Miguel Alvarenga - Não comparando, muito menos os beliscando, com algumas das primeiríssimas figuras ainda em actividade, casos de João Moura, de António Telles, de Luis Rouxinol e de Rui Fernandes, João Moura Jr. e João Ribeiro Telles são, indiscutivelmente, os primeiros do pelotão do toureio equestre actual, com o de Monforte algo distanciado, uns pontos à frente do seu primeiro rival, tal como há cinquenta anos acontecia com seu pai, o "Niño Prodígio" que neste mesmo Dia de Portugal celebrava meio século da sua triunfal primeira saída em ombros da Monumental de Madrid, era a tarde de 10 de Junho de 1976 e a Espanha inteira ficou a falar do menino português de 16 anos que ali decretara, naquele dia, que era assim que se passaria a tourear a cavalo. Nascia a Revolução Mourista e o menino Moura impunha ali a sua lei, mostrando que também se podia tourear a cavalo como os maiores mestres toureavam a pé.
Cinquenta anos depois, João Moura estava na quarta-feira na trincheira da Monumental "Celestino Graça", onde há 48 anos, neste mesmo dia 11 de Junho, recebeu a sua alternativa. O matador sevilhano Juan Ortega brindou-lhe a sua faena. E o público brindou-o com uma calorosa ovação.
A corrida desta quarta-feira em Santarém ficará na história desta temporada como um dos maiores e mais marcantes acontecimentos do ano. Depois de terminar, o público permaneceu à porta, comentando as incidências da tarde. Viveu-se um ambiente de classe e de glamour a lembrar os tempos do antigo Campo Pequeno. A Monumental "Celestino Graça" estava cheia até às bandeiras. E, artisticamente, a corrida foi um sucesso daqueles que tão cedo não vamos esquecer.
Lidaram-se a cavalo quatro magníficos toiros de António Raul Brito Paes, dois dos quais, precisamente o que foram lidados por Moura Jr., foram premiados com a volta do ganadeiro à arena e regressaram ao campo, indultados, para desempenharem as funções de reprodutores e desta feita assegurarem a continuidade dos êxitos desta afamada ganadaria.
João Moura Jr. não esteve apenas muito bem, esteve enorme, magistral, reafirmando o estatuto de primeiro entre os primeiros. Lide monumental com o primeiro toiro da corrida, depois lide sem descrição possível com o quarto da ordem, onde tudo foi acima da média, a atingir as raias da supremacia, com brega milimétrica e ferros de parar corações, rematados com ladeios arrepiantes, público de pé, em euforia, a pedir mais e mais. Toureiro de outra galáxia, inigualável, marcante. Tal pai, tal filho. Cinquenta anos depois, outro Moura a liderar.
João Ribeiro Telles respondeu ao rival com duas actuações do mesmíssimo nível, impondo a verdade e a ousadia do seu belíssimo toureio, como que a reivindicar também o primeiro posto do escalafón, sem vontade nenhuma de ser referenciado como o "número dois". Um e outro "picaram-se", com isso provocando o entusiasmo nas bancadas, com isso confirmando que a parelha é esta e mais nenhuma. João Telles deixou a sua marca num ano em que tem afirmado, de tarde em tarde, a sua arte suprema.
No que ao toureio equestre diz respeito, a tarde de 10 de Junho foi de alta competição e de completa afirmação destes dois importantes cavaleiros, não deixando dúvidas a ninguém de que são eles os indiscutíveis líderes do pelotão.
O toureio a pé, nesta que se tornou já uma das corridas mistas mais tradicionais da temporada nacional, esteve em Santarém representado peio matador sevilhano Juan Ortega - que no último toiro da corrida demonstrou todo o potencial artístico e todo o grande profissionalismo e entrega que leva na alma, entusiasmando o público numa faena de arte e sentimento.
Juan Ortega enfrentou dois toiros de Calejo Pires. O primeiro, de fraca apresentação e quase nenhum trapio, foi protestado com alguns assobios e acabou por retirar importância à vontade e à entrega do toureiro sevilhano.
O segundo, sexto da ordem, foi "mais toiro" e teve um comportamento de excelência, proporcionando a Ortega todos os condimentos para realizar uma faena de excepção. O diestro viu logo nos primeiros lances de capote que tinha ali matéria prima para brilhar. Recebeu-o com bonitas verónicas e depois do tércio de bandarilhas (bem preenchidos pelos membros da sua quadrilha) ainda se arrimou num artístico quite por arrimadas chicuelinas.
Com a muleta, toureou, toureou e toureou e teve sempre toiro até ao fim. Fez jus ao seu grande valor e aos seus atributos de excelente lidador. No fim, deu calorosa volta à arena acompanhado por uma enorme falange de crianças e jovens aficionados, multidão que se tornou já habitual no final das corridas em Santarém (foto de cima).
O ganadeiro Manuel Calejo Pires merecia, como Brito Paes, ter dado a volta à arena - pelo magnífico comportamento deste último toiro. Mas não a deu...
Aplausos para os bandarilheiros das quadrilhas dos dois cavaleiros - Benito Moura e José Maria Maldonado Cortes (de Moura Jr.), Duarte Alegrete e Diogo Fernandes (de Telles) . e também para os três espanhóis que integraram a equipa de Juan Ortega.
Nas pegas - de que já aqui mostraremos todas as fotos -, tarde grande para os Amadores de Santarém e de Montemor, no tradicional e sempre aguerrido derby da forcadagem com quatro grandes pegas ao primeiro intento.
Pelos anfitriões pegaram Francisco Cabaço (que brindou a René Tirado, cabo dos forcados Amadores do México) e Rodrigo Gallego (grande pega, com uma monumental primeira ajuda do muito poderoso José Maria Gonçalves, que também deu volta à arena).
Pelos Amadores de Montemor pegaram José Maria Cortes Pena Monteiro (que brindou a Rodrigo Dentinho) e Vasco Ponce (pega brindada ao ganadeiro António Raul Brito Paes), ambos em extraordinárias intervenções e com a sempre pronta e coesa ajuda de todos os companheiros.
A corrida foi bem dirigida por Marco Cardoso, que esteve assessorado pelo médico veterinário José Luis da Cruz, sendo, como é tradição. José Henriques o cornetim responsável pelos toques. Ao início da corrida e por estarmos a celebrar o Dia de Portugal, tocou-se - e cantou-se com alma - o Hino Nacional.
Uma palavra final para voltar a aplaudir e a enaltecer o brilhante trabalho levado a cabo nesta praça pela dinâmica Associação Sector 9. Estes homens é que deviam estar à frente do Campo Pequeno. E por aqui me fico...
Fotos M. Alvarenga
| João Moura Jr. |
| João Ribeiro Telles |
| Juan Ortega |
