| Bonito gesto de Gilberto Filipe no primeiro toiro, brindado a lide aos Forcados de Monforte, incluídos no cartel por terem ganho o Concurso de Cernelhas da manhã |
Miguel Alvarenga - A corrida de ontem na Arena de Évora, primeira da temporada na cidade-museu, antecedida pelo já tradicional Concurso de Cernelhas matinal (evento criado pelo anterior empresário Carlos Pegado e que nas suas primeiras edições era mais abrangente, incluindo a prática de sortes antigas da pega), não tendo sido propriamente uma corrida transcendente, daquelas que marcam e que fazem nascer novos aficionados, foi um festejo agradável, divertido, que decorreu sem demoras e sem tempos mortos, onde os aficionados desfrutaram de bons momentos de toureio e de excelentes pegas, que não maçou ninguém e de onde saímos todos satisfeitos, não fosse, mesmo no fim, a violenta e grave colhida sofrida pelo jovem forcado Ruben Corte-Real, do Grupo de Monforte, que acabou por manchar uma tarde que correra bem sob todos os aspectos.
Os empresários António Alfacinha e Carlos Ferreira montaram um cartel diferente, digno, pouco apelativo, sem grande risco, mas onde o facto de estar inserido naquilo a que se chamou "um dia em cheio", iniciado logo pela manhã com o Concurso de Cernelhas, em dia aprazível e de calor, acabou por constituir uma agradável e positiva jornada em prol da tauromaquia, com a praça a registar duas enchentes, uma da manhã e outra à tarde, rondando cerca de três quartos fortes da lotação preenchidos em casa um dos espectáculos. Como se viu, não é preciso, às vezes, recorrer a "elencos de arromba" para encher uma praça...
O cartel não integrava figurões (e, valha a verdade, haverá figurões neste momento que levem gente às praças?...), mas antes três cavaleiros com trajectórias dignas e dignificantes para a Festa e para o toureio a cavalo, que, sem serem dos denominados toureiros do pelotão da frente, foram ontem mais que suficientes para chamar público às bancadas da Arena de Évora e proporcionar aos muitos aficionados que ali acorrerem uma excelente tarde de toiros.
Há corridas, algumas delas com os tais figurões, que se traduzem numa seca sem motivos de interesse, sem nada de especial se passar e nas quais o nosso maior desejo é que cheguem depressa ao fim. Já vi muitas assim. Mas a de ontem, pelo contrário, foi uma corrida atractiva e "bem disposta", onde toureiros e forcados deram o seu melhor e conseguiram captar as atenções de todos - e onde se lidou um belíssimo, emotivo, perigoso e bem apresentado curro de toiros da ganadaria São Martinho, que foi a menina dos olhos do saudoso Frei Elias, seu fundador, mas que, apesar de terem a benção do frade, muitas vezes se pareceram mais com discípulos do Demónio...
Duros e brutos por natureza, os toiros de São Martinho deram emoção à tarde, transmitirem, tinham teclas, não deram sossego aos toureiros, exigiram serem bem lidados. E foram-no.
Gilberto Filipe é um toureiro que se empenha, um perfeccionista, onde raramente há um toque, um ferro falhado, uma passagem em falso. O que faz, faz bem, na perfeição, aliado a uma qualidade que é desde logo meio caminho andado, é um equitador exímio, um mestre de alta escola, em dois anos eleito campeão mundial de Equitação de Trabalho.
Ontem esteve diligente e perfeito nas duas lides, sem pressas, sem altas velocidades, tudo a seu tempo e com o seu compasso. Terminou as intervenções retirando a cabeçada ao cavalo e fechando com emotivos ferros duas actuações perfeitas. Teve música nas duas lides e foi premiado com aplaudidas voltas à arena. Gilberto tem cartel em Évora, onde já triunfou várias vezes.
Luis Rouxinol Júnior esperou o segundo toiro da tarde à porta da gaiola e a pata com que ele saíu à arena obrigou-o a aguentar quatro voltas à praça sem parar, com o público de pé a aplaudir a forma como aguentou, sem pestanejar, a violenta carga do "bruto" exemplar da ganadaria São Martinho.
O toiro não era para brincadeiras. Sério, com perigo, dos que não dão sossego. Rouxinol esteve valente e ousado, foi uma lide de muita emoção. No final, merecia a volta à arena e o director António Santos autorizou-a, mas preferiu agradecer no centro, não dando volta sózinho, uma vez que o forcado não a deu (João Ruivo, de Monforte, que consumou à quarta tentativa efectiva, na sua primeira intervenção, depois de outras três mal sucedidas do cabo João Maria Falcão).
O quinto toiro não complicou tanto, mas foi também um toiro sério e com transmissão, com teclas, dos que pedem o bilhete de identidade aos toureiros, protagonizando Rouxinol Júnior uma lide menos atribulada, mas nem por isso menos emotiva. Esteve muito bem, deu a cara, pisou terrenos de compromisso, terminou com um arrojado par de bandarilhas.
António Prates não teve grandes opções com o terceiro toiro da tarde, mais reservado e mais parado que os dois anteriores, tendo estado no entanto em bom nível, sem muitas hipóteses de um triunfo com outro sabor.
No último toiro, portentoso, exigente, com investidas duras, Prates pôs a carne no assador, utilizou o cavalo dos "quiebros" e entusiasmou o público com sortes arriscadas, terminando com um ferro espectacular mesmo diante do director de corrida.
Boas intervenções dos bandarilheiros Duarte Alegrete e João Ferreira (a quadrilha de Gilberto Filipe), Ricardo Alves e João Martins (de Rouxinol), Gonçalo Veloso e João Bretes (de Prates).
Nas pegas, de que já aqui mostrámos todas as sequências, estiveram os Amadores de Évora e os Amadores de Monforte, estes incluídos no cartel como prémio pela vitória no Concurso de Cernelhas matinal, onde venceram a final disputada com o Grupo de Santarém.
Pelos anfitriões pegaram Henrique Burguete (à primeira); João Cristovão (à primeira, na grande pega da corrida); e Afonso Santos (à segunda tentativa).
Pelos Amadores de Monforte foram forcados de cara João Ruivo (a consumar na sua primeira intervenção, dobrando o cabo João Maria Falcão, que saíu lesionado num braço, depois de três tentativas, na última das quais já ia visivelmente diminuído e magoado, com o braço direito caído - um forcado nessas condições, insisto, estou cansado de o dizer, deveria de imediato ser substituído e não insistir); Nuno Ramalho (à primeira, numa grande pega que o tornou uma das figuras do dia, depois de ter sido de manhã o cernelheiro, formando dupla com o rabejador Dinis Romão, que deu a vitória ao seu grupo); e, por fim, Luis Vieira (à segunda, tendo-se lesionado com gravidade na primeira tentativa o primeiro-ajuda Ruben Corte-Real, neste momento ainda em estado que inspira cuidados, vítima de um forte traumatismo craniano e edema, internado no Hospital de São José, em Lisboa, para onde foi transferido de helicóptero nesta madrugada).
A corrida foi bem dirigida, com a habitual eficiência, bom senso e aficion, por António Santos, que esteve assessorado pelo médico veterinário Carlos Santana.
A corrida viu-se, foi agradável, não foi chata (como tantas são...) e teve momentos de bom toureio e emoção, teve perigo, imposto pelos toiros sérios de São Martinho. Quando isso acontece, as coisas têm um sabor diferente. E os aficionados ficam acordados do princípio ao fim, sem crises de sono...
Fotos M. Alvarenga
| Classe e perfeição nas duas lides de Gilberto Filipe |
| Muita entrega e ousadia: Luis Rouxinol Jr. em tarde de triunfo |
| Verdade e risco no toureio de António Prates |
