Duarte Fernandes tem 23 anos e confessa que nunca pensou ser outra coisa senão toureiro. O tio, Rui Fernandes (é filho de sua irmã Dulce), era o seu ídolo desde miúdo e "sonhava ser como ele". Com apenas 11 anos toureou pela primeira vez em público num festejo em Alagoa, Portalegre. E não parou mais.
Hoje apontam-no como a nova estrela do toureio a cavalo, mas ele diz que não pensa nisso. “Penso em melhorar e aprender, em dar o melhor de mim e em alcançar um dia a perfeição com que sonho tourear”, afirma.
2025 é um ano importante para o Duarte. Já esteve na Feira de Castellón, onde tinha a porta grande na mão e a perdeu por matar mal o seu segundo toiro. Dia 12 de Abril estará no Montijo para o grande e decisivo desafio do mano-a-mano com Diego Ventura. Segue-se Madrid e a importante Feira de Santo Isidro.
A alternativa, que chegou a estar apontada para o Campo Pequeno, pode ficar para 2026. “A praça não sai do sítio”, graceja.
Duarte fala com decisão e sem rodeios. É ainda “um miúdo”. Mas tem alma e coração de toureio grande, dos que se agigantam e se transformam quando entram em praça para enfrentar um toiro. E sabe muito bem o que quer e para onde vai. Venham daí ouvi-lo.
Entrevista de Miguel Alvarenga
- Já lá vão quantos anos desde que toureaste a primeira vez em público? Tinhas quantos anos?
- Já lá vão doze, treze anos. Eu tinha onze. Foi em Alagoa, em Portalegre.
Lembro-me bem.
- A infância passada em grande parte na quinta de teu avô e de teu tio, a vê-lo treinar todos os dias, o convívio com outros toureiros que por lá passavam, tudo isso te influenciou certamente e te traçou o caminho que estás agora a percorrer. Pergunto, Duarte, alguma vez te passou pela cabeça ter outra profissão na vida?…
- Foi tudo natural, nunca pensei noutra coisa. Eu não morava na quinta, ia lá de vez em quando, mas acompanhava o meu tio e passava na quinta muito tempo. E desde muito cedo via-o como um ídolo e sonhava ser como ele. É difícil de explicar, mas a verdade é que nunca me imaginei a fazer outra coisa que não fosse tourear. Sempre foi o que quis fazer e aquilo com que sonhei desde miúdo.
- Além do teu tio, que outros toureiros foram teus ídolos? Viste, por exemplo, em filmes, os toureiros de antigamente, o Mestre Batista, o Luis Miguel da Veiga, o José João Zoio e outros mais?
- Vi, claro que vi. Hoje em dia é mais difícil até encontrar esses filmes antigos, mas eu sempre que posso procuro ver filmes e imagens desses cavaleiros antigos e que marcaram a história. E, como é óbvio, com o passar dos anos, fui tendo outros ídolos, outros profissionais que admiro bastante. Casos como os de João Salgueiro, de João Moura pai no seu tempo, no seu auge. Há vários cavaleiros que sempre admirei, até é difícil estar agora aqui a dizer os nomes de todos. Cada um marcou uma época, cada um marcou um momento e cada um entrou na história do toureio.
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Em 2018 na quinta da Charneca da Caparica com o tio e o avô |
- O tempo passou desde aquela primeira vez em Alagoa. Tens consciência, hoje, do estatuto que alcançaste, de seres neste momento referenciado e apontado como a nova estrela do toureio a cavalo?
- Em Castellón, na semana passada, por exemplo, faltou matar bem o segundo toiro para abrir a porta grande e sair em ombros…
- É verdade, foi pena…
- Qual é a sensação que se tem num momento desses, é uma impotência?…
- É uma sensação um bocado agri-doce. Temos ali um bocado as coisas na mão e depois deixamo-las fugir… Mas é assim, também faz parte, é normal às vezes acontecer isso. Como é óbvio, custou-me bastante, tinha ali a porta grande na mão e depois fechou-se por ter estado mal a matar o segundo toiro. A verdade é que me custou bastante, mas encaro isso como uma aprendizagem, como uma lição, procuro aprender com essas tardes menos boas para melhorar. E sigo em frente e penso para a próxima não falhar e dar o melhor de mim.
- A quadra de cavalos, como é? Divides com teu tio ou tens os teus cavalos e ele os dele?
- Já vou tendo cavalos que sou só eu que utilizo, mas nós partilhamos bastante a quadra. Nos dias em que só toureio eu, levo os cavalos, levo praticamente a quadra completa, nos dias em que toureamos os dois, mas em locais separados, eu levo alguns cavalos que já estão fixos comigo e o meu tio leva os que estão fixos com ele.
- Amigos, amigos, negócios à parte, não é? Cada um vai estar ali para ser o melhor…
- Pois (risos)… Quer seja com o Diego, quer seja com outros toureiros, cada um sai à praça sempre para ser o melhor e eu vou sempre também com essa mentalidade. Não a pensar nos outros, mas a pensar em dar o melhor de mim. Pensar na melhor versão de mim. E querer estar no meu melhor. É nisso que eu vou a pensar. E, claro, é uma responsabilidade muito maior, muito acrescida, por estar a tourear mano-a-mano com a primeira figura do mundo.
- E que expectativas para a corrida? Vamos ter lotação esgotada, vai ser uma corrida que marca a temporada?
- Eu espero que tenhamos lotação esgotada, a corrida tem todos os aliciantes para isso, em todas as vertentes. E acho que pode ser uma corrida que pode marcar a temporada. Tanto pelo regresso do Diego com três toiros, tanto pelo facto de eu estar presente nessa corrida e não tourear tantas vezes em Portugal, vai ser uma oportunidade para mim de mostrar em três toiros como sinto e interpreto o toureiro, de poder estar no meu melhor, para as pessoas poderem ver e avaliar-me. O facto de se lidarem toiros de três importantes ganadarias e o facto de pegar uma Selecção de Forcados como nunca se viu constituem outros importantes factores para justificar uma lotação esgotada. E acho que pode ser uma corrida que marcará a temporada. Sem dúvida.
- E depois, Madrid, a Feira de Santo Isidro, a 31 de Maio…
- Outra corrida muito importante para mim. Confirmei a alternativa em Madrid, no ano passado cortei uma orelha numa das corridas de seis cavaleiros no mês de Agosto e este ano vou num cartel de máximo nível, com o Maestro Ventura e com o Sebastián Fernández, que confirma a alternativa. Estou com muita ilusão nesta corrida.
- E a alternativa? Tomaste a alternativa em Arles em 2021, mas não é válida cá, não se percebe bem porquê. Falou-se que seria este ano em Lisboa, depois em Santarém e depois outra vez em Lisboa, mas parece que não se confirma…
- Para lhe ser sincero, eu não estou muito dentro do assunto nessas coisas. A gestão da minha carreira está entregue ao meu tio, como a outras pessoas que connosco colaboram e fazem parte dela, e eu preocupo-me todos os dias em trabalhar, em melhorar, em aperfeiçoar-me e em dar depois o meu melhor nas corridas em que estou anunciado. Por vezes até pergunto ao meu tio onde é a próxima corrida e ele diz-me: “Tu preocupa-te em montar e em treinar e deixa isso para mim”. Tirar a alternativa em Lisboa era um sonho e estou com vontade de que isso aconteça, mas sou novo e a praça não sai do sítio…
- E o resto da temporada, Duarte, vais tourear pouco por cá, como tem acontecido até aqui?
- Gostava de tourear mais. Há esta primeira corrida no Montijo, vou à Feira de Abiul, como já foi anunciado, aí toureio com o meu tio na corrida mista. E é possível que vá à Moita, não sei ainda, mas há dois anos que ganho o prémio de melhor cavaleiro da Feira da Moita e a Moita tem sempre feito parte da minha temporada em Portugal, por isso acredito que possa ir em Setembro. As coisas têm corrida bem e a Moita tem sido especial para mim. Infelizmente, acho que vão voltar a ser poucas corridas em Portugal. Espero um dia poder estar mais vezes por cá, mais presente nas praças portuguesas.
- No Montijo vai ser de casaca, certamente…
- Obviamente. Em Portugal, sempre de casaca. Nem está em discussão isso. Mas há 'uma parte minha' que se sente melhor a tourear de traje curto em Espanha, não só pela comodidade, é preferível o traje curto do que a casaca se temos que descabelhar um toiro, por exemplo. Mas também porque os meus princípios foram em Espanha, a maior parte da minha temporada é em Espanha e acho que tourear trajado de curto é também uma forma de agradecer um pouco às pessoas de lá todo o carinho e todo o apoio que me têm dedicado e com que me têm acolhido. Agora não sei o que é que o futuro vai dizer, o que vai acontecer, o que vamos decidir…
Fotos D.R./M. Alvarenga, Philippe Gil Mir, Arjona, Justin Rocha e João Silva