Miguel Alvarenga - Santa Eulália, no concelho de Elvas, cumpriu ontem a tradição e lembrou, no festival taurino 5º Memorial, a memória de um dos maiores vultos da escrita taurina e da aficion nacional, verdadeira referência que todos guardamos nas nossas memórias: José Tello Barradas.
25 anos depois da sua partida, os aficionados do seu tempo continuam a lembrá-lo e a lembrar aos vindouros a sua obra, a sua sabedoria, a sua simpatia, os seus conhecimentos, a sua forma de estar na vida e na Festa, a diferença que fez - e que foi -, marcando gerações.
Sua ilustre Família, muito em particular seu irmão Alberto Barradas, Abé para os amigos, não se cansam de honrar a sua memória e toda a história que ele escreveu nos exemplos que deixou, nesse sentir e nessa forma de ser aficionado - de ser Nuncista e de ser depois Mourista, com um carinho especial, entre os dois, por essa figura inesquecível que foi José João Zoio. José Barradas era um homem do campo que foi, ao mesmo tempo, um vulto da cultura. Um conhecedor nato da arte tauromáquica. E um dos seus maiores cultivadores e divulgadores.
Já não há aficionados como ele. Nem como os outros do seu tempo. A história de José Tello Barradas, que desde há cinco anos aqui lembramos neste bem montado e tão bem cuidado Memorial em sua homenagem, é uma história de passado - que já não tem presente e dificilmente terá futuro.
A bonita praça de Santa Eulália encheu, como sempre acontece neste dia (que este ano nem foi o dia do costume, tem sido no Domingo de Ramos e desta vez foi no sábado de Páscoa). A festa começa sempre ao almoço, com a usual arte de bem receber que caracteriza a Família Barradas, no seu monte, em ambiente sempre agradável e de senhorial cordialidade.
O dia estava quente e bonito, convidativo para ir aos toiros. Dez minutos antes das cinco da tarde, havia ainda pouca gente nas bancadas. Dez minutos depois das cinco, a praça estava quase cheia, muito bem preenchida a sombra, muito público também nos sectores de sol. Excelente direcção de Marco Gomes, pautada, como sempre, pelo bom senso, pelo rigor, pela aficion e pelo respeito de cátedra pelas regras da corrida de toiros. Música para todos no momento certo, intervalo nada demorado, corrida ritmada e sem tempos mortos, que se viu com agrado e que teve momentos de bom toureio e de emoção.
Os novilhos das ganadarias Sesmarias Velhas do Guadiana (a ganadaria fundada pelo saudoso matador de toiros e empresário Fernando dos Santos) e Santa Ana, ambas dirigidas pelo cavaleiro Tito Semedo, foram de nota alta, com apresentação própria para um festival, todos de comportamento aplaudido e a proporcionarem boas lides aos cavaleiros e excelente faena ao matador, não dificultando nas pegas.
A única excepção ao êxito dos novilhos de Tito Semedo foi o primeiro, que embora tendo raça, foi o mais insignificante em termos de presença, demasiado pequeno, o que retirou algum brilhantismo ao empenho, ao esforço e à arte do cavaleiro João Moura Caetano - que lidou e toureou deixando a sua marca de excelência e temple, mas perante matéria prima que não permitiu o usual grande destaque ao seu tão bom toureio.
Com um novilho mais encorpado e com um pouco mais de transmissão, João Ribeiro Telles viveu ontem uma tarde de triunfo, sobressaindo a habitual emoção e ousadia que coloca nas sortes, entusiasmando o público com ferros de praça a praça, a entrar em terrenos de compromisso com a verdade e a garra que vivem sempre a seu lado.
Duarte Pinto ainda não tem apoderado, mas já tem dois cavalos novos que estreou ontem em Santa Eulália e que deixam antever um virar de página importante na carreira deste cavaleiro de valor, permitindo-lhe manter a sua inigualável traça de toureiro clássico, mas abrindo agora portas a um estilo mais futurista e que lhe vai permitir chegar mais facilmente ao público, como se viu. Ontem vimos um Duarte Pinto que se renova - sem deixar, contudo, de ser igual a si próprio e de defender e interpretar esse conceito de classicismo e toureio de verdade. Muito bem.
Em quarto lugar toureou o matador Nuno Casquinha. Que, curiosamente, toureou o novilho "mais toiro" dos seis, o que tinha mais trapio e maior presença, uns pontos acima da apresentação dos novilhos lidados pelos cavaleiros.
Já aqui o escrevi, mas vou recordar em termos muito breves: os empresários acordaram em reunião da sua associação, a APET (Associação Portuguesa de Empresários Tauromáquicos) que os festivais taurinos haviam de passar a ser mistos, isto é, deveriam incluir toureio a pé, em lugar se serem só com cavaleiros. Todos têm cumprido esse acordo, mas exceptuando a empresa de Alcochete, que apresentou em cartel um matador e um novilheiro, as restantes organizações limitaram-se a incluir nos seus cartéis um só matador "enfiado" meio à pressa no meio dos cavaleiros. Não é assim, repito, que se promove o festejo misto e que se respeita o toureio a pé. Antes pelo contrário. Mas enfim, é o que temos, são as organizações taurinas que temos e, pelo menos, mais vale incluirem no elenco um matador do que não incluirem nenhum... Adiante.
Nuno Casquinha cumpre nesta temporada quinze anos de alternativa. É um toureiro de Vila Franca, devia estar em Vila Franca, como devia estar noutras praças. Para já, esteve em Estremoz e esteve ontem em Santa Eulália. E por agora não tem mais nenhum compromisso em Portugal...
Mas devia tê-los, a avaliar pela forma como ontem se entregou, como ontem toureou e com que ganas ontem triunfou. Sereno e toureiro com o capote, desenhou bonitas verónicas e arrimadas chicuelinas. Cravou três emotivos pares de bandarilhas, sorte de que é um dos melhores intérpretes do momento. E realizou uma mandona e templada faena de muleta, desfrutando e fazendo o públido desfrutar da sua aprumada veia artística. Foi um dos momentos altos do festival.
Seguiu-se Miguel Moura, um cavaleiro que soma e segue com a marca da casa, fazendo alarde dessa suprema e tão apurada forma de bregar e lidar os toiros como se o fizesse a pé, utilizando os cavalos como se capotes e muletas fossem. Risco, temple, bom gosto e muita ousadia e atrevimento na maneira de abordar os toiros são a imagem de marca deste terceiro Moura que se continua a impor de tarde em tarde.
O festival terminou com uma das novidades mais surpreendentes dos últimos tempos, o jovem cavaleiro praticante Francisco Maldonado Cortes, neto de Mestre José Cortes (que assistiu, emocionado, do alto dos seus 87 anos, ao triunfo da nova estrela da dinastia de Estremoz), filho do também cavaleiro Francisco Cortes.
E referi-o como uma das novidades mais surpreendentes dos últimos tempos porque, na verdade, o é. O Francisco não é só mais um, nem é mais do mesmo. Tem a apreciada e desembaraçada arte de bem montar a cavalo que foi a característica-maior da tauromaquia de seu avô José Maldonado Cortes, de seu tio Afonso Maldonado Cortes e de seu pai, Francisco Cortes.
Uma actuação muito positiva e reveladora de um cavaleiro com futuro, a evidenciar grandes e muito animadores progressos. Oxalá haja empresários com visão para apostar num jovem como este.
Nota alta e aplausos fortes para todos os bandarilheiros que coadjuvaram as lides dos cavaleiros, destacando-se, como sempre, figuras como José Franco "Grenho", Duarte Alegrete, António Telles Bastos, Jorge Alegrias, João Bretes, Joel Piedade, João Ferreira e todos os demais, assim como Filipe Gravito e Francisco Freire na quadrilha do matador Nuno Casquinha.
Sem dificuldades de maior, pegaram ontem os forcados de Arronches e Académicos de Elvas. Martim Marques (à primeira) e Sérgio Carvalho (à segunda) foram caras pelos de Arronches nas primeira e terceira pegas; Miguel Sadio (à primeira) e Tomás França (também à primeira) pegaram o segundo e quinto novilhos pela formação elvense. O sexto novilhos teve Afonso Santos, do Grupo de Arronches, como forcado de cara, executando a pega à segunda tentativa, repartida com os Académicos de Elvas. Mais logo e como é habitual, vamos aqui mostrar todas as fotos e as sequências das cinco pegas.
Exceptuando João Moura Caetano, que brindou a primeira lide a Alberto Barradas, e Duarte Pinto, que dedicou a sua lide a duas Anas Barradas (a filha do homenageado José Barradas e a sobrinha, filha de Alberto Barradas), mais ninguém se lembrou de que aquele festival era o 5º Memorial José Tello Barradas... Falta de atenção dos intervenientes...
Fotos M. Alvarenga
| João Moura Caetano |
| João Ribeiro Telles |
| Duarte Pinto |
| Nuno Casquinha |
| Miguel Moura |
| Francisco Maldonado Cortes |
