Miguel Alvarenga - Por motivos diversos que não vêm ao acaso, pode ser que um dia venham nas minhas "Memórias", não estive ontem no Campo Pequeno na segunda corrida da Feira Taurina de Lisboa.
Constato, uma vez mais, infelizmente, que o público aficionado (?) voltou a não ter respeito nenhum pelo Campo Pequeno e sobretudo pelo seu futuro (condenado) como praça de toiros. Ontem, rezaem as crónicas que li, "encheu" menos de metade da lotação permitida - que é de 50%. Na véspera não esteve ninguém. A Feira Taurina de Lisboa foi, afinal, um total e verdadeiro descalabro. E foi, o que é mais lamentável, uma "prenda" negativa (para nós) que os aficionados (?), insisto, deram de mão beijada a Medina, ao PAN e quejandos para que acabem de vez com as touradas em Lisboa. E depois venham dizer que a culpa é minha, que sou eu que estou contra a tauromaquia. Abram os olhos e se tiverem dois dedinhos de inteligência (mas não têm...) assumam que são vocês, os que se dizem aficionados, que estão a dar a machadada final na primeira praça do país.
Pombeiro arriscou, sim senhor. Deu tiros nos pés? Também deu. Por mais louvável que tenha sido a intenção de dar uma lufada de ar fresco ao toureio a pé, há que reconhecer que uma corrida de oito toiros com quatro matadores (dois espanhóis que estiveram acima da média, mas que não têm cartel nem nome por cá, apesar de incluir no elenco dois dos nossos melhores toureiros) era fruta a mais e sem cavaleiros nem forcados, prato forte da nossa Festa, era de facto um risco. O público não correspondeu.
Ontem, o mano-a-mano Bastinhas/Telles era só mais uma corrida e que também não atraiu ninguém. Ao longo da História (mas hoje tudo mudou), faziam-se mano-a-manos que tinham justificação, entre dois toureiros que andavam "em guerra", como é o caso de alguns dos cartazes que aqui recordo em baixo. Um mano-a-mano é isso: a competição entre dois toureiros que andam "em luta" um com o outro e cujo "duelo" se torna, por isso mesmo, um atractivo para chamar gente à praça.
Hoje em dia, os mano-a-manos que se justificam, na minha modesta opinião, são o de Moura Júnior e João Telles, o de João Moura e Ventura. O resto serão sempre mano-a-manos sem interesse - como ontem ficou provado com a fraquíssima adesão de público ao Campo Pequeno.
Marcos Bastinhas e João Telles são, reconheço, dois dos maiores triunfadores desta temporada. Não sei se já tourearam juntos este ano, é possível que sim, mas não protagonizam propriamente uma grande competição entre si. Moura (pai) e o eterno Bastinhas "guerreavam" em todo o lado e um mano-a-mano entre os dois justificou-se sempre e encheu Cascais quando o fizeram. Moura e João Telles (pai) idem, idem, aspas, aspas. Moura e Domecq também. Batista e Veiga, nos seus tempos, ainda mais. São apenas alguns exemplos do que eram, na verdade, os mano-a-manos de outros tempos.
Ontem faltou um terceiro cavaleiro para tornar o cartel mais atractivo. E não sou eu que o digo. Foi o público que o provou. Se tivesse havido interesse, a praça tinham enchido.
Constato, pelo que li e pelo que escreveu sobretudo Manuel Andrade Guerra no site aplausos.es, que João Ribeiro Telles foi o grande triunfador da noite, mas que Bastinhas esteve também muitíssimo bem no seu terceiro toiro.
Em título, Andrade Guerra afirma mesmo que "foi colossal" a passagem de João Telles pelo Campo Pequeno. Não me admira. Está num momento fantástico e não arrisco muito se afirmar que ele é o grande e incontestado triunfador desta segunda temporada da pandemia. Foi este ano o segundo toureiro a sair em ombros pela porta grande do Campo Pequeno, depois do Maestro Moura na noite memorável de 26 de Agosto.
Lidaram-se toiros de António Raúl Brito Paes, segundo Andrade Guerra, "com muitos quilos e pouca bravura", mas nobres na generalidade.
Houve concurso de pegas e foi ganho pelo forcado Francisco Rocha dos Amadores da Chamusca (Troféu "Coparias"). Por este grupo pegou ainda Miguel Santos, à primeira, como o vencedor.
Pelos Amadores do Ribatejo pegaram o cabo Pedro Espinheira à primeira dando o exemplo; e Dário Silva ao segundo intento. E pelos Amadores de Cascais, que comemoraram na capital os seus 40 anos de actividade, foram caras Ventura Doroteia e Carlos Silva, ambos à primeira.
Dirigiu, bem como sempre, presumo, João Cantinho, que esteve assessorado pelo histórico médico veterinário da primeira praça do país Jorge Moreira da Silva. Ao início da corrida, guardou-se um minuto de silêncio em memória de Jorge Sampaio, o último Presidente da República que nunca teve medo de dar a cara pela tauromaquia. Merecido.
Luis Miguel Pombeiro apostou no que acreditou que ia ser um êxito. Vai agora ter que repensar toda a história do Campo Pequeno, caso tenha a coragem de continuar. Eu batia com a porta. Anda a dar nozes a quem não tem dentes. E os aficionados (?) estão a acabar com a tauromaquia. E com as touradas em Lisboa.
Fernando Medina foi, indiscutivelmente, o grande triunfador desta fracassada Feira Taurina de Lisboa. Depois queixem-se e digam que sou eu o mau da fita. Vocês fazem-me rir.
Nota final - O que aqui escrevi não é, obviamente, uma crónica da corrida de ontem - a que não assisti -, mas apenas e só o constatar de alguns factos resultantes do que li. Mas também não se admirem, porque com a pasmaceira de mais do mesmo que continua a caracterizar os cartéis nacionais, qualquer um é capaz de fazer a crónica de qualquer corrida com um mês de antecedência - que vai sempre dar certo e descrever exactamente o que se passou ou vai passar...
Fotos João Silva/@João R. Telles




