
Miguel Alvarenga - Têm os homens dos
toiros a péssima tradição de se deslumbrar e enaltecer tudo o que vem da
vizinha Espanha, esquecendo e menosprezando o que é nosso. A galinha do vizinho
é sempre melhor que a nossa e se for espanhola, então, nem é preciso dizer mais
nada...
Natural, por isso, que hoje se enalteça
o poderio, a força, o domínio e a garra com que o matador António Ferrera (foto ao lado) triunfou ontem no Campo Pequeno - e triunfou mesmo. É justo e é merecido que se
enalteça a sua entrega, a sua raça, a forma correcta e artista com que lanceou
à "verónica" de capote, a
"facilidade" (chega a parecer fácil...) e o tremendo poder com
que bandarilhou e também tudo o que pôs, quis e fez nas duas
"mandonas" faenas de muleta. Ferrera chegou e disse "estou
aqui!" - e ninguém deu pela falta do lesionado Iván Fandiño, que veio
substituir na primeira corrida mista da temporada lisboeta.
É justo e é merecido, repito, que se
diga e se escreva tudo e mais alguma coisa sobre o brilhante e fortíssimo
triunfo do todo-poderoso Ferrera ontem na arena lisboeta. É um "torerazo"
de se lhe tirar o chapéu, subiu a corda a pulso, é um "todo-terreno" implacável, foi eleito triunfador de
Madrid, está rodado e moralizado para triunfar onde for e com que toiros for,
pode com eles todos.
Mas é justíssimo e merecidíssimo
enaltecer também o valor, o querer e a arte que o "nosso" Manuel Dias
Gomes (foto de cima) ontem ali confirmou. Novilheiro, portanto num escalão abaixo do
triunfador Ferrera, o toureiro português atravessou com calmaria e decisão a
arena e colocou-se de joelhos frente à porta dos curros para receber, como os
valentes, como os heróis, o seu primeiro toiro. Vinha decidido ao triunfo -
estava na sua cara.
Poderoso, com trapio e idade, o toiro de
Varela Crujo (estupendos os lidados a pé) avançou desenfreado para o capote do
jovem diestro, que desenhou uma "larga afarolada", desequilibrando-se
a seguir. O toiro foi por ele e colheu-o com tremenda violência. Manuel foi
pelo ar, projectado a uma altura incrível, como um boneco de trapos - um momento dramático, felizmente sem
consequências de maior. Temeu-se o pior. De novo no chão, voltou a ser
alcançado e atirado ao ar, novamente com uma violência assustadora. Mesmo
assim, levantou-se, recompôs-se e prosseguiu com artísticas
"verónicas", superiormente rematadas.
Já com a muleta e depois de brindar ao
público do Campo Pequeno, a grande promessa do nosso toureio a pé desenhou
bonita faena por ambos os lados, expressando a sua imensa arte e a profundidade
do seu toureio "sevilhano".
Foi importante a mensagem de consagração
que Manuel Dias Gomes transmitiu ontem em Lisboa. No último toiro da noite,
cuja lide brindou aos jovens alunos das escolas de toureio ali presentes,
voltou a sobressair na forma e na maneira de estar, nos "pintureros"
muletazos que desenhou com vagar e bonito temple.
Os toiros de Varela Crujo, muito bem
apresentados e pouco "despontados", impondo seriedade e perigo, permitiram
excelentes faenas aos dois diestros, serviram e bem, como é tradição da
ganadaria, para o toureio a pé. Mas já o mesmo se não pode dizer dos lidados a
cavalo.
Mansos e evidenciando perigo nas
investidas, sobretudo o que tocou a Moura Caetano, não permitiram o luzimento
dos cavaleiros. Luis Rouxinol fez o que pôde, pondo "a carne no
assador" e destacou-se sobretudo num extraordinário ferro a sesgo, mesmo
junto à porta dos cavalos e também no par com que fechou a sua esforçada
actuação. Quem sabe, sabe e não há toiros mansos que consigam baixar a chama do
toureio de Rouxinol - sempre em grande!
João Moura Caetano fez "das tripas
coração" para lidar o
quinto da ordem, sofreu mesmo um fortíssimo "aperto" contra as
tábuas, mas "resolveu a papeleta" mercê do seu saber, da enorme moral
com que se encontra e da excelente qualidade das suas brilhantes montadas. Não
foi, contudo, o êxito esperado e muito menos, depois de tantos outros noutras
praças, o triunfo com que contava reafirmar em Lisboa o seu estatuto
indiscutível de triunfador. Ficou a vontade, o querer e a confirmação do grande momento que atravessa - mesmo sem ter tido ontem matéria prima para o triunfo sonhado...
Os dois cavaleiros brilharam apenas no
primeiro toiro da noite, que lidaram a duo na perfeição e em total conjugação,
destacando-se um e outro na forma como bregaram e nos ferros emocionantes que
cravaram. Derem aplaudida volta à arena e sairam moralizados para as lides
seguintes a sós, mas depois...
Com tais toiros, difícil e complicada
(íssima) foi a noite para os forcados açoreanos da Tertúlia Terceirense, que
vinham à capital assinalar os seus 40 anos de existência.
"Agarraram", com as ajudas "em cima", os três toiros - sem
brilhantismo e denotando evidentes deficiências. Não repetiram, infelizmente,
triunfos anteriores obtidos naquela arena. Há noites assim...
Numa noite em que brilhou o toureio a
pé, com pouco público nas bancadas (mesmo assim, mais gente que na
"dramática" corrida de abertura da temporada), dirigiu bem o antigo
forcado Nuno Gama.
Bom desempenho de todos os bandarilheiros,
com destaque para David Antunes, Josué Salvado, Pedro Paulino e João Diogo
Fera e grandes pares de bandarilhas de Joaquim Oliveira e Cláudio Miguel, este
último obrigado a agradecer os aplausos do público no último toiro da noite.
Presente num camarote, o Maestro José
Samuel Lupi foi brindado no toiro a duo por Rouxinol e Caetano no dia em que
passavam 50 anos sobre a noite em que ali, naquela mesma praça, recebeu a
alternativa das mãos de Mestre João Núncio.
Fotos Emílio de Jesus/fotojornalistaemilio@gmail.com

