sábado, 1 de agosto de 2026

Paio Pires, ontem: Forcados salvam a honra e a imagem da Tauromaquia Lusitana em corrida mostrada a todo o mundo pelas câmaras do canal espanhol OneToro

Seis grandes e duras pegas dos forcados de Lisboa e de Coruche salvaram ontem a honra do Convento e da Tauromaquia Lusitana numa corrida em Paio Pires transmitida para todo o mundo pelo canal espanhol OneToro.

Miguel Alvarenga - É sempre um programa entusiasta (e emotivo) ir aos toiros à bonita praça de Paio Pires, no concelho do Seixal, que fica a dois passos de Lisboa e tem sido, desde a reinauguração, primorosamente gerida e promovida, com base na seriedade dos toiros e na atractiva composição dos cartéis, pela dupla de antigos forcados António José Casaca e Nelson Lopes, os dinâmicos membros do Departamento Taurino do Paio Pires Futebol Clube, que é a instituição proprietária da praça.

Ontem a praça da Margem Sul voltou a registar uma enchente e o ambiente voltou também a ser fantástico, um público animado, entusiasmado e colaborante - e, acima de tido, houve a habitual seriedade dos toiros, três espanhóis e três portugueses, no tradicional Concurso de Ganadarias que se realizou pelo oitavo ano consecutivo e que ganhou já o seu espaço e o seu prestígio, importantes, no calendário taurino nacional. Nunca houve tantos concursos de ganadarias como está a acontecer nesta temporada (falta de toiros para se lidarem curros completos?...), mas há concursos... e concursos. E ao prestígio dos de Évora, de Alcochete e de Salvaterra, já se juntou nos últimos anos este de Paio Pires.

A corrida de ontem tinha a mais valia de ser transmitida em directo para todo o mundo pelo canal espanhol OneToro - que tem feito, e vai continuar a fazer, aquilo que os canais nacionais nunca mais fizeram: transmissões de corridas de toiros. Valham-nos nuestros hermanos!

A equipa de comentadores, composta por Miguel Ortega Cláudio e João Vasco Lucas, contou ontem também com a experiência e a autoridade do antigo cavaleiro e ganadeiro António Raul Brito Paes, enquanto que na trincheira, a fazer as entrevistas, esteve Margarida Calqueiro, com Francisco Mendonça Mira sempre atento e em cima do acontecimento a comandar as operações. 

Não posso opinar sobre a transmissão, porque não a vi, estava na praça. Posso apenas presumir que terá sido boa e aplaudir o facto de não ter afastado público das bancadas, antes pelo contrário, o aficionado marcou presença na praça, quando podia ter ficado comodamente em casa a ver pela televisão.

Em termos artísticos, não se pode dizer que a coisa tenha começado bem. O primeiro toiro, um jabonero (branco) de Canas Vigouroux que era uma estampa, bravo, a impor seriedade, saíu meio "desequilibrado", aos tropeções, visivelmente combalido e diminuído. Gilberto Filipe apontou o primeiro ferro, houve alguns protestos (mas o público de Paio Pires é sereno... se fosse em Vila Franca, meu Deus...) pelas condições de inferioridade demonstradas pelo toiro, mas nem o médico veterinário José Luis da Cruz, nem o director de corrida Ricardo Dias se pronunciaram, pura e simplesmente deixaram andar, siga a Marinha, que seja o que Deus quiser... Estavam lá?...

Gilberto Filipe não esteve bem, nem mal. O toiro, bravo, repito, queria, mas não podia. Veio a mais, precisamente porque era bravo e tinha casta, mas a lide decorreu em banho maria e não terá sido a melhor propaganda feita para o mundo inteiro da nobre arte portuguesa de lidar toiros a cavalo...

O segundo toiro era o exemplar de Victorino Martín (não propriamente do anunciado encaste Patas Brancas/Monteviejo, que esse lesionou-se no campo em combate com outro toiro e não veio) e também saíu visivelmente diminuído, aos tropeções, a cair. Desta vez, veterinário e director de corrida acordaram a tempo de mandar recolher o toiro, que foi coisa demorada, acabou por ser laçado (foto em baixo), presumo que, uma vez que a corrida estava a ser transmitida em directo para todo o mundo, se tenha com isso pretendido homenagear a Tourada à Corda da Ilha Terceira...

Não é normal que numa mesma corrida saiam à arena dois toiros nestas condições. E não foram só dois. Aconteceu também ao sexto e lindíssimo toiro, também bravo como o de Vigouroux, de apresentação fabulosa, da ganadaria Passanha Sobral, que também acabou por vir a mais, mas entrou igualmente aos trambolhões...

Já assisti a várias corridas em Paio Pires e uma coisa assim nunca aconteceu. Ontem, estranhamente, parecia que estes três toiros (o primeiro de Canas Vigouroux, o segundo de Victorino Martín e o último de Passanha Sobral) tinham caído pela escada abaixo nos curros e por isso haviam chegado à arena diminuídos e combalidos, a coxear... Em termos de imagem da nossa Festa para todo o mundo não se pode dizer que estas estranhas incidências tenham sido muito positivas... 

Era bom que se investigasse (mas a sério, não como se não investigou a história do atrelado da droga...) o que é que se passou ontem nos currais da praça de Paio Pires para que três toiros tenham saído assim diminuídos à arena...

Voltando ao segundo toiro, recolhido (demoradamente) o toiro espanhol que estava destinado a Miguel Moura, saíu aquele que seria o seu segundo toiro, o da ganadaria Prudêncio. Toiro sério, com apresentação qb, sem transmitir muito, começou logo por dar um valente estaladão ao cavalo, só não tendo ido tudo parar ao chão por milagre. Miguel Moura depressa se recompõs, a raça veio acima e a lide foi emotiva, com ferros de excelente execução e que levantaram o público das bancadas.

O terceiro toiro, da ganadaria espanhola Benítez Cubero, castanho, nobre, sem complicar demasiado, foi lidado com acerto por António Prates. Algo reservado, exigiu esforço e entrega do cavaleiro, que sem protagonizar propriamente uma lide de grande brilhantismo, esteve certíssimo e perfeito, escutando música (ontem, como é costume nesta corrida, as lides foram alternadamente abrilhantadas pela Banda do Samouco e pelo conjunto de guitarras de João Chora) e dando aplaudida volta à arena.

De comportamento bravo e com bonita apresentação, era da ganadaria espanhola Villamarta o quarto toiro da corrida e foi o que ganhou o concurso, sendo-lhe atribuído os dois prémios em disputa, apresentação e bravura. O júri, dizem-me (a aparelhagem sonora da praça de Paio Pires continua a não ser fantástica...), era composto pelo Dr. Vasco Lucas, pelo antigo forcado José Augusto Batista e pela equipa do canal OneToro. Não houve protestos sonoros às duas distinções atribuídas ao toiro espanhol de Villamarta, mas também ninguém percebeu muito bem a escolha... O público de Paio Pires, repito, é sereno. Se fosse em Vila Franca, outro galo teria cantado...

O prémio de bravura poderia ter sido outorgado ao primeiro toiro de Canas Vigouroux (apesar de diminuído e combalido, teve um comportamento fantástico de bravo) e o de apresentação ao último toiro, o de Passanha Sobral. Mas o júri ontem decidiu ao contrário...

Com este toiro premiado de Villamarta, Gilberto Filipe andou mais alegre e mais desenvolto que na primeira actuação. Houve ferros de nota alta e terminou com o número vistoso de retirar a cabeçada. O alegre público de Paio Pires aplaudiu entusiasmado.

Miguel Moura enfrentou em quinto lugar o toiro sobrero, que era de Canas Vigouroux e tinha transmissão, embora fosse algo reservado. Sem ter sido uma actuação deslumbrante (ontem não houve actuações deslumbrantes de nenhum dos três cavaleiros), esteve bem e ao seu melhor estilo. Ouviu música, recebeu aplausos, deu aplaudida volta à arena.

António Prates enfrentou em último lugar o espectacular toiro de Passanha Sobral, de apresentação irrepreensível e destacada bravura, apesar de ter também saído à arena visivelmente combalido e aos tropeções. O toiro cresceu e evidenciou a sua grande qualidade indo de menos a mais e terminando a sua presença em praça arreando forte nos forcados. Prates esteve bem a lidar e a cravar, encastou-se e entusiasmou tudo e todos. Toureiro de casta e de valor.

Boas intervenções, com toiros que pediam contas, dos seis bandarilheiros das quadrilhas dos três cavaleiros: Duarte Alegrete e João Ferreira (de Gilberto Filipe), Jorge Alegrias e João Bretes (de Miguel Moura), Joaquim Oliveira e Fernando Fetal (de António Prates).

Com lides dos cavaleiros que não foram formidáveis, antes andaram ao ritmo assim-assim, a noite de Paio Pires ficou marcada pela memorável actuação dos grupos de forcados de Lisboa e de Coruche, com seis duas e muito rijas pegas e toiros que não facilitaram a vida dos valentes das jaquetas de ramagens, bem pelo contrário.

Os forcados deram ao mundo a melhor e mais elevada imagem da tauromaquia portuguesa. Foram eles, sem margem para quaisquer dúvidas, os grandes e absolutos triunfadores da noite e aqueles que melhor honraram a nossa Festa aos olhos de todo o mundo, através das câmaras da OneToro.

Continuam a ser eles, aliás, os grandes pilares e a grande imagem de marca da tauromaquia lusitana. Daqui a pouco, vamos publicar o habitual bloco com as fotos das sequências das seis grandes pegas de ontem na arena de Paio Pires.

Pelos Amadores de Lisboa foram forcados de cara Duarte Nascimento (à primeira); Tomé Batalha (à primeira, com uma grande primeira-ajuda de Gonçalo Bento, que o acompanhou na volta à arena); e José Batista, numa grande pega ao primeiro intento, com o grupo a ajudar na perfeição.

Pelos Amadores de Coruche, pegaram Pedro Galamba (à segunda); o enorme António Tomás naquela que pode considerar-se a grande pega da noite, à primeira; e o cabo João Prates, também numa pega memorável consumada ao segundo intento.

Presidiu à corrida Maria João Rosado, presidente da Junta de Freguesia da Aldeia de Paio Pires, a quem os forcados de Lisboa dedicaram a primeira pega da corrida.

Na direcção da corrida esteve Ricardo Pais, acertado como sempre, assessorado pelo competente médico veterinário José Luis da Cruz, apenas havendo a lamentar o facto de não terem dado pelo estado combalido com que entrou (e continuou!) em praça o primeiro toiro de Canas Vigouroux, acordando depois no segundo toiro, de Victorino Martín, que também vinha a cambalear e mandaram recolher...

Ao início da corrida foi guardado um minuto de silêncio em memória de António José Zuzarte, quinto cabo dos forcados Amadores de Montemor, falecido esta semana e cujas cerimónias fúnebres (cremação) se tinham realizado de manhã. Em sua memória, os forcados Amadores de Coruche apresentaram-se ontem todos de gravata preta e brindaram a primeira pega aos céus.

A Paio Pires haveremos de voltar, se Deus quiser, na tarde de 26 de Setembro, dia em que se anunciam seis toiros brancos (jaboneros) de Canas Vigouroux para a corrida de gala à antiga portuguesa em que se comemorará o 50º aniversário da inauguração da praça, ao sue se diz, com um cartel de seis jovens cavaleiros.

Fotos M. Alvarenga

Corrida de praça cheia (fotos de baixo) iniciou-se com minuto de
silêncio em memória do grande forcado António José Zuzarte