lisboa), assisti a enormes pegas desse fenómeno. Sempre decidido, dava sempre a cara e vi-o resolver problemas bem difíceis. Penso que ele tem direito a ser colocado ao lado dos grandes forcados que houve. Deixou testemunhos grandiosos no historial da modalidade" - escreveu um dia, do alto da sua sapiência indiscutível, o grande José Telo Barradas. E com isto, disse tudo.
"Chaubet" integrou nos anos 40 a formação que fundou o afamado grupo de forcados Amadores de Lisboa, sob a liderança do inesquecível Nuno Salvação Barreto - por quem ele tinha um carinho e uma admiração desmedidas.
Foi um forcado completo, pegou durante cerca de três décadas. Ex-aluno do Colégio Valsassina, escola de vida de que sempre se gabava de ter pertencido, foi também um atleta de referência no mundo do boxe, da ginástica, do futebol.
Viveu como poucos a Lisboa boémia de outras eras, as cenas de pancadaria que acabavam sempre e inevitavelmente ao balcão de uma taberna qualquer, a beberem copos uns com os outros, já amigos e depois da bebedeira. E escreveu muitos livros. Retratou essa Lisboa sobretudo em "Lisboa de Outras Eras - Vida Vivida", mas deu à estampa também outros livros dedicados sobretudo aos Forcados, que era a raça que ele amava, destacando-se "À Unha", o último que escreveu.
Foi crítico tauromáquico, publicou centenas de artigos em jornais, revistas e nos últimos anos de vida na internet. O tema era invariavelmente e sempre o mesmo: essa gente-outra que pega toiros, tema de que era conhecedor imenso.
Tiva a sorte - que foi uma honra - de o ter conhecido bem e de com ele ter privado tanta vez - e aprendido tanto.
Viveu os últimos vinte anos da sua vida, iludido com a vontade de erguer em frente à praça de toiros do Campo Pequeno um Monumento ao Forcado. Morreu sem realizar o seu sonho.
Foto M. Alvarenga
