Miguel Alvarenga - O sempre animado e muito colaborante público da Nazaré, onde assistir a uma corrida de toiros continua a ter um sabor diferente, rendeu-se ontem à arte e ao poderio do matador sevilhano Daniel Luque, que encantou e galvanizou em duas faenas de grande impacto e muito aprumo, dando um importante contributo à necessária afirmação (e recuperação) do toureio a pé em praças de Portugal.
O toureiro apoderado por Rui Bento toureou dois bons toiros, bem apresentados, que investirem e se fartaram de investir com nobreza sem se cansarem, evidenciando bravura, ambos da ganadaria Ribeiro Telles, agora gerida pelo Maestro António, que acompanhou o matador na muito aplaudida volta à arena no último toiro.
Daniel Luque é um dos toureiros que, embora nem sempre certeiro com o estoque, tem estado a marcar esta temporada de 2026 em Espanha e em França, e também do outro lado do Atlântico, tendo recentemente triunfado no Peru. A sua apresentação na temporada portuguesa e na bem montada temporada da Nazaré, estava rodeada de muita expectativa. E a presença, ontem, dos empresários de Santarém e Vila Franca nas bancadas da Nazaré confirma precisamente a expectativa que existia para rever Daniel Luque em Portugal, onde já não actuava há uns anos.
Sereno, senhor das situações, artista, poderoso, o toureiro de Gerena esteve bonito e artista com o capote e mandão com a muleta frente aos dois toiros, toureando a gosto, desfrutando, encantando, aproveitando a excelente qualidade dos oponentes, toureando, toureando e toureando com entrega, com ofício, com a atitude própria dos maestros, dos eleitos, impactando, conquistando o público - que não lhe regateou aplausos e fortes aclamações enquanto dava as voltas à arena.
Luque evidenciou estar a viver um momento alto, daqueles que enchem de moral os toureiros e deles fazem "filhos de um deus maior". Alto profissionalismo, grande capacidade de lidador, dominador perfeito e seguro, a desfrutar e a oferecer ao público, com bonita e aprumada atitude, momentos de suprema categoria.
Apesar do alto nível deste segundo cartel da Nazaré, a praça não registou a enchente habitual. Esta era mais uma corrida para aficionados do que propriamente para um público (especial) como o desta praça (mais festivo, que vai aos toiros para se divertir e se emocionar, não concretamente para assistir a lições de cátedra...). A lotação ocupada foi a de dois terços fracos, talvez meia casa forte, algo aquém do que se impunha com um elenco desta categoria.
Foi importante a presença de Daniel Luque em termos de revitalização do toureio a pé. O público aplaude e emociona-se quando o toureio (seja a pé, seja a cavalo) é bom, como ontem aconteceu. A sempre apregoada crise do toureio a pé é, e continua a ser, uma falsa questão. Mas a realidade é que poucos empresários apostam na corrida mista. Se houvesse outra dinâmica empresarial, o toureio a pé num instante voltava ao esplendor de antigamente. Sempre cavalos também cansa... e ainda por cima, quando é quase sempre tudo mais do mesmo...
Ontem não foi. Ontem houve diferença.
Francisco Palha esteve simplesmente magistral, sobretudo no primeiro toiro, um Passanha de nota altíssima.
Diogo Passanha teve a maestria de seleccionar ao longo dos anos um encaste que, apesar da origem Murube, não tem a ver com a moda dos "nhoc-nhoc's" que trotam ao lado dos cavalos e também se param quando os cavalos param, os chamados toirinhos da corda. Nesta ganadaria isso não se passa. Os Passanha, toiros para o triunfo dos toureiros (dia 20 lida-se um curro em Las Ventas, Madrid), não são propriamente mauzões, mas transmitem emoção, têm agressividade, pedem contas, têm teclas e são, sobretudo, duríssimos para os forcados, como ontem se viu...
Francisco Palha atingiu uma maturidade notável e está um toureiro seguro, ousado como sempre foi, mais apurado e muito mais confiante em si próprio e na sua extraordinária quadra de cavalos.
Virou a Nazaré do avesso na primeira actuação, com brega perfeita e ferros de uma emoção tremenda, dando espaço e prioridade ao toiro, lidando com maestria, emocionando tudo e todos, a pisar a linha da verdade, onde o risco é maior e a arte se transforma em raça, confundindo-se com a tragédia. É isto a Festa Brava!
O público esteve com Francisco Palha, que no quinto toiro, algo mais reservado e de investidas menos claras, obrigando a algumas passagens em falso, voltou a arrimar-se e a criar emoção em todas as sortes, conquistando o estatuto de (mais um) "toureiro da Nazaré", uma praça e um púbico que elege e acarinha os toureiros que lhe causam calafrios e lhe pregam sustos pela ousadia e pela verdade com que enfrentam os toiros. Como ontem fez Palhinha. Dois grande triunfos.
Guillermo Hermoso de Mendoza fazia ontem na Nazaré a sua única apresentação deste ano na temporada portuguesa. Não é, como o pai foi, um toureiro com força na bilheteira. Mas é um toureiro bom e ontem ninguém ficou indiferente à sua arte, à sua equitação, à sua garra.
Aproveitou as excelentes e emotivas investidas do segundo Passanha da noite para lidar com eficácia e muita precisão, cravando ferros de grande nível e recriando-se em artísticos remates colado ao toiro. Empolgou o público e provocou um ambiente de grande euforia nas bancas.
Diogo Passanha foi muito justamente honrado pela directora de corrida Ana Pimenta com volta à arena, acompanhando Guillermo e o forcado Salvador Coimbra, do Aposento da Moita, que fez a única pega à primeira numa noite que não foi nada fácil para a forcadagem.
O quinto toiro não tinha a mesma qualidade do primeiro que lhe tocou em sorte, mas não complicou e permitiu a Guillermo Hermoso a realização de uma lide vistosa, com bonitos momentos de "bom bailado" e arrimadas piruetas - que entusiasmaram o conclave.
Bem a lidar e a colocar os toiros para os forcados, merecem o nosso aplauso e reconhecimento os bandarilheiros de Palha e Hermoso, com destaque para Diogo Malafaia e João Oliveira (quadrilha de Palha) e para Ricardo Raimundo (este da equipa de Hermoso).
Os bandarilheiros de Daniel Luque - os antigos matadores António Manuel Punta e Juan Contreras e Jesús Arruga - acusaram a falta de varas e não brilharam, bem pelo contrário, no primeiro tércio de bandarilhas, mas no último toiro, mais confiados, cravaram bons pares e receberam aplausos.
Um parêntesis para sublinhar a superioridade com que Daniel Luque deu a volta, no seu primeiro toiro, com uma enorme faena, ao ambiente algo hostil que os seus subalternos tinham acabado de provocar na bancada (assobios e protestos) pelas más intervenções no tércio de bandarilhas.
Depois de brindar ao público a sua primeira faena, Daniel Luque dedicou a segunda ao jovem empresário Rui Pedro Cordeiro, filho de Rui Bento, pedra essencial no bom funcionamento e no grande sucesso da empresa Doses de Bravura.
Guillermo Hermoso brindou a sua primeira actuação a Francisco Palha e este dedicou a sua segunda lide aos Maestros Pablo Hermoso de Mendoza e António Ribeiro Telles. Gestos. bonitos numa noite grande de toiros.
Mais logo, tratemos aqui todas as fotos das quatro pegas dos dois grupos de forcados aos bravos e nada fáceis toiros de Passanha, que por norma não facilitam muito a vida aos valentes rapazes das jaquetas de ramagens.
O consagrado Grupo de Santarém não teve ontem uma noite brilhante. Consumou duas pegas ao terceiro intento, a primeira pelo genial Francisco Cabaço e a segunda pelo também valoroso João Faro.
Melhor o Aposento da Moita, com uma grande pega de Salvador Coimbra à primeira tentativa e outra também imponente de Rodrigo Aranha, à segunda.
Mesmo sem ter atraído muito público às bancadas da praça do Sítio da Nazaré, a corrida foi muito boa, teve ritmo e todos sairam da praça com a sensação de que assim vale a pena ser aficionado.
Bom contributo para o êxito foi a excelente direcção de corrida de Ana Pimenta, que ontem esteve assessorada pelo médico veterinário Gonçalo Louro, que é, curiosamente, o cabo dos forcados Amadores de Portalegre - grupo que na próxima corrida, a do "Farpas" na noite de 15 de Agosto, vem repartir cartel com o de Montemor.
João Moura Caetano, Marcos Bastinhas (depois do êxito marcante na primeira corrida da temporada nesta praça) e João Ribeiro Telles - com toiros da prestigiada ganadaria de Manuel Veiga - são os cavaleiros que no próximo dia 15 prometem esgotar a praça da Nazaré na 14ª Corrida "Farpas".
Lá vos espero a todos!
Fotos M. Alvarenga
| Daniel Luque toureou a gosto e com grande impacto |
| Ousado, cada vez mais atrevido, Francisco Palha empolgou com duas lides de tremenda maestria |
| Público da Nazaré aclamou o bom toureio de Guillermo Hermoso |
| Ganadeiros em noite de grandes triunfos: Diogo Passanha deu volta à arena no segundo toiro e António Telles no último |
| Praça da Nazaré registou uma entrada de meia casa forte |
