Miguel Alvarenga - Vila Franca e a "Palha Blanco" foram ontem à noite palco da segunda e última corrida de uma magnífica e muito bem rematada Feira Taurina de Outubro, faltando ainda o espectáculo de recortadores que vai ter lugar no próximo sábado.
A jovem empresa liderada por Bernardo Alexandre marcou este ano a temporada pela diferença, depois de um primeiro ano de estreia onde foi notória, e natural, alguma inexperiência e alguns erros - que depressa ultrapassaram, realizando este ano uma série de corridas de muito interesse e sempre com forte presença de público, o que é animador e comprovador do bom trabalho que desenvolveram, tendo em conta que este é um dos públicos mais exigentes e, quase sempre, mais conflituoso quando alguma coisa não é do seu agrado. Quando, por exemplo, os toiros não têm o trapio que Vila Franca exige.
Nisso, os empresários apostaram com toda a força - e não desiludiram ninguém. A "Palha Blanco" exige toiros-toiros e seriedade. E isso aconteceu em todas as corridas, desde o Concurso de Ganadarias de Maio, passando pelo Colete Encarnado, chegando agora à Feira de Outubro.
Outro pormenor importantíssimo: a empresa "aguentou-se à bronca" quando os Velhos do Restelo (que ainda os há...) protestaram pela ausência de alguns cavaleiros-do-costume, apostando antes nos nomes do futuro e naqueles que se tinham destacado mais na temporada e na "Palha Blanco".
Vierem Miguel Moura e Tristão Ribeiro Telles no domingo, porque são os dois jovens cavaleiros mais destacados desta temporada e, indiscutivelmente, os dois primeiros entre as estrelas da nova vaga. Vieram ontem Salgueiro e Moura Jr., os triunfadores do Colete Encarnado, e António Prates, o triunfador do Concurso de Ganadarias de Maio.
Bernardo Alexandre a sua equipa fizeram reviver nesta Feira de Outubro a postura dos empresários antigos, que repetiam quem triunfava e recompensavam, com respeito e incentivo, quem mais de destacava ao longo da temporada. Os triunfos valiam muito. E hoje não valem nada...
Hoje em dia já nada disso acontece. Há cartéis de Agosto e Setembro que se anunciam no início do ano, independentemente de como andarem os toureiros que os compõem, sem o mínimo respeito empresarial pelo andamento e pela evolução da temporada de cada toureiro. Em Vila Franca isso não aconteceu. Grande lição deu o Bernardo e os companheiros de empresa que estão a seu lado, o Rui Gato, o Eduardo Borba Castro, o Ricardo Castelo.
A corrida de ontem, a tradicional nocturna de terça-feira que é a grande jornada de Exaltação ao Forcado Vilafranquense, só por pouco, muito pouco, não esgotou a lotação da "Palha Blanco". A praça estava cheia... até às bandeiras!
Viveu-se uma noite de grandes emoções com toiros de Veiga Teixeira sérios e exigentes, daqueles que põem tudo e todos no seu devido lugar e que justificam a velha tese que caracteriza esta ganadaria como "a que tira o sono a toureiros e forcados".
Os toiros bons para os ganadeiros nunca são toiros bons para os toureiros - e vice-versa. Os Teixeiras de ontem foram toiros daqueles que enchem as medidas ao seu criador, ao ganadeiro. Mas que não se pode dizer que tenham sido toiros magníficos para os toureiros. Pelo contrário. Deram-lhes água pela barba. Toiros muito sérios, a impor risco e perigo, a transmitir emoção, quase todos com cinco anos e outros a chegar lá perto. O ganadeiro foi premiado com volta à arena no quinto, um toiro de bandeira superiormente lidado por João Moura Jr., tendo-a dado o maioral.
A corrida resume-se em poucas palavras e sem necessitar de muitas considerações.
Houve um triunfador absoluto, no conjunto das duas lides, que foi o jovem António Prates (foto de cima), que ontem se autoproclamou como a nova estrela de Vila Franca - e não é fácil conquistar este estatuto.
Vila Franca foi sempre a praça dos Ribeiro Telles. Há poucos anos passou também a ser uma praça talismã dos Moura, primeiro de João Júnior, agora também do Miguel - apesar de nunca, em tempo algum, ter sido uma praça favorável ao Maestro Moura. Desde ontem, a "Palha Blanco" e o seu exigente público adoptaram um novo filho pródigo - António Prates.
Com dois toiros exigentes, dos que pedem o bilhete de identidade, António Prates impôs a força da sua vontade, a raça do seu toureio, a ousadia e a verdade da sua forma de interpretar o toureio, pisando a linha de fogo, arriscando, emocionando, galvanizando. Brindou a primeira lide ao público e a segunda a seu pai, o cavaleiro retirado José Prates.
Foram duas lides distintas, mas com um denominador comum - o respeito pela pureza do toureio a cavalo. Pela verdade, sem martingalas, sem facilidades, sem lides estudadas e trazidas de casa. Prates toureou os dois toiros como eles tinham que ser toureados, bregando, lidando, recriando-se em ousados remates a ladear, consoante as investidas de cada um. Triunfou. Triunfou fortíssimo. O que é preciso fazer mais para se sair em ombros da "Palha Blanco"? Fazer o pino em cima do cavalo?...
Outro triunfo importante obteve João Moura Jr. na lide do quinto toiro, depois de no segundo da noite apenas lá ter estado, sem o costumeiro brilhantismo. Esse toiro era parado, complicado, sem dar opções. E Moura passou por ali sem deixar história. Saiu de cena de repente, pensava-se que tinha ido mudar de cavalo, mas afinal foi mas foi mudar de ares...
No quinto, a música foi outra. O toiro era sério, transmitia, tinha teclas, pedia contas. E Moura arranjou forma de terminar a sua temporada com um triunfo soberbo, com ferros de parar corações que levantaram o público das bancadas. Escutou música e deu aplaudida volta à arena com o forcado e o maioral da ganadaria Veiga Teixeira.
João Salgueiro terminava ali, onde em Julho tudo recomeçara, a marcante temporada do seu regresso às arenas. Mas desta vez não teve a noite sonhada.
O primeiro Teixeira era um toiro reservado, parado, que esperava. Não foi fácil, mas Salgueiro lidou-o com valor e com determinação, foi uma lide de total e completa superação, de maestria e de experiência. O director Ruben Fragoso só deu por isso já tarde, apenas lhe concedendo música no minuto final, quando João se despedia do público na porta de saída...
No quarto toiro da noite, um toiro também muito sério e muito exigente, o grande e genial Salgueiro dos momentos que marcaram esta temporada não esteve lá...
Diogo Malafaia e Cláudio Miguel intervieram vezes demasiadas durante as lides de Salgueiro. E o público protestou.
Despediu-se das arenas Benito Moura, a quem o primo João Moura Jr. cortou a coleta (sob o olhar emocionado do Maestro João) em cerimónia simples e despretensiosa, junto à porta dos cavaleiros, depois de lhe ter brindado (e ao ex-cabo e novo cabo dos forcados) a lide desse quinto toiro. José Maria Maldonado Cortes, o outro bandarilheiro da quadrilha, esteve eficiente sobretudo a colocar os toiros para as pegas.
Bem a quadrilha de Prates, formada por Jorge Alegrias e Francisco Marques, sem permanências constantes na arena.
Esta foi, como manda a tradição, a noite de Exaltação ao Forcado Vilafranquense, com a emoção acrescida da mudança de cabo. Já a seguir, dedicamos o destaque habitual às seis grandes pegas que marcaram esta noite de despedida de Vasco Pereira - que passou o testemunho a Rodrigo Dotti, um primeiro-ajuda de eleição que por duas vezes acompanhou o forcado de cara na volta à arena.
A corrida foi dirigida com acerto por Ruben Fragoso, assessorado pelo médico veterinário José Luis da Cruz.
Fotos M. Alvarenga
| Lide de superação frente a um Teixeira daqueles que põem tudo no seu lugar. Salgueiro deu neste primeiro toiro um arzinho da sua graça e uma sombra da sua genialidade... |
| Moura Jr. "não esteve lá"... frente ao segundo toiro da noite |
| Da primeira parte da corrida, o grande triunfador foi António Prates. Na segunda parte repetiu o triunfo e consagrou-se como a nova estrela da "Palha Blanco"! |
| No quarto toiro não houve Salgueiro... |
| Lide "brutal" de Moura Jr. no quinto magnífico toiro de Veiga Teixeira. Nas fotos de cima, o corte da coleta ao primo Benito sob o olhar emocionado do Maestro João Moura |
| Prates voltou a empolgar tudo e todos no último toiro. Deu aplaudida volta à arena com o novo cabo Rodrigo Dotti (grande primeiro-ajuda) e com o forcado de cara Rodrigo Camilo |


