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João Faro (primeiro ajuda) e o jovem Pedro Graciosa (forcado de cara) protagonizaram o mais emotivo momento da corrida desta tarde em Santarém na pega ao quinto toiro (de Veiga Teixeira) |
Miguel Alvarenga - Com um bonito dia de sol e até algum calor, em contraste com o tempo menos agradável que se sentiu no dia de ontem e que levou ao adiamento da primeira corrida da temporada (inicialmente agendada para este sábado) para a tarde de hoje, a Monumental de Santarém foi palco e cenário de um ambiente fantástico, com as bancadas da "Celestino Graça" completamente cheias (bem visível nas fotos de baixo) e um grande envolvimento de políticos, a começar pelo aficionado presidente da Câmara, João Teixeira Leite (que presidiu à corrida), assim como de outros presidentes de outras autarquias do país e de uma numerosa comitiva de deputados do Chega (entre os quais Pedro Correia, José Dotti e Catarina Salgueiro) e também, entre outros, Inês Barroso, deputada do PSD.
Muitas caras conhecidas e grandes figuras do mundo taurino português também não faltaram ao arranque da temporada nacional, dando à bem cuidada Monumental de Santarém, a maior praça de toiros do país, uma moldura humana fabulosa e muito engrandecedora da Festa. Assim, vale a pena ser aficionado.
Antes de mais, está de parabéns, como sempre, a dinâmica Associação Sector 9, formada por um punhado de grandes aficionados e antigas glórias da forcadagem, unidos no mesmo espírito e com o mesmo objectivo: engrandecer e promover a tauromaquia como deve ser, enaltecer a Monumental "Celestino Graça" e proporcionar aos aficionados momentos inolvidáveis como aqueles que ali vivemos hoje, antes (no magnífico almoço servido na habitual tenda defronte da praça, onde vários grupos de aficionados levaram o seu piquenique e onde voltou a ponderar a estupenda paelha de Luis Baptista, do restaurante lisboeta "O Bem Disposto", infelizmente ausente por motivos de saúde, mas muito bem representado por sua filha Mariana e por toda a equipa que esteve a seu lado), durante e depois da corrida.
Há maneiras e maneiras de promover a tauromaquia e de promover os eventos que se organizam. E nisso, meus amigos, a Associação Sector 9 leva a dianteira e está sempre na linha da frente. Melhor era mesmo impossível.
Momentos antes do início da corrida, no corredor da praça, foi prestada homenagem póstuma ao saudoso campino António Maria Abreu "Colorau", recordado em emotivos discursos pelo provedor da Santa Casa, José Miguel Noras, e pelo presidente da Câmara, João Teixeira Leite, que descerraram uma placa que ali imortaliza para sempre a memória do homenageado (foto em baixo).
Seguiu-se a corrida, muito correctamente dirigida por Marco Cardoso (como sempre), que esteve assessorado pelo competente médico veterinário José Luis da Cruz, cabendo a José Henriques, o cornetim-mor do reino, dar os toques da ordem.
Para começar a temporada, não foi uma corrida demorada, não foi uma grande corrida, não teve grandes toiros (era um "duelo ganadero" entre as divisas de Veiga Teixeira e Murteira Grave), mas viram-se toureiros com vontade e com garra; e, sobretudo, grandes forcados.
Na primeira parte, os toiros de Veiga Teixeira (primeiro) e de Murteira Grave (segundo e terceiro) não deram aos cavaleiros grandes opções de triunfo, foram três toiros meio sonsos, com pouca chama e quase nenhum tempero. Valeu a entrega e valeu a raça de João Moura Jr.; o muito querer e o grande valor de João Salgueiro da Costa; e a raça e a arte de António Ribeiro Telles filho. De resto, chegámos ao intervalo com a sensação de que a corrida estava a saber a pouco, excepção feita às intervenções monumentais (monumentais mesmo!) dos forcados de Santarém e do Aposento da Moita.
Na segunda parte, João Moura Jr. lidou um toiro com mais qualidade de Murteira Grave (com 580 quilos!), quase bravo, com mobilidade, a transmitir emoção. Esteve o cavaleiro de Monforte superior, no seu melhor, terminando com duas valentes "mourinas". O forcado André Silva, do Aposento da Moita, que consumou a pega ao terceiro intento, não quis dar a volta à arena, apesar de autorizada pelo director Marco Cardoso, e Moura Jr. solidarizou-se com ele e apenas agradeceu nos tércios, abandonando a arena sem dar volta. Mas merecia-a.
João Salgueiro da Costa teve também na segunda parte um toiro (de Teixeira) com mais opções que o anterior. Empenhou-se, arriscou, protagonizou uma lide valorosa, com princípio, meio e fim, com ferros de muita emoção e em terrenos de compromisso. Salgueirinho no seu melhor.
António Telles filho é uma figura em ebulição. Reafirmou esse estatuto esta tarde em Santarém. Recebeu com uma aplaudida e emotiva sorte de gaiola o último toiro, um bom exemplar de Veiga Teixeira, a transmitir e a emocionar, sem facilitar. Esteve meio apressado na cravagem dos três ferros compridos, mas depois acalmou, foi mais devagar ao toiro nos curtos, lidando e bregando com classe e saber.
Um lide de valor premiada com aplaudida volta à arena, que deu acompanhado só pela aficionadíssima miudagem que no final das corridas nesta praça salta sempre à arena a acompanhar os forcados, porque o forcado António Lopes Cardoso (Aposento da Moita) não quis dá-la também, embora autorizado para o fazer, por considerar que era imerecida (mas não era) essa honraria depois de ter pegado o toiro à terceira tentativa.
Pelos Amadores de Santarém pegaram o primeiro, terceiro e quinto toiros os forcados Francisco Cabaço (à primeira); Salvador Ribeiro de Almeida (à primeira, com uma grande primeira ajuda de Francisco Luis Lopes); e o jovem Pedro Graciosa (filho do antigo cabo também assim chamado), que, se não se estreou, fez uma das suas primeiras pegas, protagonizando um dos momentos mais altos da corrida. Pegou o quinto toiro à segunda tentativa com uma ajuda monumental do valente João Faro, que é também um grande forcado de cara. Deram ambos a volta à arena sózinhos, com o público de pé a aclamá-los, porque Salgueiro não os quis acompanhar - mas era inteiramente merecido que o tivesse feito.
Pelos Amadores do Aposento da Moita, pegaram os segundo, quarto e sexto toiros os forcados João Freitas (uma grande e emotiva pega ao primeiro intento); André Silva (à terceira); e António Lopes Cardoso (também à terceira). A seguir já vamos mostrar as sequências das seis valorosas pegas.
Nota alta para todos os ajudas de ambos os grupos, com intervenções de valor que não passaram despercebidas a ninguém. Destaco, além dos já referidos, o valoroso e muito eficiente João Manoel do Grupo de Santarém e o grande Luis Canto Moniz, cabo do Grupo do Aposento da Moita, um forcado completíssimo, excelente a pegar de caras e também a ajudar.
Resumindo e concluindo, saímos todos satisfeitos de Santarém, não foi uma corrida má, mas também não foi uma corrida daquelas que marcam. Não houve triunfos memoráveis dos cavaleiros, apenas e só porque não tiveram matéria prima para escrever obras de arte. E a tarde acabou por ser dos forcados. Que é uma coisa que acontece muitas vezes em Santarém!
Fotos M. Alvarenga
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| Homenagem ao saudoso campino "Colorau" antes da corrida |
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| Salgueiro, Moura Jr. e Telles filho |
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| Santarém foi praça cheia |