domingo, 2 de agosto de 2026
Nazaré rendida à arte e ao poderio de Daniel Luque
Miguel Alvarenga - O sempre animado e muito colaborante público da Nazaré, onde assistir a uma corrida de toiros continua a ter um sabor diferente, rendeu-se ontem à arte e ao poderio do matador sevilhano Daniel Luque, que encantou e galvanizou em duas faenas de grande impacto e muito aprumo, dando um importante contributo à necessária afirmação (e recuperação) do toureio a pé em praças de Portugal.
O toureiro apoderado por Rui Bento toureou dois bons toiros, bem apresentados, que investirem e se fartaram de investir com nobreza sem se cansarem, evidenciando bravura, ambos da ganadaria Ribeiro Telles, agora gerida pelo Maestro António, que acompanhou o matador na muito aplaudida volta à arena no último toiro.
Daniel Luque é um dos toureiros que, embora nem sempre certeiro com o estoque, tem estado a marcar esta temporada de 2026 em Espanha e em França, e também do outro lado do Atlântico, tendo recentemente triunfado no Peru. A sua apresentação na temporada portuguesa e na bem montada temporada da Nazaré, estava rodeada de muita expectativa. E a presença, ontem, dos empresários de Santarém e Vila Franca nas bancadas da Nazaré confirma precisamente a expectativa que existia para rever Daniel Luque em Portugal, onde já não actuava há uns anos.
Sereno, senhor das situações, artista, poderoso, o toureiro de Gerena esteve bonito e artista com o capote e mandão com a muleta frente aos dois toiros, toureando a gosto, desfrutando, encantando, aproveitando a excelente qualidade dos oponentes, toureando, toureando e toureando com entrega, com ofício, com a atitude própria dos maestros, dos eleitos, impactando, conquistando o público - que não lhe regateou aplausos e fortes aclamações enquanto dava as voltas à arena.
Luque evidenciou estar a viver um momento alto, daqueles que enchem de moral os toureiros e deles fazem "filhos de um deus maior". Alto profissionalismo, grande capacidade de lidador, dominador perfeito e seguro, a desfrutar e a oferecer ao público, com bonita e aprumada atitude, momentos de suprema categoria.
Apesar do alto nível deste segundo cartel da Nazaré, a praça não registou a enchente habitual. Esta era mais uma corrida para aficionados do que propriamente para um público (especial) como o desta praça (mais festivo, que vai aos toiros para se divertir e se emocionar, não concretamente para assistir a lições de cátedra...). A lotação ocupada foi a de dois terços fracos, talvez meia casa forte, algo aquém do que se impunha com um elenco desta categoria.
Foi importante a presença de Daniel Luque em termos de revitalização do toureio a pé. O público aplaude e emociona-se quando o toureio (seja a pé, seja a cavalo) é bom, como ontem aconteceu. A sempre apregoada crise do toureio a pé é, e continua a ser, uma falsa questão. Mas a realidade é que poucos empresários apostam na corrida mista. Se houvesse outra dinâmica empresarial, o toureio a pé num instante voltava ao esplendor de antigamente. Sempre cavalos também cansa... e ainda por cima, quando é quase sempre tudo mais do mesmo...
Ontem não foi. Ontem houve diferença.
Francisco Palha esteve simplesmente magistral, sobretudo no primeiro toiro, um Passanha de nota altíssima.
Diogo Passanha teve a maestria de seleccionar ao longo dos anos um encaste que, apesar da origem Murube, não tem a ver com a moda dos "nhoc-nhoc's" que trotam ao lado dos cavalos e também se param quando os cavalos param, os chamados toirinhos da corda. Nesta ganadaria isso não se passa. Os Passanha, toiros para o triunfo dos toureiros (dia 20 lida-se um curro em Las Ventas, Madrid), não são propriamente mauzões, mas transmitem emoção, têm agressividade, pedem contas, têm teclas e são, sobretudo, duríssimos para os forcados, como ontem se viu...
Francisco Palha atingiu uma maturidade notável e está um toureiro seguro, ousado como sempre foi, mais apurado e muito mais confiante em si próprio e na sua extraordinária quadra de cavalos.
Virou a Nazaré do avesso na primeira actuação, com brega perfeita e ferros de uma emoção tremenda, dando espaço e prioridade ao toiro, lidando com maestria, emocionando tudo e todos, a pisar a linha da verdade, onde o risco é maior e a arte se transforma em raça, confundindo-se com a tragédia. É isto a Festa Brava!
O público esteve com Francisco Palha, que no quinto toiro, algo mais reservado e de investidas menos claras, obrigando a algumas passagens em falso, voltou a arrimar-se e a criar emoção em todas as sortes, conquistando o estatuto de (mais um) "toureiro da Nazaré", uma praça e um púbico que elege e acarinha os toureiros que lhe causam calafrios e lhe pregam sustos pela ousadia e pela verdade com que enfrentam os toiros. Como ontem fez Palhinha. Dois grande triunfos.
Guillermo Hermoso de Mendoza fazia ontem na Nazaré a sua única apresentação deste ano na temporada portuguesa. Não é, como o pai foi, um toureiro com força na bilheteira. Mas é um toureiro bom e ontem ninguém ficou indiferente à sua arte, à sua equitação, à sua garra.
Aproveitou as excelentes e emotivas investidas do segundo Passanha da noite para lidar com eficácia e muita precisão, cravando ferros de grande nível e recriando-se em artísticos remates colado ao toiro. Empolgou o público e provocou um ambiente de grande euforia nas bancas.
Diogo Passanha foi muito justamente honrado pela directora de corrida Ana Pimenta com volta à arena, acompanhando Guillermo e o forcado Salvador Coimbra, do Aposento da Moita, que fez a única pega à primeira numa noite que não foi nada fácil para a forcadagem.
O quinto toiro não tinha a mesma qualidade do primeiro que lhe tocou em sorte, mas não complicou e permitiu a Guillermo Hermoso a realização de uma lide vistosa, com bonitos momentos de "bom bailado" e arrimadas piruetas - que entusiasmaram o conclave.
Bem a lidar e a colocar os toiros para os forcados, merecem o nosso aplauso e reconhecimento os bandarilheiros de Palha e Hermoso, com destaque para Diogo Malafaia e João Oliveira (quadrilha de Palha) e para Ricardo Raimundo (este da equipa de Hermoso).
Os bandarilheiros de Daniel Luque - os antigos matadores António Manuel Punta e Juan Contreras e Jesús Arruga - acusaram a falta de varas e não brilharam, bem pelo contrário, no primeiro tércio de bandarilhas, mas no último toiro, mais confiados, cravaram bons pares e receberam aplausos.
Um parêntesis para sublinhar a superioridade com que Daniel Luque deu a volta, no seu primeiro toiro, com uma enorme faena, ao ambiente algo hostil que os seus subalternos tinham acabado de provocar na bancada (assobios e protestos) pelas más intervenções no tércio de bandarilhas.
Depois de brindar ao público a sua primeira faena, Daniel Luque dedicou a segunda ao jovem empresário Rui Pedro Cordeiro, filho de Rui Bento, pedra essencial no bom funcionamento e no grande sucesso da empresa Doses de Bravura.
Guillermo Hermoso brindou a sua primeira actuação a Francisco Palha e este dedicou a sua segunda lide aos Maestros Pablo Hermoso de Mendoza e António Ribeiro Telles. Gestos. bonitos numa noite grande de toiros.
Mais logo, tratemos aqui todas as fotos das quatro pegas dos dois grupos de forcados aos bravos e nada fáceis toiros de Passanha, que por norma não facilitam muito a vida aos valentes rapazes das jaquetas de ramagens.
O consagrado Grupo de Santarém não teve ontem uma noite brilhante. Consumou duas pegas ao terceiro intento, a primeira pelo genial Francisco Cabaço e a segunda pelo também valoroso João Faro.
Melhor o Aposento da Moita, com uma grande pega de Salvador Coimbra à primeira tentativa e outra também imponente de Rodrigo Aranha, à segunda.
Ao início da função, guardou-se um minuto de silêncio em memória de António José Zuzarte, ex-cabo dos forcados Amadores de Montemor, que morreu na passada semana, vítima de doença prolongada, com 86 anos. Terminado o minuto, o público tributou calorosa ovação, homenageando a sua figura - que jamais se esquecerá.
Mesmo sem ter atraído muito público às bancadas da praça do Sítio da Nazaré, a corrida foi muito boa, teve ritmo e todos sairam da praça com a sensação de que assim vale a pena ser aficionado.
Bom contributo para o êxito foi a excelente direcção de corrida de Ana Pimenta, que ontem esteve assessorada pelo médico veterinário Gonçalo Louro, que é, curiosamente, o cabo dos forcados Amadores de Portalegre - grupo que na próxima corrida, a do "Farpas" na noite de 15 de Agosto, vem repartir cartel com o de Montemor.
João Moura Caetano, Marcos Bastinhas (depois do êxito marcante na primeira corrida da temporada nesta praça) e João Ribeiro Telles - com toiros da prestigiada ganadaria de Manuel Veiga - são os cavaleiros que no próximo dia 15 prometem esgotar a praça da Nazaré na 14ª Corrida "Farpas".
Lá vos espero a todos!
Fotos M. Alvarenga
| Daniel Luque toureou a gosto e com grande impacto |
| Ousado, cada vez mais atrevido, Francisco Palha empolgou com duas lides de tremenda maestria |
| Público da Nazaré aclamou o bom toureio de Guillermo Hermoso |
| Ganadeiros em noite de grandes triunfos: Diogo Passanha deu volta à arena no segundo toiro e António Telles no último |
| Praça da Nazaré registou uma entrada de meia casa forte |
Miguel Ángel Perera indulta toiro de Juan Pedro Domecq em Huelva, hoje toureia Duarte Fernandes!
Praça esgotada ontem em Huelva para mais uma grande corrida da Feira das Colombinas, que terminou com os três matadores em ombros (foto de cima).
Miguel Ángel Perera indultou o primeiro toiro de Juan Pedro Domecq, de nome "Onírico", nº 101, sendo premiado simbolicamente com as duas orelhas e o rabo; no quarto da tarde, cortou mais uma orelha.
Roca Rey cortou uma orelha ao seu primeiro toiro e foi premiado com as duas do segundo, com forte petição de rabo, que a presidência não lhe concedeu.
David de Miranda cortou as duas orelhas ao terceiro Domecq da tarde e mais uma ao sexto.
Hoje, com toiros de Bohórquez, toureia Duarte Fernandes na corrida de rejoneadores do ciclo, última antes da alternativa que receberá na próxima quinta-feira no Campo Pequeno.
Duarte (foto de baixo), reparte hoje cartel com Andy Cartagena, Diego Ventura, Andrés Romero, Guillermo Hermoso de Mendoza e Sebastián Fernández.
Amanhã, segunda-feira, realiza-se a última corrida da feira na praça La Merced, com cartel formado por Morante de la Puebla, Daniel Luque e David de Miranda, com toiros de distintas ganadarias (cartaz em baixo).
Fotos António del Carmen/Toros La Merced e M. Alvarenga
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| Duarte Fernandes toureia hoje em Huelva, última corrida antes da alternativa na próxima 5ª feira no Campo Pequeno |
Martim Velásquez: aluno da Escola da Moita brilha em Écija (Sevilha)
Na novilhada realizada ontem em Écija (Sevilha), Martim Velázquez, promissor aluno da Escola de Toureio e Tauromaquia da Moita, filho do antigo matador Nuno Velásquez, voltou a afirmar o seu bom gosto e bom toureio, deixando uma faena de grande nível que mereceu o reconhecimento do público (video em cima).
Apesar de ter rubricado a faena com uma estocada inteira, perdeu as orelhas pelo mau uso do descabelho.
Video e foto D.R./Escola de Toureio e Tauromaquia da Moita
Ontem, sábado: 41.869 leram o "Farpas"!
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sábado, 1 de agosto de 2026
Lisboa e Coruche: 6 pegas de eleição ontem em Paio Pires
Miguel Alvarenga - Já aqui referi, mas reafirmo: os forcados de Lisboa e de Coruche salvaram ontem, com toda a dignidade e toda a valentia e valor, a honra da Tauromaquia Lusitana ao protagonizarem os melhores e mais emotivos momentos da corrida de praça cheia realizada em Paio Pires (Seixal) na corrida que o canal espanhol OneToro transmitiu em directo para o mundo inteiro, com seis rijas e duras pegas a toiros de ganadarias espanholas e portuguesas (concurso) daqueles que metem respeito, pedem contas e impõem seriedade ao espectáculo. Daqueles com que não se brinca...
As fotos das sequências das seis pegas creio que dispensam grandes comentários. Falam por si e retratam os momentos de grande verdade, de elevada seriedade e de muita emoção que os forcados dos dois valorosos grupos ontem protagonizaram em Paio Pires, saindo como máximos e absolutos triunfadores de uma noite que as câmaras do canal espanhol OneToro (em boa hora) levaram a todo o mundo, com altíssimos picos de audiências, ao que se sabe. E sem que com isso tenham prejudicado, antes pelo contrário, a afluência de público à praça. Os aficionados marcaram presença em força, pese embora a corrida ser transmitida pela televisão e a poderem ver comodamente em suas casas.
Ficam as imagens destacadas das seis pegas dos Amadores de Lisboa e Amadores de Coruche.
A primeira, ao toiro de Canas Vigouroux (550 quilos) foi consumada com brilhantismo e grande intervenção dos ajudas, pelo forcado Duarte Nascimento, de Lisboa, ao primeiro intento. Pega valorosa e perfeita a um toiro que, como já referi, saiu combalido, mas cresceu do longo da lide. O cavaleiro Gilberto Filipe não deu volta, veio ao centro da arena saudar o público, e o forcado regressou à trincheira, não tendo dado a volta - que merecia. A pega foi brindada a Maria João Rosado, presidente da Junta de Freguesia de Paio Pires, que presidiu à corrida no camarote.
Pedro Galamba, dos Amadores de Coruche, pegou o segundo toiro à segunda tentativa, depois de sofrer um violento derrote na primeira intervenção. Brindou aos céus, à memória de António José Zuzarte, saudoso cabo do Grupo de Montemor, falecido esta semana com 86 anos e por quem se guardou um minuto de silêncio ao início da corrida. O toiro era o de Prudêncio (560 quilos). O forcado deu volta com Miguel Moura.
Tomé Batalha, dos Amadores de Lisboa, fez uma rija e emotiva pega ao primeiro intento ao terceiro toiro da noite, o exemplar da ganadaria espanhola Benítez Cubero (540 quilos), brindando a sorte aos dois antigos forcados do grupo António José Casaca e Nelson Lopes, organizadores das corridas nesta bem cuidada praça de Paio Pires. O forcado contou com uma primeira ajuda primorosa de Gonçalo Bento, que o acompanhou e ao cavaleiro António Prates na muito ovacionada volta à arena.
A quarta pega, ao toiro espanhol de Villamarta, que viria a ganhar os prémios de bravura e apresentação neste Concurso de Ganadarias, foi uma pega assombrosa, magistral, executada pelo consagrado forcado coruchense António Tomás, que ficou praticamente só na cara do toiro depois de este se desviar do grupo, aguentando derrotes e mais derrotes até os companheiros se lhe juntarem. Um pegão a consagrar um forcado de eleição. Deu volta à arena com Gilberto Filipe e depois exigiram-lhe uma segunda e merecida volta, mas António ficou-se pelo centro da arena... e o cavaleiro juntou-se-lhe, repartindo os aplausos. Tomás brindou a sua grande pega aos dois gestores taurinos da praça, António José Casaca e Nelson Lopes.
José Batista, de Lisboa, fez a quinta pega ao toiro sobrero de Canas Vigouroux, com força e a arrear, aguentando que nem um herói um forte embate contra as tábuas, com ajudas perfeitas e eficazes de todos os companheiros. Uma pega dura e vistosa, emotiva e valorosa. Batista deu aplaudida volta à arena com Miguel Moura.
Para a cara do último toiro da corrida, o bonito e bravo exemplar de Passanha Sobral (580 quilos), que cresceu ao longo da lide depois de ter entrado em praça visivelmente combalido e aos tropeções, saltou à arena o valente cabo dos Amadores de Coruche, João Prates, que brindou aos companheiros do Grupo de Lisboa e em particular ao cabo Pedro Maria Gomes, que em Setembro se retira das arenas na última corrida do Campo Pequeno.
Bonito a citar e a evidenciar toda a sua experiência e enorme técnica que lhe conferem o estatuto de grande forcado, João Prates mandou no toiro, aguentou e templou a investida, fechando-se com decisão, mas sofrendo um forte derrote alto antes da chegada do primeiro-ajuda, que o deitou por terra.
Na segunda intervenção, com ajuda brilhante do primeiro companheiro, consumou uma pega fabulosa, que resultou emotiva e vistosa. O público não lhe poupou aplausos, honrando-o com uma muito acarinhada volta à arena com o cavaleiro António Prates (dois Prates em triunfo!) e depois com chamada especial ao centro da arena, a que o cavaleiro, também chamado (pelo forcado) se recusou, com humildade e bom senso, a comparecer.
Grande noite dos Amadores de Lisboa e dos Amadores de Coruche, que aqui homenageamos com o habitual bloco com que, corrida a corrida, sempre honramos e prestigiamos a actuação de todos os grupos de forcados.
Fotos M. Alvarenga
| Duarte Nascimento (Lisboa) na primeira pega da noite, que brindou à presidente da Junta de Freguesia de Paio Pires |
| Pedro Galamba (Coruche) brindou aos céus à memória de António J. Zuzarte e consumou valente pega ao segundo intento |
| Extraordinária pega de Tomé Batalha ao terceiro toiro, com uma grande primeira-ajuda de Gonçalo Bento (que também deu volta) |
| A pega "brutal" de António Tomás (Coruche) ao toiro de Villamarta vencedor do Concurso de Ganadarias |
| Rija e dura pega de José Batista (Lisboa) ao quinto toiro |
| Uma lição: a pega do cabo João Prates (Coruche) ao último toiro a fechar com chave de ouro uma noite de triunfo dos forcados |
















