domingo, 16 de agosto de 2026

Esgotámos a Nazaré! E o resto são cantigas!

Parceria com Rui Bento vai continuar em 2027!

Miguel Alvarenga - Muitos anos depois, a recordar as noites de sonho ali organizadas pelo saudoso empresário Manuel Gonçalves, a Corrida "Farpas" voltou ontem ao seu palco-talismã, a carismática - única! - praça de toiros da Nazaré, desta vez numa parceria que veio para ficar (e desde já posso adiantar que se repetirá em 2027!) com a profissionalíssima empresa Doses de Bravura, de Rui Bento, sua Mulher, Isabel e seus filhos Rui Pedro e Margarida, e de todos os restantes membros da equipa, entre os quais José Carlos Amorim; com o apoio de Nuno Batalha e da Confraria de Nossa Senhora da Nazaré; e com o apoio do público maravilhoso da Nazaré e também de todos os aficionados que vieram de fora e ali disseram "presente!", esgotando por completo a lotação da praça nesta que era a terceira corrida da temporada. Não cabia um alfinete!

Mérito do "Farpas"? Uma parte, sim. Mérito, sobretudo, do empenho e da dedicação com que Rui Bento e a sua equipa (um agradecimento muito especial ao profissionalismo e ao entusiasmo do Rui Pedro) deitaram mãos a todos os pormenores da organização da corrida. Mérito dos toureiros e dos forcados, da garantia de sucesso que fazia antever a presença dos toiros de Manuel Veiga. Mérito da tauromaquia, que vive outra vez um momento de grande esplendor. Ontem esgotou a praça da Nazaré e esgotou a praça de Reguengos, encheu a das Caldas.

Escrever sobre o sucesso da Corrida "Farpas", em 14ª edição, a marcar esta temporada, é mais ou menos ser juiz em causa própria... contudo, orgulho à parte pelo êxito da obra feita, não me incomodo de escrever com imparcialidade e aqui deixar a minha detalhada análise, sobre uma corrida que foi um êxito, uma jornada de emoção - a tal Onda de Emoção! -, uma noite que encheu as medidas a todos os aficionados, onde ninguém teve sono, onde nada foi mais do mesmo, porque os três cavaleiros "se picaram", competiram, não se acomodaram só aos seus próprios triunfos, esforçaram-se por ir mais além dos triunfos uns dos outros, houve picardia e sentido de competição. 

Os forcados não tiveram uma noite fácil. Felizmente ninguém se magoou, mas os toiros de Manuel Veiga não são, não foram, pêras doces. E a tarefa não esteve ontem facilitada, sobretudo para os consagrados forcados de Montemor (uma pega à segunda e duas à terceira), tendo estado em plano superior os de Portalegre, grupo que atravessa um bom momento, com uma primeira pega à quarta e as duas seguintes à primeira.

Já lá vamos, já aqui vamos trazer todas as fotos das sequências das seis pegas aos toiros de Manuel Veiga. Foram forcados de cara por Montemor, em primeiro lugar António Raimundo (com uma grande pega à segunda) e depois Miguel Carolino e Bernardo Batista, ambos ao terceiro intento.

Pelos Amadores de Portalegre pegaram Daniel Ameixa (à quarta), Filipe Rodrigues e Ricardo Almeida, estes ambos ao primeiro intento, com duas grandes pegas e excelentes ajudas dos companheiros, havendo que destacar a intervenção do cabo Gonçalo Louro (que estava a rabejar), no quarto toiro da noite, com uma ajuda fantástica ao forcado de cara Filipe Rodrigues.

Exigentes, com teclas e a pediram contas, os toiros de Manuel Veiga deram que fazer aos cavaleiros. Tiveram transmissão, mobilidade e impuseram respeito. Não foram fáceis, nem deram facilidades.

João Moura Caetano impôs o respeito e a maestria do seu toureio suave e templado, comemorando nesta praça com nota alta os seus vinte anos de alternativa. O primeiro toiro era reservado e pouco claro nas investidas. Moura Caetano lidou-o e toureou-o evidenciando a sua maturidade e experiência, não permitindo tempos mortos, conseguindo brilhar frente a um toiro que não estava muito virado para permitir brilharetes. Foi premiado com música e deu aplaudida volta à arena com o forcado.

O quarto toiro tinha mais chama que o primeiro, era exigente e pediu contas, Caetano deu-lhas todas, rubricou uma lide em que impôs a sua arte e a força da sua maestria, cravando com acerto e em terrenos de compromisso. Outra lide premiada com música e com clamorosas ovações enquanto dava a volta à arena. Excelente presença de Moura Caetano na animadíssima temporada da Nazaré, em mais uma época em que se vai proclamar, pelo quarto ano consecutivo, como líder incontestado do escalafón.

Marcos Bastinhas é um caso de popularidade e de permanente e impagável empatia com este público na Nazaré (e com todos os públicos, valha a verdade). Esta foi uma das praças talismã de seu saudoso Pai e é também uma daquelas onde ele desfruta de maior carinho e simpatia por parte deste sempre tão entusiasta e colaborante público. Existe um idílio perfeito entre Bastinhas e a Nazaré

Marcos tem a percepção perfeita disso e tem, como ninguém, uma notável e cada vez maior noção de espectáculo - a sabe dá-lo como nenhum outro. Tal como seu Pai, Bastinhas não se limita a ser um grande toureiro. É um verdadeiro show-man!

O primeiro toiro do seu lote, que foi esperar à porta dos sustos, aguentando a pedalada com que este entrou em praça, dobrando-o e dominando por completo a situação - e a carga do oponente - não tinha uma qualidade excepcional, demonstrou depois ser algo parado e reservado, mas Bastinhas encarregou-se de o fazer investir, de o fazer crescer, puxando-lhe pela bravura (que tinha dentro) com uma alegria contagiante e uma verdade toureira que sempre galvanizam o público, o fazem levantar das bancadas e transformam em triunfo e euforia uma lide que podia estar condenada a um menor sucesso. Bastinhas é único em sair por cima de todas as situações. Por isso não me canso de dizer que ele é a diferença e a excepção ao (quase) marasmo do sempre igual em que caíu e parece, às vezes, ter adormecido a nossa Festa.

No quinto toiro, com mais qualidade, toiro sério e exigente, Marcos voltou a deixar a sua marca de toureiro diferente - e que faz a diferença. Toureou com verdade e com entrega, cravou ferros de muita emoção nos terrenos da verdade, terminou com um arrojado par de bandarilhas, a eterna marca da casa, saltando depois do cavalo e agradecendo, de braços abertos, a grande ovação que todos lhe dedicaram.

João Ribeiro Telles lidou dois toiros bravos e que impuseram emoção e seriedade, sendo protagonista de duas grandes actuações que o público reconheceu e ovacionou e o director de corrida, muito acertadamente, premiou com música logo aos primeiros ferros.

No terceiro Veiga da noite, João marcou o arranque do grande triunfo da corrida com dois compridos de praça a praça, a dar toda a prioridade ao belíssimo toiro que tinha por diante. O primeiro curto foi o primeiro dos dois grandes ferros da corrida e o director José Soares, "inteligente" exigente e conhecedor, sério e de muito bom senso, mandou logo a banda tocar. João Telles agarrou o público com mais um ferro imponente e a lide foi em crescendo, marcando esta sua presença na Nazaré e na Corrida "Farpas" pela força e pela emoção do seu toureio, pisando a linha de fogo, assustando, mostrando que esta é uma arte onde o perigo é constante e a glória se pode confundir com a tragédia.

João Telles vive um momento de enorme esplendor e está a cumprir mais uma temporada memorável, distanciando-se do pelotão. No último toiro, que foi outro exemplar muito na linha de seriedade e emoção da ganadaria, Telles voltou a estar em alta, bregando e lidando com acerto e perfeição. Assim como em Alcochete, também ontem não utilizou o seu magnífico cavalo "Ilusionista" - provavelmente para lhe dar descanso e dar palco às novas e belíssimas estrelas da quadra.

Um aplauso especial aos seis belíssimos bandarilheiros das quadrilhas dos três cavaleiros que ontem coadjuvaram as lides e se destacaram ainda na esforçada brega a colocar os toiros para os forcados - José Franco "Grenho" e António Telles Bastos (de Moura Caetano); Gonçalo Veloso e Cláudio Miguel (de Bastinhas); Duarte Alegrete e Diogo Fernandes (de Telles).

Ainda a viver as emoções de uma noite única, por aqui me fico, terminando com uma palavra de agradecimento ao público que esgotou ontem a praça da Nazaré, abrilhantando a Corrida "Farpas" com o seu entusiasmo e a sua entrega; à empresa Doses de Bravura pelo espectacular e tão empenhado carinho com que deitou mãos a esta organização; ao Rui Bento pelas bonitas e amáveis palavras com que lembrou, ao início da corrida, a minha aventura de 50 anos no jornalismo e na Festa, bem como a trajectória triunfal de João Moura Caetano em vinte anos de alternativa; à Família do Rui, a sua Mulher Isabel e a seus filhos Rui Pedro e Margarida, pela força que sempre dão ao labor da sua empresa na excelente e profissionalíssima organização de todas as corridas; ao amigo de sempre José Carlos Amorim, importante e empenhado pilar de todo este grande projecto empresarial; ao Nuno Batalha, pelo incondicional e sempre dedicado apoio da sua Confraria de Nossa Senhora da Nazaré; ao João Moura Caetano e ao João Ribeiro Telles pelas bonitas e sentidas palavras com que me brindaram as suas lides; aos grupos de forcados de Montemor e Portalegre, aos seus cabos António Cortes Pena Monteiro e Gonçalo Louro, bem como aos forcados António Raimundo e Daniel Ameixa, pelas duas pegas que tiveram a gentileza de me brindar; à simpatia com que falámos, ao início da corrida, eu e o director José Soares, a propósito do seu preocupado esforço para que os fotógrafos estejam sossegados entre tábuas (até teve uma reunião com todos no pátio de quadrilhas, precisamente para lhes fazer ver essa necessidade de não andarem em permanentes deslocações na trincheira durante as lides...); ao Hugo Teixeira (e à Cláudia) por ter estado uma vez mais a meu lado; à Fatucha e aos meus filhos, que não puderam estar presentes, mas de longe me fizeram chegar o seu carinho e a sua força; ao Zé Guilherme e à Kika, pela equipa fantástica que formámos; à minha irmã Mafalda, ao Diogo e ao Zé Maria, que já tinham vindo de longe para estar comigo no Jantar dos 100 Anos em Alcochete e ontem ali estiveram outra vez.

Obrigado a todos e também aos muitos amigos que não puderam estar e hoje me inundaram o telemóvel com amáveis palavras e felicitações pelo êxito que foi a Corrida "Farpas"!

Para o ano há mais, se Deus quiser!

Fotos M. Alvarenga