segunda-feira, 6 de julho de 2026

Salgueiro histórico no regresso: a temporada vai ser diferente a partir de agora!

Miguel Alvarenga - Aguentem-se à bronca, que ele voltou para inquietar todo o mundo! A temporada vai ser diferente a partir de agora, com João Salgueiro de novo em campo. Que ninguém tenha dúvidas disso.

Primeiro, a atitude. Depois, a arte de sempre. A seguir, a raça que fez dele um toureiro único e diferente (no seu tempo, era o que mais apertava com o rei Moura... lembram-se ou já esqueceram?), raça que ainda vive dentro dele e que ainda mexe... e de que maneira!

A atitude. Com 58 anos, João Salgueiro foi "à guerra" como vão os Heróis. Sem comodidades, sem toirinhos da corda daqueles que cavalgam ao lado dos cavalos e que até se assustam com eles, não fazendo mal a uma mosca, toiros que um dia ele baptizou como "nhoc-nhoc's" e que assim ficaram referenciados para sempre. 

Salgueiro podia ter escolhido "uma coisa dessas", mas antes preferiu mostrar o muito que ainda vale frente a toiros exigentes, com teclas, de verdade, toiros dos que pedem o bilhete de identidade a quem lhes faz frente. Condessa de Sobral, ganadaria que já foi portuguesa e hoje é propriedade do ganadero espanhol Manolo Vásquez, ontem premiado com volta à arena no quinto e com chamada especial no quarto, a que acudiu o maioral em seu lugar. Toiros a sério, com transmissão, com emoção. Não há muito menino que goste de os ter pela frente. A Salgueiro isso foi indiferente. Foi "à guerra" com quase 60 anos, com a garra de sempre, com a arte de todos os tempos - e com toiros de verdade e de perigo. Mais: a competir com o primeiro dos primeiros, João Moura Júnior. Foi de Homem! A atitude.

Depois, a arte. Que foi a de sempre. Quem sabe nunca esquece. A primeira actuação não teve nada a ver com o que todos estavam à espera. O toiro não serviu, foi o pior dos seis (todos bons, menos este), Salgueiro esteve com garra e com raça, a mostrar que queria e que vinha para marcar (a temporada e tudo o mais), mas três ferros cairam no chão, as coisas não correram de feição, no fim não deu volta e ficou-se entre tábuas, se calhar com algum desânimo. Mas sem ideia nenhuma de baixar os braços. Conheço-o.

João Moura Jr. esteve superior no segundo toiro. Teve o bonito gesto de brindar a Salgueiro. E depois armou um taco. Reafirmando que é, quer gostem ou não gostem do que eu afirmo, o primeiro do pelotão, a muitas léguas dos outros todos.

Salgueiro engoliu. Mas não teve nenhuma indigestão. Voltou à arena para tourear o quarto Condessa da corrida, um toiro nobre e bravo, de nota alta, daqueles que pedem contas e em nada facilitam. E Salgueiro voltou em grande. Ao posto que ainda lhe pertence. 

Esteve certeiro e emotivo nos dois ferros compridos. Empolgou depois nos curtos. Passou em falso no primeiro, mas todos perceberam que aquilo era outra vez "um ferro à Salgueiro". Os outros foram todos. Com o cite ousado e valoroso, a batida de que todos ainda nos lembramos, a entrada pelo toiro dentro, por terrenos que só pisam os eleitos, os ferros de uma tremenda emoção e de um enorme efeito nostálgico, a lembrar o passado - e a dizer que o presente tem futuro e que o "Pica" está de volta!

Podem ter a certeza que João Salgueiro não voltou por voltar. Veio de novo em grande e com a clara intenção de apertar e obrigar a malta a puxar pelos seus galões. Não vai ser fácil a temporada com um Toureiro destes de volta. Mas é disto que a Festa precisa. De um abanão assim para acabar de vez com a monotonia e a pasmaceira em que vive, com todos acomodados e a tourearam da mesma maneira (quase todos...) e com touradas atrás umas das outras que são sempre mais do mesmo.

Nada vai ser como dantes com o regresso do Génio Salgueiro. A temporada mudou ontem em Vila Franca. Aguentem-se à bronca, meninos!

João Moura Júnior está noutro posto do campeonato. Nem é justo fazer comparações. É, indiscutivelmente, o camisola-amarela do pelotão nacional. E o mais curioso é que Vila Franca já é uma das suas praças de eleição. Uma praça e um público que nunca foram muito favoráveis ao Maestro Moura e que agora consagram o Júnior como um dos seus toureiros preferidos. Rendidos à diferença com que ele pisa sempre esta e todas as outras arenas.

Superior na primeira actuação, esteve "noutra galáxia" a lidar o quinto da tarde, um toiro bravo e de bandeira que foi premiado com ovações especiais quando era recolhido, a que o director de corrida Ruben Fragoso honrou com volta à arena e depois com volta do ganadeiro Manolo Vásquez com cavaleiro e forcado e também o maioral da ganadaria, que fora já chamado à arena no toiro anterior.

João Moura Júnior exibiu toda a tranquilidade, toda a segurança e toda a arte - suprema, genial - da sua tauromaquia única. Cinquenta anos depois, é outra vez um Moura quem manda nisto.

O matador sevilhano Borja Jiménez lidou dois toiros colaborantes da mesma ganadaria Condessa de Sobral, ambos com 490 quilos, com boa apresentação e ligeiro trapio, que não suscitaram quaisquer protestos do exigente público vilafranquense face à notória inferioridade em relação aos lidados a cavalo (o quarto pesou 590 quilos).

Os toiros não eram pêras doces, nem tiveram a qualidade que evidenciaram os lidados a cavalo (menos o primeiro, manso e reservado, fechado em tábuas, sem vontade alguma de ir à luta), mas Borja Jiménez é um grande toureiro, um dos mais destacados do momento, e não lhes virou a cara. Entregou-se, arrimou-se, deu a cara, demonstrou profissionalismo e valor. O público reconheceu a sua vontade e a sua honestidade e aplaudiu-o com força nas voltas à arena que deu no final das duas faenas. Borja Jiménez esteve em Vila Franca, não passou apenas por lá. E deixou marcas. É toureiro a repetir.

Brilhante, como sempre, foi a tarde dos forcados Amadores de Vila Franca. Com toiros que não eram cómodos, consumaram as quatro pegas - cada uma mais brilhante que a outra! - ao primeiro intento. Por uma razão: porque é um grande grupo de forcados.

Foram autores das quatro grandes pegas - de que aqui mostraremos todas as fotos ao longo do dia desta segunda-feira - os valentes Guilherme Dotti, Miguel Faria, Rodrigo Andrade (com uma primeira ajuda fora de série) e Rodrigo Camilo (também com uma grande primeira ajuda de Diogo Miguel).

Nota alta para as intervenções q.b. dos bandarilheiros das quadrilhas dos dois cavaleiros: Ricardo Alves e Cláudio Miguel (de Salgueiro), Benito Moura e José Maria Maldonado Cortes (de Moura Jr.); e para os grandes pares de bandarilhas de João Ferreira (às ordens de Borja Jiménez), bem como dos companheiros espanhóis que com ele partilharam os dois tércios de bandarilhas.

Ao início da corrida guardou-se um minuto de silêncio em memória dos mortos do sismo da Venezuela e também do antigo forcado vilafranquense Manuel Tavares da Silva.

A acertada direcção de corrida esteve ontem a cargo de Ruben Fragoso, assessorado pelo médico veterinário João Candeias. José Henriques foi o cornetim da corrida. Esteve bem nos toques, mas em Vila Franca não se batem palmas ao cornetim. Em Vila Franca há seriedade e as palmas são só para os artistas...

Ponto final, parágrafo. Termino a história desta histórica corrida com uma palavra de aplauso para a empresa. Para Bernardo Alexandre e para a sua equipa. Na temporada de estreia, a anterior, houve erros, houve imprecisões, talvez precipitações e, sobretudo, alguma compreensível inexperiência. 2026 já começou diferente, com uma boa corrida em Maio. E com uma corrida memorável ontem. Foi oportuna e brilhante a aposta no regresso de Salgueiro, na restante composição do cartel. E nos toiros da ganadaria Condessa de Sobral.

A "Palha Blanco" registou uma grande entrada de quase três quartos. Cheios os sectores de sombra. menos povoados os de sol. A corrida começava às 18h00, foi adiada para as 19h00. Se fosse adiada para a noite teria sido melhor ideia. 

Abro aqui um parêntisis para afirmar, mesmo que não gostem do que vou dizer, que se calhar o PAN tinha razão quando na sexta-feira tentou fazer passar no Parlamento a proibição de se realizarem touradas com uma caloraça destas. Isso compromete o comportamento dos toiros. E incomoda os homens. Se não há touradas quando chove, porque é que há touradas com temperaturas de 40 graus?...

Adiante. Vila Franca foi uma tarde de sonho. Apesar do calor. 

Triunfou Salgueiro na hora do regresso. Triunfou Moura Jr. em mais uma tarde de plena consagração. Triunfou Borja Jiménez a marcar com imensa dignidade a presença do toureio a pé nesta tradicional corrida mista do Colete Encarnado (muitos campinos na bancada, brindados na segunda pega pelos Amadores de Vila Franca). Triunfaram os forcados de Vila Franca. Triunfou a ganadaria Condessa de Sobral. Triunfou a empresa. Triunfou Vila Franca. E triunfou a tauromaquia.

E a temporada vai ser diferente a partir de agora - não se esqueçam disso.

Fotos M. Alvarenga


Praça cheia em Vila Franca apesar do calor...
Salgueiro à antiga maneira... e nada será igual a partir de agora

Moura Jr. reafirma liderança do pelotão... e o resto são cantigas!
Ganadero Manolo Vásquez premiado com justíssima volta à arena
Toiros de verdade, forcados de eleição. Tarde de triunfo
memorável do GFA de Vila Franca de Xira: quatro pegas à primeira

Borja Jiménez conquistou Vila Franca: arte, profissionalimo e 
muita entrega