segunda-feira, 4 de maio de 2026

"Palha Blanco": António Prates "rebentou a escala" em tarde também de grande triunfo para os forcados de Santarém e Vila Franca

Miguel Alvarenga - A "Palha Blanco" teve na tarde deste domingo a habitual moldura humana da "meia casita" habitual desta corrida de Maio, que já se percebeu que será sempre assim, toureie quem toureie. O público de Vila Franca, entendido, exigente, às vezes implicativo, continua a ser um público diferente. E estranho. Em Maio deixa a praça a meio gás, em Julho enche-a pelo Colete Encarnado e em Outubro... tem dias.

O cartel era atraente e estava bem rematado. Tinha dois Ribeiro Telles, os toureiros preferidos dos aficionados da "Palha Blanco", o Manuel Bastos e o Tristão; tinha o efervescente António Prates, um toureiro que tem na sua carreira ainda jovem uma ligação muito especial a Vila Franca, onde praticamente "explodiu" numa tarde em que ali foi substituir Rui Salvador (lembram-se?) há uns anos; tinha competição entre os forcados, com dois dos melhores grupos do país, o de Santarém e o de Vila Franca; e tinha seis toiros (imponentes, quase todos aplaudidos pela sua apresentação e cara mal entraram na arena) de várias ganadarias importantes em concurso. Merecia ter tido mais gente na praça? Claro que merecia... mas Vila Franca será sempre uma praça estranha...

Foram lidados, por esta ordem, exemplares das ganadarias Cunhal Patrício (515 quilos, um bom toiro, sério, exigente, com presença e transmissão), Sommer D'Andrade (565 quilos, um toiro também de apresentação imbatível, bravo, nobre, que impôs respeito e deu emoção, vencendo o prémio de bravura), Canas Vigouroux (520 quilos, outro toiro aplaudido na entrada, muito bem apresentado, a pedir contas, com seriedade e transmissão), Oliveira Irmãos (570 quilos, um toiro dos que pedem o bilhete de identidade aos toureiros, com teclas, a impor-se e a exigir, daqueles que tudo dão e tudo tiram, um toiro que causou pânico na arena), Fernando Palha (555 quilos, "branco", bravo, também com teclas e exigente, a transmitir perigo e emoção, vencedor do prémio de apresentação), e Vale do Sorraia (525 quilos, mansote, à procura de um sítio para escapar, ameaçando pôr a trincheira "na ordem", isto é, a querer saltar as tábuas, mas bonito, bem apresentado, toiro com seriedade).

O júri era composto pelos seis ganadeiros... e eles lá sabem da poda, certamente mais que nós. Decidiram, está decidido. Deram, como disse, o prémio de bravura ao toiro de Sommer e o de apresentação ao de Fernando Palha (propriedade de João Augusto Moura)... provocando alguns protestos na bancada. Nunca foi fácil agradar a gregos e a troianos...

A corrida foi séria, teve emoção, não durou uma eternidade, não se registaram nenhuns incidentes (graças a Deus, porque para toiros tão sérios, estiveram em praça dois grupos de forcados a sério, que é muito diferente do que se pode esperar quando se anunciam bandos de "agarra-bois"...) e os três cavaleiros deram o melhor de si na busca do triunfo.

António Prates "rebentou a escala" e no conjunto das duas lides foi, de longe, o grande triunfador da corrida, a par dos forcados. Enfrentou primeiro o toiro de Sommer D'Andrade vencedor do prémio de bravura, emocionando (e assustando!) o público com sortes e brega de risco e grande ousadia, impondo valor e verdade em tudo o que fez. 

Em quinto lugar lidou o toiro de Fernando Palha, alcançando outro triunfo clamoroso, apoteótico mesmo, pondo de acordo todos os espectadores que não lhe regatearam aplausos e o aclamaram de pé no final da lide. Ontem ninguém ficou indiferente ao toureio de raça e valor de António Prates, mais experiente, mais maduro, mais toureiro, a marcar claramente a diferença.

Fosse este o Portugal das Toiradas de antigamente e Prates teria ontem ganho certamente uma série de contratos para as principais praças e as mais importantes corridas do país. Estaria de volta a Vila Franca em Outubro, estaria no Campo Pequeno, estaria na quinta-feira da Feira da Moita, entraria nos cartéis das feiras que aí vêm e o telefone do seu apoderado Pedro Penedo não teria sossego nos próximos dias, correndo mesmo o sério risco de ainda explodir... Era assim que as coisas funcionavam antigamente, era assim que os triunfos valiam para alguma coisa, para muita coisa. Mas os tempos mudaram...

Manuel Telles Bastos, a celebrar vinte anos de alternativa, sem ter sido alvo de nenhuma homenagem ou simples apontamento por tal efeméride, foi ontem protagonista de duas lides que podem ser referidas como as duas faces da moeda (tauromáquica). Lide brilhante, com a classe e o classicismo de sempre, frente ao bom e sério primeiro toiro da corrida, de Cunhal Patrício.

E depois, um mau e aflitivo momento frente ao quarto toiro da tarde, o sério e perigoso exemplar de Oliveira Irmãos, com o qual não se entendeu minimamente. O toiro exigia, pedia contas, era demasiado sério. A toiros como este é obrigatório que o toureiro se imponha. Manuel deixou antes ser o toiro a impor-se e cedo o exemplar da renovada ganadaria Oliveira (agora propriedade de Paulo Tomé) se apoderou da situação, mandando ele, não dando sossego ao Manuel, obrigando o cavaleiro a passar por um mau bocado nesta segunda passagem sem história pela arena da "Palha Blanco". Acontece. Não é por isso que Manuel Telles Bastos deixa de ser o grande cavaleiro que é.

Tristão Ribeiro Telles foi o triunfador de 2025 nesta praça. E noutras. É um toureiro de muita raça e muita casta. Dos que pisam a linha vermelha e às vezes são verdadeiramente impróprios para cardíacos. Esteve bem, sem contudo ter sido "a sua tarde". 

Lidou na primeira parte o sério e exigente toiro de Canas Vigouroux, muito bem apresentado, aliás como todos os outros. Recebeu com uma imponente sorte de gaiola, demonstrando atitude e afirmação. Depois, cravou grandes ferros, mas a actuação não foi completamente redonda. Não teve direito a música e aí não percebi a atitude da directora Lara Gregório de Oliveira...

O último toiro era o de Vale do Sorraia (da casa Ribeiro Telles), muito bem apresentado, mas desde o princípio à procura de uma porta para sair dali, ameaçando saltar a trincheira. Tristão voltou a fazer uma sorte de gaiola, que desta vez não resultou. Não foi um toiro claro e Tristão esforçou-se, empenhou-se, arriscou, teve música desta vez, mas faltou-lhe matéria prima para o triunfo que sonhara. Ficaram alguns grandes ferros em sortes de grande ousadia e a pisar terrenos de alto compromisso.

Não houve intervenções excessivas nem capotazos a mais, antes pelo contrário, estiveram todos muito bem os seis bandarilheiros das quadrilhas dos três cavaleiros: Francisco Honrado e João Goilão (de Telles Bastos), João Bretes e Jorge Alegrias (de Prates) e Benito Moura e Duarte Silva (de Tristão).

Como disse anteriormente, para grandes toiros, estiveram em praça grandes forcados. Dois grupos a sério. Santarém e Vila Franca. Durante o dia desta segunda-feira mostraremos todas as pegas - que foram magníficas!

Pos Santarém foram forcados de cara João Faro, Joaquim Grave e Duarte Palha, todos ao primeiro intento.

Por Vila Franca pegaram Rodrigo Andrade à primeira; Rodrigo Camilo à segunda, com uma grande ajuda de Rodrigo Dotti, que o acompanhou na volta à arena; e Vasco Carvalho à primeira.

Os dois grupos estiveram verdadeiramente imponentes a ajudar.

Havia um prémio para o melhor grupo em praça, eleito por um júri composto por três antigos forcados - Vasco Pinto (ex-cabo do Grupo de Alcochete), João Caldeira (antigo forcado do Grupo de Montemor) e João Mota Ferrreira (antigo forcado do Grupo de Lisboa). O prémio foi para os Amadores de Santarém, sem um único protesto do público vllafranquense.

Em Dia da Mãe, os cavaleiros António Prates e Tristão R. Telles brindaram às suas mães.

Os forcados de Santarém brindaram a primeira pega aos anfitriões de Vila Franca, a segunda ao histórico forcado vilafranquense Carlos Costa "Platanito" e a terceira a Luis Palha.

Os de Vila Franca brindaram duas pegas ao público e uma a Carlos Grave, antigo cabo dos Amadores de Santarém.

Ao início da corrida foi guardado um minuto de silêncio em memória do ganadeiro Jorge Maria de Sousa e Holstein de Melo, Conde de Murça, falecido esta semana; e a todos os que nos deixaram neste último Inverno, com recordação especial de Augusto Levesinho, pai do anterior empresário desta praça Ricardo Levesinho.

Lara Gregório de Oliveira cumpriu com o acerto habitual as funções de directora da corrida, quanto a mim pecando apenas pela não concessão de música a Tristão no terceiro toiro da tarde. Esteve assessorada pelo médico veterinário José Luis da Cruz e o cornetim foi o sempre aplaudido José Henriques.

A corrida foi presidida pelo aficionado presidente da Câmara de Vila Franca, Fernando Paulo Ferreira, que assistiu no camarote acompanhado pelo presidente da Junta de Freguesia, Ricardo Carvalho e pelo presidente da Associação de Tertúlia Tauromáquicas de Vila Franca, Guilherme Nunes. No final, os três desceram à arena para fazer a entrega dos prémios de bravura e apresentação às ganadarias vencedoras do concurso e também ao melhor grupo de forcados da tarde.

O público saiu satisfeito da "Palha Blanco" - e quando isso acontece, a empresa te que se sentir orgulhosa pelo dever (bem) cumprido. Venha a próxima corrida, que será a do Colete Encarnado, com a reaparição do génio João Salgueiro, com João Moura Júnior, o matador Borja Jiménez e os forcados Amadores de Vila Franca.

Ao longo do dia desta segunda-feira, daremos à estampa as sequências das seis pegas; os melhores momentos das lides dos três cavaleiros; as fotos dos Famosos e do grande ambiente que se viveu ontem na "Palha Blanco".

Fotos M. Alvarenga