Miguel Alvarenga - Moralizado, muito bem equipado com uma quadra de cavalos maravilhosa, a viver a sua melhor temporada de sempre, saindo finalmente da sombra em que o tapava o mano Número 1, Miguel Moura demonstrou ontem na Moita - e bem! - que ninguém se vai admirar - ou protestar - se no fim a crítica (e, em especial, o público) o proclamar este ano como o grande triunfador da temporada. Há anos que o Miguel vinha apontando para a frente, a dizer que a meta não estava longe. Vai finalmente cortá-la este ano, já não tenho dúvidas disso, na dianteira do pelotão. E ontem na Moita, com uma parte de matadores "a meio gás", sem o brilho que se esperava, a noite foi indiscutivelmente dele - a noite do Miguel.
Toureou sózinho pela frente aos matadores, foi pena não ter tido um competidor para provocar maior emoção nas bancadas - e na arena. Competiu só com ele próprio. Superou-se. Esteve simplesmente fenomenal, na linha de sempre do toureio mourista, lidando, bregando, recriando-se com ladeios de emoção (e risco) na cara dos toiros, toureando com segurança e tranquilidade os dois corpulentos toiros da ganadaria Charrua, o primeiro com 610 quilos (que recebeu com uma monumental sorte de gaiola), o segundo com 550, que não tendo propriamente a agressividade e a transmissão que se deseja num toiro bravo, não desiludiram, cumpriram dentro dos limites, permitiram a Miguel Moura exibir toda a sua arte, o seu sentimento, a sua apurada maturidade e a grande segurança e emoção do seu bom toureio.
O público esteve com Miguel Moura e aclamou-o no final das duas actuações em aplaudidas voltas à arena. Com toda a legitimidade, ele saíu ontem da Moita como grande triunfador da primeira corrida da importante feira.
Nas pegas, como é tradicional nesta Corrida do Município, esteve o Grupo de Forcados Amadores da Moita, sob o comando de João Raposo. Duas valentes pegas aos toiros de Charrua (que empurraram, sem complicar minimamente), por intermédio de João Pombinho (à segunda) e David Solo (à primeira), com os companheiros a ajudar bem nas duas intervenções.
O toureio a pé, num dos seus principais palcos, a aficionada praça moitense, teve altos e baixos numa noite que acabou por ser mais morna que triunfal, não enchendo por completo as medidas a quem ali foi para ver os matadores.
A "Daniel do Nascimento" registou uma boa entrada de público, a rondar os três quartos da lotação preenchidos, nesta primeira noite da feira, que contou com a honrosa presença no camarote principal do presidente da Câmara, Carlos Albino, a quem os forcados brindaram a segunda pega.
Estavam anunciados para as lides a pé quatro toiros da ganadaria de Talavante, mas dois foram substituídos por exemplares de Manuel Calejo Pires, provavelmente por não reunirem as condições necessárias para saírem à arena da exigente praça da Moita. E foram precisamente os toiros da ganadaria do antigo forcado que acabaram por salvar a noite no que aos matadores diz respeito. Os espanhóis deixaram muito a desejar em todos os aspectos.
Nota alta para os dois toiros de Calejo Pires (segundo da noite, toureado por Alejandro Talavante; e o último, que proporcionou um bom triunfo a Tomás Bastos). De inferior qualidade e menor apresentação, os dois de Talavante (o terceiro da ordem, toureado por Tomás Bastos; e o quinto, que não tinha um passe, enfrentado pelo seu próprio dono).
Talavante chegava à Moita depois de um triunfo memorável na véspera em Murcia. Trajado de amarelo, indiferente aos que decretaram que essa bonita cor (a minha preferida, até tenho uma Yellow Vespa!) dá azar a quem toureia, esteve determinado e com classe frente ao seu primeiro toiro, um bom exemplar de Calejo Pires, que recebeu com bonitas verónicas. Tomás Bastos respondeu com um arrimado quite por chicuelinas e Talavante picou-se, mostrou que também sabe desenhá-las - e bem!
Os tércios de bandarilhas nos dois toiros de Talavante, mal e porcamente (não) preenchidos pelos subalternos do matador espanhol, foram uma vergonha sem descrição. Bem sabemos que os bandarilheiros espanhóis, na sua maioria, acusam por cá a falta dos picadores e não aguentam a pedalada dos nossos toiros, vendo-se e desejando-se para os bandarilhar - mas então deveria solucionar-se este assunto de uma vez por todas, substituindo os espanhóis por bandarilheiros portugueses, evitando assim a desgraça a que se assistiu ontem na Moita, sob sonoros protestos - e muitas gargalhadas! - do público. Uma triste comédia "bandarilhada" sem nexo...
Talavante toureou esse primeiro toiro de Calejo Pires com profundidade e com entrega, com bom gosto e com classe, mas muito na defesa e abusando de um toureio "com o bico da muleta", ou seja, pegando nela muito "à ponta", fazendo o toiro passar sempre mais ao largo do que perto de si... Coisas que nem toda a gente dá por elas, mas... O público gostou, a música tocou e o Maestro deu aplaudida volta à arena. Mas soube a pouco... Melhor dizendo: convenceu-nos pouco. De um figurão deste calibre, espera-se sempre mais e mais...
O seu segundo toiro, quinto da noite, era mesmo seu, pertencia à sua ganadaria. Não tinha classe, não tinha ponta por onde se lhe pegar, não tinha um passe e, para agravar tudo isso, deu uma valente cambalhota no tércio de capote e ficou seriamente combalido. Talavante fez tudo o que podia para agradar, mas sem ovos...
Tomás Bastos viveu ontem uma noite que não terá sido muito fácil. Sabia, de antemão, que no final ia chegar às Redacções o comunicado de Cristina Sánchez e José Alexandre a anunciar o fim do apoderamento. Durante toda a corrida, os (ainda) apoderados nunca se acercaram dele na trincheira, estiveram sempre afastadíssimos. Tomás teve apenas a seu lado o moço de espadas e os seus bandarilheiros, entre os quais os portugueses Joaquim de Oliveira e Pedro Paulino "China".
A acrescentar a todos estes anti-corpos com que ontem teve que se defrontar na Moita, Tomás Bastos ainda teve que ouvir os sonoros protestos, na bancada, de seu tio-avô Dário Venâncio (fotos de cima), antigo bandarilheiro, irmão do saudoso matador José Júlio, que se insurgiu contra o facto de ele não bandarilhar, gritando, alto e a bom som: "Bandarilha os toiros! Honra a memória de teu tio José Júlio!".
Tomás Bastos é um excelente e exímio intérprete da arte de bandarilhar, mas optou por apagar essa mais valia do seu repertório, não se entende porquê. Bandarilhou no ano passado em Abiul porque era obrigatoriedade contratual e bandarilhou na primeira corrida do Campo Pequeno este ano porque Morante também acabara de bandarilhar. De resto, entrega o tércio de bandarilhas aos seus subalternos. E o tio, irmão do Maestro José Júlio, histórico na arte de bandarilhar, quis demonstrar publicamente o seu desencanto por essa decisão do sobrinho-neto e insurgiu-se contra ele em público.
Reconheça-se, em nome da verdade, que Tomás superou todos esses contratempos, impondo com raça e valor a sua vontade e a sua arte. Esteve bem, com entrega e ofício, na faena ao terceiro toiro da corrida, da ganadaria de Talavante, que se deixou tourear, sem grandes alardes, proporcionando ao jovem toureiro uma faena com bom ritmo e que o público aplaudiu, incentivando o matador. Tomás brindou esta primeira actuação ao jovem Eduardo "Chibanga", promissor aluno da Escola de Toureio da Moita.
O último toiro, de Calejo Pires, tinha mais qualidade e mais cara. Tomás Bastos abriu o livro e toureou-o com bom gosto e muito ofício. O tércio de bandarilhas, desta vez, ficou marcado por dois grandes pares de Pedro Paulino "China", que agradeceu de montera em mão uma fortíssima ovação do público. Com a muleta, ao som da música e acompanhado por aplausos do público entusiasmado, Tomás Bastos desenhou uma bonita faena... mas, para muitos, teve o triste sabor do "canto do cisne", simbolizando o fechar de uma página e o fim de um ciclo - que era de esperança e assim deixa de o ser.
Agora sem apoderados e com o futuro muito ensombrado em Espanha, Tomás Bastos vai praticamente ter que começar tudo de novo, depois de, importa realçar e não esquecer, Cristina Sánchez e José Alexandre lhe terem proporcionado, de bandeja, todas as oportunidades com que um toureiro sonha, sem que ele as tenha conseguido aproveitar como se impunha. Foi este ano duas tardes a Madrid, esteve na Feira de Sevilha, esteve em outras feiras importantes de Espanha e de França... e a realidade é que não se passou nada.
Ao início da madrugada de ontem, mal terminara a corrida da Moita, Cristina Sánchez e José Alexandre emitiram o comunicado que oficializou a separação que há muito se comentava nos mentideros nacionais e espanhóis.
No primeiro parágrafo do comunicado, explicam tudo quando informam que chegou ao fim a relação "profissional e pessoal" com o matador de toiros Tomás Bastos, "ponto fim a uma etapa de três anos, que acompanhavam desde os seus inícios na Escola Taurina de Badajoz até à sua alternativa".
Cristina Sánchez e José Alexandre deixaram bem frisado que terminou ontem a relação profissional com Tomás Bastos, mas não quiseram deixar de acrescentar que terminou também a relação pessoal que mantinham com o jovem toureiro. O que foi ontem bem visível pelo distanciamento com que estiveram separados a noite toda na trincheira, nunca se chegando sequer a cumprimentar...
Voltando à Moita, uma palavra de apreço pelo bom (e discreto) desempenho dos dois bandarilheiros de Miguel Moura, Jorge Alegrias e João Bretes. E para as excelentes intervenções, nos toiros de Tomás Bastos, dos bandarilheiros lusos Joaquim de Oliveira e Pedro Paulino "China" (especialmente este, com as bandarilhas).
A corrida, algo demorada e com um desnecessário intervalo, foi acertadamente dirigida por Ruben Fragoso, que esteve assessorado pelo competente médico veterinário José Luis da Cruz. Ontem os toques estiveram a cargo do novo cornetim Pedro Henriques Lopes, neto (e digno sucessor) do emblemático José Henriques.
Ao início da corrida, foi guardado um minuto de silêncio em memória do jovem forcado Luis Campino (do grupo de Amadores do Cartaxo), que morreu há um mês vítima de doença oncológica. Seu pai, o embolador Luis Campino, recebeu o brinde dos Amadores da Moita na primeira pega da noite.
Fotos M. Alvarenga
| Talavante e Tomás Bastos: dois toiros de Calejo Pires salvaram a "parte apeada" ontem na Moita, mas a noite foi de Miguel Moura |