sexta-feira, 15 de maio de 2026

Chamusca: uma tarde com história e para a História!




Foi uma tarde para a História, sim senhor. Para a História do triunfador Tristão Ribeiro Telles. Para a História, também, de Salgueiro da Costa e Vasco Veiga. Para a História dos dois grandes grupos de forcados da Chamusca. Para a História da renovada ganadaria Oliveira Irmãos. E para a História da empresa Toiros com Arte, que "tinha acabado" e afinal está viva, bem viva e recomenda-se! Há muitos anos que a Chamusca não tinha um "casão" como o de ontem. E ficou provado, se dúvidas houvesse, que a "tradição" do toureio a pé nesta data, infelizmente para os matadores, já foi chão que deu uva...

Miguel Alvarenga - Já tinham sido “enterrados”, deviam dinheiro a toda a gente, ia ser decretada a insolvência deles, coitados, de bestiais tinham passado depressa e em força a bestas e havia muitos amigos da onça a esfregar as mãos de contentamento pelo fim dos “peixeiros”, como lhes chamam quando os pretendem deitar abaixo. Mas afinal…

Jorge Dias e Samuel Silva ganharam ontem um novo fôlego e calaram as vozes maldizentes com uma praça cheia na Chamusca - não esgotada, mas quase, praticamente todos os lugares preenchidos na bancada, galerias e camarotes, exceptuando aquela pequena parcela lá de cima que está interdita por questões de (falta de) segurança. Um ambientazo como há muitos anos não se via nem se sentia na Chamusca.


Diz quem sabe que talvez há uns vinte anos que esta corrida de Quinta-Feira da Ascensão não registava um “casão” tão bem preenchido como ontem aconteceu. E… sem toureio a pé. O que é pena, mas é a realidade. E contra factos não existem argumentos possíveis…


Mais: os empresários pagaram a toda a gente à hora do sorteio, evitando assim as sempre desagradáveis filas de espera à porta do escritório no final, mas evitando sobretudo que continuassem a rodar nos mentideros da nossa atribulado Festa as versões contraditórias e catastróficas sobre a queda da empresa Toiros com Arte. Que, como se viu, está de pé, sólida e para durar!


A satisfação e a alegria bem visíveis na alegria da postura, ontem, dos dois empresários - e que captámos na foto de cima - diz tudo e dispensa mais comentários. Jorge Dias e Samuel Silva triunfaram outra vez. E calaram os profetas da desgraça. O Triunfo da Vontade!


Essa dos empresários foi a primeira vitória da Quinta-Feira da Ascensão de grande sucesso que ontem se viveu na Chamusca. Mas houve outras.


A vitória (leia-se: triunfo) da renovada ganadaria Oliveira Irmãos, fruto do empenho, da dedicação e da desmedida aficion do ganadeiro nortenho Paulo Tomé, seu actual proprietário, que teve ontem a seu lado na barreira, além de sua família, um dos antigos e emblemáticos proprietários da divisa, o conhecedor aficionado João Carlos Oliveira (aprende-se a ouvir os comentários que faz ao longo da corrida). Paulo Tomé teve honras de ir à praça no sexto toiro, mas já lá devia ter estado no quinto…


A vitória (leia-se: triunfo) dos três cavaleiros do bem idealizado e melhor rematado cartel, que fugiu a léguas aos rotineiros elencos “mais do mesmo” que nos impinge a maioria dos empresários. Três cavaleiros de dinastia que, não sendo dos de sempre, encheram ontem até às bandeiras a praça da Chamusca.


A vitória (leia-se: triunfo) dos dois grupos de forcados da terra, enaltecendo e defendendo com a maior das dignidades e o mais aplaudido valor as suas históricas jaquetas de ramagens. Havia dois prémios em disputa (júri composto por antigos forcados) e ninguém contestou ou protestou a (nada fácil) decisão final: a melhor pega foi a de Vasco Coelho dos Reis, do Aposento, segunda da tarde; e o melhor grupo foi o dos Amadores.


Os toiros de Oliveira Irmãos, sem pesos exagerados (490, 460, 480, 480, 460 e 480), bem apresentados, com mobilidade e transmissão, exigentes, a empurrar indo pelo seu caminho para os forcados, arrancando com nobreza e alegria, deram um excelente jogo e proporcionaram êxitos notáveis aos cavaleiros e aos forcados - e ofereceram ao público uma tarde daquelas que valem a pena e deixam vontade de voltar.


Os bons toiros de Paulo Tomé foram lidados por João Salgueiro da Costa, que não sendo ainda um veterano, mas também não um novato, é um cavaleiro que demorou a vingar, tendo andado alguns anos a prometer, mas que finalmente se destacou nas últimas temporadas e tem sido um dos nomes em evidência desde há três anos; por Tristão Ribeiro Telles, que foi um dos grande triunfadores de 2025 e continua, com um valor tremendo e uma aplaudida ousadia, a sua cavalgada de sucesso rumo à fila da frente; e Vasco Veiga, uma das novas estrelas, que vi pela primeira vez de casaca e me surpreendeu (altamente) pela positiva. 


Não (re)vimos os mesmos de sempre, ontem vimos inovação, novidades, certezas de que temos figuras para o futuro.


Salgueiro andou asseado, como se costuma dizer, no primeiro toiro, talvez o mais reservado e menos claro dos seis nas investidas, cumprindo com excelente brega, boa lide e ferros de risco.


Mas foi no quarto toiro que o cavaleiro de Valada esteve, de facto, à sua altura, protagonizando uma lide em crescendo, com ferros de muita emoção e pormenores de rigor e aprumo a bregar e a lidar, destacando-se e empolgando o público sobretudo nos três últimos curtos, “à Salgueiro”, citando num palmo de terreno, provocando a investida, criando alvoroço nas bancadas.


Tristão Ribeiro Telles, que em Vila Franca se deixou ultrapassar por Prates, tendo estado uns furos abaixo do seu melhor, recuperou ontem o fôlego e voltou rapidamente ao podium dos eleitos com duas actuações a todos os títulos brilhantes, pautadas pela irreverência, pela ousadia, pelo impacto com que entra pelos toiros dentro, com atitude e a marcar a diferença, chegando ao público como poucos conseguem chegar. Entusiasmou tudo e todos recebendo o quinto toiro, o melhor dos seis, com uma emotiva sorte de gaiola.


No conjunto das duas actuações, Tristão foi ontem quem esteve por cima - sem discussão. É um toureiro de raça. E tem nas veias o sangue misturado de todas as castas dos grandes Ribeiro Telles. Reúne a arte e a classe do tio António e do primo Manuel, a ousadia e a diferença do tio João e do primo João, a vontade e o querer do primo António (filho) - e honra a dinastia ainda hoje (e para sempre) imortalizada na eterna figura de Mestre David. Foi de triunfo e êxito para todos a tarde de ontem na Chamusca. Mas foi muito em especial a tarde grande de Tristão Ribeiro Telles.


Tinha curiosidade em rever Vasco Veiga, que só tinha visto lidar um toiro ainda como amador - e confesso que me surpreendeu muito pela positiva. Nota-se uma grande evolução, tem maneiras, demonstra atitude, conhecimentos e um grande bom gosto a tourear. É um Senhor em praça, fazendo jus aos honrosos pergaminhos de sua nobre Família. E está muitíssimo bem montado, só com cavalos do ferro Veiga.


Esteve bem, sem ter estado fabuloso, frente ao seu primeiro toiro, mas a lide não tocou as raias do brilhantismo e Vasco ficou no fim entre tábuas, não deu volta à arena, nem tinha escutado música.


No sexto, um bom Oliveira com tipo de Palha, esteve o jovem Vasco acima da média. Brega eficiente, sortes bem preparadas e melhor desenhadas, ferros de nota alta a puxar mais ao classicismo do que propriamente à chamada nova vaga. Tem classe e toureia com arte. Uma estrela em ebulição.


Destaque para o desempenho - e a classe, também - dos bandarilheiros das quadrilhas dos três ginetes, aplausos para Duarte Alegrete e Pedro Paulino “China”, Joaquim de Oliveira e Duarte Silva, Tiago Santos e Gonçalo Veloso.


Grandes pegas aos toiros de Oliveira numa tarde de triunfo importante para os dois grupos da Chamusca - cujas actuações aqui vamos mostrar de seguida em pormenor.


Pelos Amadores da Chamusca, foram caras o cabo Diogo Marques (à primeira), Francisco Costa (à segunda) e Miguel Santos (à primeira).

Pelos do Aposento da Chamusca pegaram Vasco Coelho dos Reis (à primeira), Miguel Crespo (à terceira) e Francisco Souto Barreiros Andrade, neto do saudoso Rui Souto Barreiros, que fez ontem a sua última pega (à primeira), brindada a sua mãe, sem contudo ter despido a jaqueta ou feito qualquer despedida. Um excelente forcado de que ontem nos despedimos em triunfo e glória.


Assistiram à corrida numa barreira os presidentes das Câmaras da Chamusca, Nuno Mira, e de Santarém, João Teixeira Leite - a quem Salgueiro brindou a sua segunda actuação, bem como Miguel Crespo, dos forcados do Aposento. Houve outros brindes dos forcados a familiares, um de Tristão aos empresários Jorge Dias e Samuel Silva (primeira lide) e outro ao ganadeiro Alberto Cunhal Patrício e um de Vasco Veiga à ganadeira Joana Rosa Rodrigues.


No final, os prémios à melhor pega, a Vasco Coelho dos Reis (Aposento) e ao melhor grupo, aos Amadores, foram entregues, respectivamente, pelo presidente da Câmara, Nuno Mira e pelo provedor da Santa Casa, Nuno Castelão.


Marco Cardoso foi ontem o director de corrida, desempenhando a função com o rigor e a aficion costumeira. Esteve assessorado pelo médico veterinário José Luis da Cruz e os toques (sempre aplaudidos) estiveram a cargo do cornetim-mor do reino, o popular José Henriques.


Resumindo e concluindo: foi uma tarde em grande na Chamusca e marcou o Triunfo da Vontade dos empresários que os profetas da desgraça se pelavam por ver acabados… Não senhor, estão de pé. Para dar e durar!


Fotos M. Alvarenga


A seguir e ao longo do dia não perca todas as reportagens desta corrida: as fotos das seis pegas, os melhores momentos das lides dos cavaleiros, os Famosos que ontem encheram a praça da Chamusca... e muito mais!


João Salgueiro da Costa
Tristão Ribeiro Telles
Vasco Veiga