Miguel Alvarenga - Atravessa a nossa Festa um dos seus mais atípicos e desinteressantes períodos, quadro negro resultante da falta de ídolos e de figuras que façam os aficionados correr às praças de toiros. Hoje em dia, o público vai às touradas por ir, não propriamente por um motivo ou um chamariz especiais, como o foram noutros tempos os casos de João Moura nos anos áureos (e isso já foi há cinquenta anos...) ou de Pedrito de Portugal (há trinta...).
Há toureiros jovens com reconhecidas aptidões para arrastar gente às praças, e volto a insistir nos nomes de Duarte Fernandes, de António Prates, de Parreirita Cigano, também de António Telles (filho) e seu primo Tristão, mas a realidade é que os empresários não há meio de acordarem do seu preocupante sono e continuam a montar sempre os mesmos elencos... só "porque sim", só porque lhes falta imaginação.
Há um naipe de cavaleiros muito bons, mas toureiam todos da mesma maneira, são sempre iguais a si próprios e iguais uns aos outros... e isto não passa da cepa torta. A maioria das touradas são um frete... Como dizia há dias um amigo meu, se calhar isto já acabou e nós ainda não demos por isso...
Mas felizmente há excepções. Santarém e a sua dinâmica comissão organizadora das corridas, a Associação Sector 9, continuam a marcar a diferença e a levar o público aficionado às bancadas da Monumental "Celestino Graça", que nos dias de hoje assume indiscutivelmente o estatuto de Catedral do Toureio Nacional.
A corrida deste sábado, primera das duas que compõem a Feira do Ribatejo, tinha como grandes atractivos um Concurso de Ganadarias e o regresso às arenas do Desejado Marcos Bastinhas, depois de ter estado uma temporada parado, a contas com uma preocupante depressão. O maior anti-depressivo foi-lhe ontem receitado pelo público aficionado - que o quer, que o admira e que vibra com a forma diferente como ele toureia e galvaniza as praças, abanando a tauromaquia lusa, ou não fosse o Marcos filho daquele que foi o mais popular - e também sempre o mais desejado - dos toureiros nacionais nos últimos anos.
Marcos Bastinhas apresentou-se em Santarém com uma farta cabeleira, entre Príncipe Encantado e Pirata das Caraíbas, a marcar também a diferença com um "new loock"... de fazer inveja a qualquer careca...
A quadra de cavalos está "no ponto" e o toureiro está de novo em alta, pronto para agitar e marcar esta temporada, dando o abanão que faltava para que isto saia do marasmo e da sonolência em que anda há não sei quantos anos.
Depois de já ter sido muito aplaudido e acarinhado pelo público durante as cortesias, Marcos Bastinhas entrou em praça para lidar o segundo toiro da tarde, apeando-se do cavalo e indo ao centro da arena, de braços abertos, como que a cumprimentar todos aqueles de que andou um ano afastado. Público de pé, momento de emoção. E ali deixou o tricórnio, voltando a montar e cavalgando à carga rumo à porta dos sustos, quase entrando por ali dentro, à espera da saída do toiro, o bonito, bravíssimo e espectacular exemplar da ganadaria Oliveiras Irmãos (mal anunciado no painel, com erros como quase todos os outros, Aliveira em vez de Oliveira...) que ganhou muito merecidamente o concurso, sendo eleito no final como o melhor toiro da corrida.
A Associação Sector 9 revolucionou a forma de premiar os toiros nos concursos de ganadarias (até que enfim que alguém teve a coragem de o fazer), acabando com a atribuição de um prémio para a bravura e outro para a apresentação, outorgando apenas o prémio ao "melhor toiro", distinção que engloba a bravura e a apresentação e que tem muito mais lógica do que a caduca forma de distinguir dois toiros... premiando uma coisa, a apresentação, que nunca deveria ser premiada, porque se trata de uma obrigação de qualquer ganadeiro trazer à praça um toiro bem apresentado. É um dever da ganadaria. E os deveres não se premeiam. Reconhecem-se, aplaudem-se.
O toiro de Oliveiras Irmãos, ganadaria histórica, agora propriedade do romântico e empreendedor aficionado, antigo forcado e ganadeiro nortenho Paulo Tomé, foi um toiro espectacular e regressou ao campo, um toiro tão bom, que se arrancava com codícia e alegria de todos os terrenos, que Bastinhas "nem precisou de o tourear", limitando-se, inteligentemente, a "aproveitá-lo", citando, aguentando, dando-lhe a prioridade, pondo os ferros com emoção e aprumo. Foi uma lide alegre, vibrante, contagiante. Marcos Bastinhas precisava daquilo. E o público ansiava por um momento assim. Ali não houve nada mais do mesmo. Foi tudo diferente. E o Desejado marcou a tarde, prometendo também marcar a temporada. Só um aparte: um toureiro destes não fará falta ao Campo Pequeno?...
O segundo toiro de Bastinhas foi o da ganadaria Mata-o-Demo, quinto da ordem, um toiro bonito e exigente, com teclas e com transmissão. Brindou a lide a sua Família, a sua Mãe e sua Mulher e a seus filhos, que assistiam na barreira. Marcos sofreu um susto inicial quando o cavalo escorregou e caiu, deixando-o à mercê do toiro, que depressa foi desviado pelos bandarilheiros e pelos forcados que num instante saltaram à arena, não chegando a tocar no cavaleiro.
Depressa se recompôs Marcos, regressando em força ao palco do seu triunfo, prosseguindo a actuação em crescendo e em permanente diálogo com o público - que, uma vez mais, não lhe regateou aplausos, premiando-o no fim com uma calorosa ovação enquanto dava a volta à arena.
O regresso de Bastinhas era uma incógnita. Podia acontecer como aconteceu - e graças a Deus que assim foi -, mas também podia ainda o cavaleiro não estar totalmente recuperado e as coisas correrem mal, provocando nova paragem. Felizmente, Marcos voltou em grande e em alta. Reencontrou-se e reencontrou a sua gente. Faz falta um toureiro como ele. Eu até vou mais longe: quem faz falta é um toureiro como Joaquim Bastinhas. Que era diferente de todos e era único. E o Marcos, por ser seu filho, é o único que nos faz sempre lembrar esse ídolo - ainda bem, por isso, que voltou!
João Moura Caetano e Francisco Palha foram ontem os seus companheiros de cartel.
Caetano foi o menos bafejado pela sorte no sorteio. Coube-lhe lidar em primeiro lugar um toiro de Torre D'Onofre (no painel faltou o "e"..., ficou só Onofr...) - que substituiu, sem se perceber por quê, o anunciado toiro de Manuel Veiga (sussurram-me que lhe faltava peso... seria?) -, um toiro bonito, bem apresentado, de jogo regular, mas com pouca transmissão, sem muita agressividade. João desenhou uma lide pautada pelo temple e pelo bom gosto, escutou música e deu volta à arena.
Em quarto lugar enfrentou um toiro perdido de manso da excelente ganadaria Dr. António Silva. No melhor pano cai a nódoa. E este "coirão" foi mesmo uma nódoa. Caetano fez o que pôde e a mais não era obrigado.
O cavaleiro de Monforte regressava à Monumental de Santarém na temporada em que comemora vinte anos de alternativa, depois de ter estado nove anos sem ali actuar. Foi importante ter ido e foi importante, sobretudo, mostrar que toureia todos os toiros e não apenas "os seus". Claro que com "os seus", as coisas têm outro sabor. Com os "dos outros", não é propriamente a mesma coisa. Caetano calou os maldizentes que por aí apregoavam que ele só toureia "os toirinhos da corda", mas não teve uma tarde soberba como as que costuma protagonizar. Sem ovos, não se fazem omeletas...
Quem as fez - e com que sabor! - foi Francisco Palha, que ontem cozinhou dois importantes triunfos com os toiros de Canas Vigouroux e Santa Maria. Palhinha estava inspirado. Lidou e toureou os dois toiros com a sabedoria e a raça de sempre, pisou terrenos de alto compromisso, esteve na linha da frente e aos dois oponentes colocou ferros de uma emoção sem fim, verdadeiramente impróprios para cardíacos.
O toiro de Canas Vigouroux tinha chama e transmitiu emoção. O de Santa Maria teve melhor nota. Foram ambos toiros sérios, daqueles que "puxam" pela genialidade e pela muita raça deste cavaleiro de eleição. Francisco Palha pôs a carne no assador, arrepiou-nos a todos com a verdade e a ousadia dos seus ferros de alto risco. Dois triunfos muito importantes. Já agora, pergunto também: um toureiro destes não fará falta ao Campo Pequeno?...
Bem estiveram, sem excessivas intervenções, dando espaço aos cavaleiros, os bandarilheiros componentes das suas quadrilhas, para os quais vai também o meu aplauso: José Franco "Grenho" e António Telles Bastos (quadrilha de Caetano); Gonçalo Veloso e Cláudio Miguel (de Bastinhas); Jorge Alegrias e Diogo Malafaia (de Palha).
Tarde grande para os forcados Amadores de Santarém nesta que é a sua tradicional encerrona na sua Monumental. Mais logo, vamos homenagear esta actuação de grande nível com a habitual publicação de todas as fotos das seis pegas - que, como ontem aqui referimos, foram consumadas pelo cabo Francisco Graciosa, por Salvador Ribeiro de Almeida, João Faro, Manuel Ribeiro de Almeida e Francisco Paulos numa cernelha, Francisco Cabaço e Joaquim Grave.
No final, desceram à arena o presidente da Câmara João Teixeira Leite e o presidente da CAP, Embaixador Álvaro Mendonça e Moura, bem como os representantes das seis ganadarias, para se conhecer qual a vencedora do concurso. E o prémio atribuído pela Associação Sector 9 ao melhor toiro da corrida foi outorgado, nem podia ser a outro, ao toiro de Oliveiras Irmãos, lidado em segundo lugar pelo regressado Marcos Bastinhas. Aplauso geral, nem um único protesto. Fez-se justiça. Parabéns, Paulo Tomé.
A corrida, com muito público nas bancadas (mais de meia casa forte, quase a rondar os três quartos), foi bem dirigida por Manuel Gama, que esteve assessorado pelo médico veterinário José Luis da Cruz, sendo o cornetim-mor do reino José Henrique o responsável pelos (bons e muito aplaudidos) toques.
Segue-se a corrida mista do Dia de Portugal, esta quarta-feira, com os cavaleiros João Moura Jr. e João Ribeiro Telles, o matador sevilhano Juan Ortega e os forcados de Santarém e Montemor. Lidam-se a cavalo quatro toiros de António Raul Brito Paes e a pé dois de Calejo Pires.
Fotos M. Alvarenga
