sexta-feira, 7 de junho de 2013

C. Pequeno, ontem: a força de Ferrera e a arte e valentia de Dias Gomes!




Miguel Alvarenga - Têm os homens dos toiros a péssima tradição de se deslumbrar e enaltecer tudo o que vem da vizinha Espanha, esquecendo e menosprezando o que é nosso. A galinha do vizinho é sempre melhor que a nossa e se for espanhola, então, nem é preciso dizer mais nada...
Natural, por isso, que hoje se enalteça o poderio, a força, o domínio e a garra com que o matador António Ferrera (foto ao lado) triunfou ontem no Campo Pequeno - e triunfou mesmo. É justo e é merecido que se enalteça a sua entrega, a sua raça, a forma correcta e artista com que lanceou à "verónica" de capote, a  "facilidade" (chega a parecer fácil...) e o tremendo poder com que bandarilhou e também tudo o que pôs, quis e fez nas duas "mandonas" faenas de muleta. Ferrera chegou e disse "estou aqui!" - e ninguém deu pela falta do lesionado Iván Fandiño, que veio substituir na primeira corrida mista da temporada lisboeta.
É justo e é merecido, repito, que se diga e se escreva tudo e mais alguma coisa sobre o brilhante e fortíssimo triunfo do todo-poderoso Ferrera ontem na arena lisboeta. É um "torerazo" de se lhe tirar o chapéu, subiu a corda a pulso, é um "todo-terreno" implacável, foi eleito triunfador de Madrid, está rodado e moralizado para triunfar onde for e com que toiros for, pode com eles todos.
Mas é justíssimo e merecidíssimo enaltecer também o valor, o querer e a arte que o "nosso" Manuel Dias Gomes (foto de cima) ontem ali confirmou. Novilheiro, portanto num escalão abaixo do triunfador Ferrera, o toureiro português atravessou com calmaria e decisão a arena e colocou-se de joelhos frente à porta dos curros para receber, como os valentes, como os heróis, o seu primeiro toiro. Vinha decidido ao triunfo - estava na sua cara.
Poderoso, com trapio e idade, o toiro de Varela Crujo (estupendos os lidados a pé) avançou desenfreado para o capote do jovem diestro, que desenhou uma "larga afarolada", desequilibrando-se a seguir. O toiro foi por ele e colheu-o com tremenda violência. Manuel foi pelo ar, projectado a uma altura incrível, como um boneco de trapos - um momento dramático, felizmente sem consequências de maior. Temeu-se o pior. De novo no chão, voltou a ser alcançado e atirado ao ar, novamente com uma violência assustadora. Mesmo assim, levantou-se, recompôs-se e prosseguiu com artísticas "verónicas", superiormente rematadas.
Já com a muleta e depois de brindar ao público do Campo Pequeno, a grande promessa do nosso toureio a pé desenhou bonita faena por ambos os lados, expressando a sua imensa arte e a profundidade do seu toureio "sevilhano".
Foi importante a mensagem de consagração que Manuel Dias Gomes transmitiu ontem em Lisboa. No último toiro da noite, cuja lide brindou aos jovens alunos das escolas de toureio ali presentes, voltou a sobressair na forma e na maneira de estar, nos "pintureros" muletazos que desenhou com vagar e bonito temple.
Os toiros de Varela Crujo, muito bem apresentados e pouco "despontados", impondo seriedade e perigo, permitiram excelentes faenas aos dois diestros, serviram e bem, como é tradição da ganadaria, para o toureio a pé. Mas já o mesmo se não pode dizer dos lidados a cavalo.
Mansos e evidenciando perigo nas investidas, sobretudo o que tocou a Moura Caetano, não permitiram o luzimento dos cavaleiros. Luis Rouxinol fez o que pôde, pondo "a carne no assador" e destacou-se sobretudo num extraordinário ferro a sesgo, mesmo junto à porta dos cavalos e também no par com que fechou a sua esforçada actuação. Quem sabe, sabe e não há toiros mansos que consigam baixar a chama do toureio de Rouxinol - sempre em grande!
João Moura Caetano fez "das tripas coração" para lidar  o quinto da ordem, sofreu mesmo um fortíssimo "aperto" contra as tábuas, mas "resolveu a papeleta" mercê do seu saber, da enorme moral com que se encontra e da excelente qualidade das suas brilhantes montadas. Não foi, contudo, o êxito esperado e muito menos, depois de tantos outros noutras praças, o triunfo com que contava reafirmar em Lisboa o seu estatuto indiscutível de triunfador. Ficou a vontade, o querer e a confirmação do grande momento que atravessa - mesmo sem ter tido ontem matéria prima para o triunfo sonhado...
Os dois cavaleiros brilharam apenas no primeiro toiro da noite, que lidaram a duo na perfeição e em total conjugação, destacando-se um e outro na forma como bregaram e nos ferros emocionantes que cravaram. Derem aplaudida volta à arena e sairam moralizados para as lides seguintes a sós, mas depois...
Com tais toiros, difícil e complicada (íssima) foi a noite para os forcados açoreanos da Tertúlia Terceirense, que vinham à capital assinalar os seus 40 anos de existência. "Agarraram", com as ajudas "em cima", os três toiros - sem brilhantismo e denotando evidentes deficiências. Não repetiram, infelizmente, triunfos anteriores obtidos naquela arena. Há noites assim...
Numa noite em que brilhou o toureio a pé, com pouco público nas bancadas (mesmo assim, mais gente que na "dramática" corrida de abertura da temporada), dirigiu bem o antigo forcado Nuno Gama.
Bom desempenho de todos os bandarilheiros, com destaque para David Antunes, Josué Salvado, Pedro Paulino e João Diogo Fera e grandes pares de bandarilhas de Joaquim Oliveira e Cláudio Miguel, este último obrigado a agradecer os aplausos do público no último toiro da noite.
Presente num camarote, o Maestro José Samuel Lupi foi brindado no toiro a duo por Rouxinol e Caetano no dia em que passavam 50 anos sobre a noite em que ali, naquela mesma praça, recebeu a alternativa das mãos de Mestre João Núncio.

Fotos Emílio de Jesus/fotojornalistaemilio@gmail.com