segunda-feira, 25 de maio de 2026

Tarde de antologia de Miguel Moura na Moita

Miguel Alvarenga - Mais Taça de Portugal, menos Taça de Portugal (quase à mesma hora), não foi por isso que a praça da Moita teve ontem menos gente, com muito cimento à vista (bancadas sem público) sobretudo nos sectores do sol. É certo e sabido que a corrida de Maio na Moita fica sempre pela meia casita, houve uma excepção nos últimos anos quando Ventura ali foi na tarde da alternativa de Paco Velásquez, mas foi mesmo, e só, uma excepção. De resto, a Moita é Setembro e a sua Feira. E Maio é Maio, maduro e fraco... 

Mas quem lá esteve não deu por mal empregue o seu tempo. A corrida valeu sobretudo pela actuação de Miguel Moura no quinto toiro (foto de cima), um belíssimo e bravo exemplar da ganadaria Cunhal Patrício, premiado com muitos aplausos quando era recolhido e depois com a merecida volta à arena do ganadeiro Alberto Cunhal Patrício, na companhia do cavaleiro de Monforte e do forcado Miguel Direito, dos Amadores de Alcochete, que o pegou à primeira, como, aliás, foram ontem pegados todos os seis toiros.

Miguel Moura, que no seu primeiro toiro, segundo da corrida, já dera sinais de estar ali para sair triunfador da tarde, recebendo-o com uma valente sorte de gaiola, demonstrando toda a sua raça, toda a sua ambição, e prosseguindo depois com uma lide em que primou pelos bonitos pormenores de brega e pelas sortes carregadas de verdade e emoção, deu no quinto toiro da ordem um verdadeiro recital de bem tourear, lide magistral e em crescendo, de verdadeira antologia, com o público entusiasmado a aplaudir os recortes e os remates de maravilha numa tarde de muita inspiração, daquelas que marcam e que afirmam um toureiro. Esta segunda actuação de Miguel foi brindada a José João Carreira, o sócio "francês" de Levesinho e, ao que consta, o muito provável futuro empresário da praça "Daniel do Nascimento".

Miguel Moura valeu a corrida, sem desprimor para os seus companheiros de cartel. Mas, pese embora a apurada arte de Moura Caetano e o esforço de António Telles (filho) com o pior lote, a tarde foi sua. E ficou marcada pela actuação antológica frente ao quinto toiro. Ao melhor estilo "da casa", honrando todo o historial do Maestro, seu pai, quando passa exactamente meio século do arranque da Revolução Mourista em Madrid, que inovou a arte de lidar toiros a cavalo e obrigou a que nada fosse igual ao que era dantes. 

João Moura alterou, inovou. Hoje todos o seguem, hoje todos toureiam como ele disse há cinquenta anos que se ia passar a tourear. Este fim-de-semana há-de ficar na História. Pelos triunfos dos seus filhos. João no sábado em Portalegre e Miguel ontem na Moita. A dinastia continua. E vem aí em força o Tomás!

De resto, a corrida de ontem foi uma corrida vulgar, igual a muitas. Os toiros de Cunhal Patrício, bonitos e bem apresentados, tiveram comportamentos desiguais, mas eram exigentes, tinham raça e transmitiam.

João Moura Caetano lidou em primeiro lugar um toiro que cedo procurou refúgio nas tábuas, obrigando-o a desenvolver uma lide de grande empenho e entrega, que resultou e foi reconhecida pelo director com música e pelo público com grande ovações.

No quarto toiro, de melhor nota, mas meio desinteressado, Moura Caetano utilizou o famoso cavalo "Campo Pequeno" e com ele deu alguma luz a uma actuação que foi boa, sem contudo ter sido um triunfo grande. Terminou em beleza com o vistoso cavalo "Gallo". Faltou ontem ao João melhor matéria prima para bordar o toureio com o temple e a consistência a que nos habituou ao longo destes vinte anos de alternativa que esta temporada celebra.

António Telles (filho) foi o menos bafejado pela sorte no que toca ao lote de toiros que lhe calharam em sorteio. O terceiro da tarde foi um toiro com presença, mas de investidas menos claras e algo parado. António deu-lhe a volta por cima e a lide resultou perfeita.

No sexto, faltaram-lhe opções. Tinha o ganadeiro acabado de dar a volta à arena pela fantástica qualidade do quinto toiro e logo saíu este a atirar para o mansote, muitos furos abaixo dos outros. António fez o que pôde - e fê-lo muito bem. Com toiros maus se vêem os bons toureiros, costuma dizer-se. E assim foi ontem na Moita. O director concedeu-lhe música já em final de lide, mas António considerou que não era uma lide para "musicar" e pediu à banda que parasse. No fim, não quis dar volta, apesar de o público ter reconhecido a sua esforçada lide com uma forte ovação.

Os toiros não foram fáceis, mas ontem houve excesso de capotazos e de intervenções dos bandarilheiros em praça. Houve protestos do público em algumas ocasiões. Coadjuvaram as lides José Franco "Grenho" e António Telles Bastos (da quadrilha de Caetano), Joaquim Oliveira e João Bretes (de Moura), o grande João Ribeiro "Curro" e Fernando Fetal (de Telles).

Tarde grande dos forcados Amadores de Alcochete e Amadores do Aposento da Moita, com seis emotivas e perfeitas pegas ao primeiro intento - de que a seguir aqui vamos mostrar todas as fotos.

Por Alcochete foram caras Miguel Pargana, Vitor Marques e Miguel Direito; pelo Aposento da Moita pegaram o cabo Luis Canto Moniz, André Silva e António Lopes Cardoso.

A corrida, que se iniciou com um respeitoso minuto de silêncio em memória de Augusto Levesinho, pai do empresário Ricardo Levesinho, foi bem dirigida por Tiago Tavares, que esteve assessorado pelo médico veterinário Carlos Santana, sendo José Henriques o cornetim de serviço.

Uma única nota negativa: a poeirada que nos sujou a todos na segunda parte da corrida, apesar de ter havido um intervalo e tempo de sobra para regar a arena. Esqueceram-se...

E desta tarde de meia casa na Moita, seguimos para Setembro e para a sua Feira, já com nomes sonantes anunciados, como os de Alejandro Talavante na primeira corrida (terça 15) com Tomás Bastos e com Miguel Moura, triunfador incontestado da corrida deste domingo.

Fotos M. Alvarenga

João Moura Caetano
António Telles (filho)