quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Caetano(s) no Redondo: a arte suprema de bem lidar e tourear a cavalo

Miguel Alvarenga - Saber, tranquilidade, apurada maturidade, experiência, bom gosto, sentimento, arte pura e muita classe, foram apenas alguns dos muitos atributos que pautaram as seis lides distintas a seis toiros diferentes executadas esta segunda-feira no Coliseu do Redondo (que registou uma entrada de três quartos de lotação preenchidos) pelo cavaleiro João Moura Caetano, a fechar com chave de ouro mais uma triunfal temporada em que, pelo quarto ano consecutivo, se consagrou como líder do escalafón, esta com um significado muito especial, já que cumpriu vinte anos de alternativa.

A última vez que toureou seis toiros foi há catorze anos em Monforte. Entretanto, muita água passou por baixo das fontes, muito apurou João a sua forma de sentir e interpretar a bonita e tão nobre arte de lidar toiros a cavalo.

Primeiro era "o filho de Paulo Caetano", com o peso e a responsabilidade de trazer às costas, mas sobretudo na alma, a raça e a arte de uma das maiores figuras do toureio equestre dos últimos cinquenta anos. Depois distanciou-se, andou em frente, traçou a sua carreira com um cunho muito próprio, muito pessoal, atravessando duas décadas sempre na fila da frente e a marcar pela força da sua classe as arenas por onde passava.

Segunda-feira no Coliseu do Redondo, encarou de frente e de cabeça erguida o desafio de tourear sózinho seis toiros, um primeiro mais complicado de Torre d'Onofre, bonito, bem apresentado, exigente; e depois exemplares das ganadarias da família, de seu pai Paulo Caetano (que deu volta à arena na qualidade de ganadeiro no terceiro) e de Irmãos Moura Caetano (cujo maioral o acompanhou também na volta à arena no sexto).

Forem seis toiros diferentes e aos quais Moura Caetano deu lides distintas, as adequadas às investidas e ao comportamento dos oponentes, confirmando, se alguém ainda tivesse dúvidas, a sua grande e bem apurada maturidade, a rápida e tão eficiente facilidade com que entende os toiros que tem pela frente, a perfeita e total noção dos terrenos - e essa fantástica capacidade de lidar com uma tranquilidade e uma segurança que transmitem para o público toda a arte e todo o sentimento que lhe vão na alma.

Em seis toiros, não houve um ferro falhado, não houve um toque, não houve um deslize e não houve excessiva presença dos seus magníficos bandarilheiros na arena, tendo estes intervindo - e bem - sobretudo na colocação dos toiros para os forcados.

João Moura Caetano lidou e toureou os seus toiros sózinho, como ele sabe - com o bom gosto e com a classe que herdou do Senhor seu Pai, com quem nos deliciou a todos na lide a duo do quarto toiro. Um momento que muitos esperavam e que se repetiu catorze anos depois daquela tarde histórica em Monforte.

Marcante, gloriosa, de cátedra, a presença do Maestro Paulo Caetano em praça na lide a duo do quarto toiro com seu filho. Bregou com a costumeira sabedoria e calmaria, toureou em câmara lenta cravando ferros que foram, pela sua preparação, pela sua execução e pela forma bonita e templada com que bordou o toureio e a arte em remates vistosos e muito aplaudidos, verdadeiros quadros de bom toureio. Uma lição catedrática a que João respondeu demonstrando o que dela aprendeu em vinte anos de elevado profissionalismo. Um momento histórico e inesquecível desta temporada de 2026. Que pena Paulo Caetano não tourear mais todos os anos! 

Outro momento emotivo foi o dueto de João com o seu amigo e companheiro Gonçalo Fernandes na lide do segundo toiro da tarde. Foi bonito, à partida, o gesto de Moura Caetano de convidar o Gonçalo para ser o seu cavaleiro sobressalente (obrigatório pelo Regulamento sempre que um toureiro se anuncia em solitário) nesta encerrona do Redondo. 

O Gonçalo, filho do saudoso Zeca Fernandes, cavaleiro de Seia, que foi um dos últimos românticos do mundo tauromáquico, mereceu esta oportunidade. Não toureia muito, mas dá sempre a cara, não recusa ganadarias, faz-se à luta com um sorriso e uma vontade que são merecedoras do aplauso e do carinho de todos os aficionados. 

Já não há muitos toureiros assim e o Gonçalo Fernandes é, talvez, um dos últimos símbolos de uma raça de cavaleiros à maneira antiga que está em vias de extinção, uns que chegaram à alternativa, outros que andaram uma vida como amadores. De que faziam parte, entre outros, o Zé Zúquete, o nosso querido João Cortesão e também o tomarense "Tomix", este felizmente ainda entre nós e em excelente forma.

Gonçalo Fernandes aproveitou este palco que Moura Caetano lhe proporcionou e mostrou que é toureiro de valor e merecedor de mais oportunidades. Cravou, com toda a dignidade, dois bons ferros curtos, reciando-se em efusivos remates com emotivas piruetas. Toureiros assim fazem falta.

E depois de todas estas emoções, em que não podemos esquecer a magnifica capacidade e excelente forma de todos os cavalos da sua importante quadra, de que vou destacar o "Campo Pequeno" e o "Ouro Negro", mas de que aplaudo todos, Moura Caetano agarrou no microfone e brindou a todos os presentes, agradecendo o apoio e o incentivo que lhe têm dado ao longo da sua trajectória, a lide (apoteótica, verdadeiramente soberba e magistral) do sexto e último toiro, onde tudo voltou a ser perfeito, como nas cinco lides anteriores.

João esteve a gosto, embebido no sucesso em que decorria desde o princípio a corrida, empolgando tudo e todos nesta derradeira actuação com a plena maestria da sua arte, do seu sentir, da sua rara intuição demonstrada desde que era miúdo.

Em tarde de tantas e tão marcantes emoções, João Moura Caetano brindou a primeira lide aos pais, Paulo Caetano e Dita Moura Caetano, e depois repartiu brindes com o público, com um grupo de amigos e com D. Afonso de Bragança, que assistiu numa barreira em representação da Casa  Real.

No final, quando dava a volta à arena com o forcado de Beja e o maioral da sua ganadaria Irmãos Moura Caetano, entrou em cena (para delícia das revistas e programas televisivos côr-de-rosa...) a namorada, Luíza Abreu (que antes não fora vista na bancada) levando-lhe a filha Maria Guiomar, nascida recentemente, que João levou depois nos braços e também na companhia do filho mais velho, o António, de sete anos. 

Por duas vezes tentou escapar, com humildade, à tentativa de o levarem em ombros, mas à terceira foi de vez - e toda a praça o aplaudiu de pé. Honra mais que merecida.

Uma nota de aplauso e louvor para os seis grandes bandarilheiros que coadjuvaram as lides, como disse anteriormente, sem excessivas presenças em praça, a não ser na colocação dos toiros para os forcados e no início de cada lide a recebê-los para mostrar ao cavaleiro as suas investidas. Palmas, de pé, para José Franco "Grenho", Ricardo Raimundo, Sérgio dos Santos "Parrita", João Prates "Belmonte", Hugo David "Niño del Rio" e António Telles Bastos. Toureiros de alma, toureiros de raça. E grande profissionalismo.

E uma palavra de apreço, também, porque inteiramente merecida, ao fiel moço de espadas de tantos anos Sérgio Batista, que muito mais que essa função, exerce na carreira do João a missão de grande amigo e de verdadeiro braço-direito. Esta "encerrona" foi muito trabalhada por ele e é preciso que aqui o destaquemos.

Nas pegas, a que vamos dar o habitual destaque já a seguir, estiveram os forcados de Portalegre (Tomás Gomes à terceira e Guilherme Alves à primeira), do Redondo (Fábio Caeiro e João Maria Silva, ambos à primeira) e Beja (Fernando Caixinha à segunda e Paulo Pelica à primeira).

Bem dirigida por Marco Gomes, com a habitual competência e aficion, assessorado pela reputada médicas veterinária Ana Gião Gomes, a corrida iniciou-se com a presença de João Moura Caetano na arena a receber as homenagens de algumas individualidades e entidades, entre as quais da Associação Tauromáquica Redondense, do seu apoderado António Nunes e dos três grupos de forcados intervenientes.

João vestiu três casacas para tourear os seis toiros, uma verde, uma branca e uma vermelha.

Uma nota negativa, porque costumo reparar nesses pormenores e não os deixo passar em branco, para a ausência de companheiros numa corrida da importância desta para a carreira de Moura Caetano. Estiveram apenas três cavaleiros presentes nas bancadas: o retirado José Luis Cochicho, Tito Semedo e Paco Velásquez. Mais nenhum. Se estiver errado, corrijam-me. Lamentável. 

A festa seguiu pela noite dentro com um agradável e muito bem servido jantar no espectacular Convento de São Paulo, na Serra D'Ossa, onde a Família Caetano recebeu os amigos e convidados especiais, entre os quais o príncipe D. Afonso de Bragança e membros do Real Clube Tauromáquico Português, presidido por João Quintella, que apoiou este marcante evento, como já apoiara há trinta anos a "encerrona" de Paulo Caetano no Campo Pequeno.

Moura Caetano de parabéns por mais uma temporada de enorme sucesso, que fechou com toda a solenidade e com chave de ouro na segunda-feira no Coliseu do Redondo. Era dia - para alguns... - de festejar a República. Ali foi dia de festejar, antes, um dos Reis do toureio a cavalo de Portugal!

Fotos M. Alvarenga

20 anos de alternativa: as homenagens ao início da corrida



Primeira lide, a um bonito toiro de Torre d'Onofre, foi brindada
aos pais, Paulo Caetano e Dita Moura Caetano




João repartiu a segunda lide, em ferros curtos, com Gonçalo
Fernandes, o valoroso cavaleiro que estava como sobressalente



Outra lide brilhante, ao terceiro toiro, da ganadaria de seu pai,
que foi honrado com merecida volta à arena














Regresso ao passado, revivido com marcante emoção.
Lide do quarto toiro foi repartida com seu pai. A
maestria no Redondo!






Quinto toiro permitiu também um grande triunfo a Moura Caetano









Actuação soberba e memorável no último toiro, a fechar com chave
de ouro uma tarde histórica e uma temporada espectacular




Fim de festa em grande com os dois filhos na volta à arena e
depois, a apoteótica saída em ombros