segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Paulo Jorge Ferreira, a última corrida na Califórnia: hoje despede-se um Toureiro!

Miguel Alvarenga - Já contei isto, vou recordar hoje esta história, no dia em que o Paulo Jorge Ferreira se despede das arenas, lá longe, nos Estados Unidos da América, onde está radicado há uns bons vinte anos. No próximo ano regressa a Portugal, fará uma corrida de despedida na sua praça de Azambuja e é possível que se apresente no Campo Pequeno para confirmar a alternativa e se despedir das arenas. Merece que isso aconteça.

Paulo Jorge Ferreira toureia hoje, dia 14, a sua última corrida na Califórnia, em Gustine (cartaz em baixo), ao lado de dois amigos, figuras do toureio de Portugal - Marcos Bastinhas e Francisco Palha. Nas pegas estarão os forcados da sua terra, os Amadores de Azambuja, e os Amadores de Turlock (da terra que o adoptou). Lidam-se toiros de duas ganadarias locais: Açoreana Joe Alves & John Silveira.


Há uns bons anos, um dia, Manuel Jorge de Oliveira disse-me que tinha "lá em casa" um "puto" que "se fizesse aos toiros, na praça, o que faz às vacas no meu tentadero, vai dar que falar e pode revolucionar isto tudo". Fui vê-lo num treino. Fiquei deslumbrado, confesso. "É um 'Pablo Hermoso', um 'Cartagena' em potência. Pode dar o abanão que está a fazer falta na nossa Festa" - insistiu Manuel Jorge.


O "puto" chamava-se Paulo Jorge Vieira Jesus Ferreira, os pais tinham um café na Azambuja, gente simples, mas gente boa.


Acompanhei a sua trajectória desde o princípio, acreditando sempre nas doutas palavras do Manuel Jorge. Estava ali, de facto, um toureiro para revolucionar, para dar que falar. Pela forma diferente, ousada, arrojada e meio "tremendista" com que interpretava o toureio.


Mas lembro-me de ter alertado o Manuel Jorge: "Olha que não vai ser fácil aceitarem-no. Vão cortar-lhe as pernas à nascença, porque ele incomoda". Meu dito, meu feito.


Paulo Jorge Ferreira apresentou-se em público na Azambuja em 4 de Março de 2000, fez a prova de praticante na mesma praça a 14 de Abril do ano seguinte, com toiros da antiga ganadaria do Maestro Vitor Mendes.


O saudoso empresário Manuel Gonçalves, que era um visionário, diferente de tudo e de todos, foi também um dos que acreditou nas potencialidades do toureiro. Levou-o à alternativa numa das recordadas Corridas TV/Norte na Póvoa de Varzim (na foto em baixo, o Paulo Jorge comigo, nessa tarde). Era o dia 21 de Julho de 2002. Manuel Jorge foi o padrinho e as testemunhas foram Joaquim Bastinhas, Rui Salvador, Pedro Franco e Vitor Ribeiro, com toiros de Herdeiros de Cunhal Patrício.


Como eu previa, seguiram-se poucas corridas e num instante o Paulo Jorge foi "encostado à parede". Aos "estabelecidos" não interessava um "furacão" daqueles. Espanha foi a opção, apoiado por Paco Duarte, quando aqui se lhe iam fechando as portas. Mas as coisas não estavam fáceis do outro lado da fronteira e Paulo acabou na Califórnia. Primeiro a tourear e a triunfar, depois a viver, radicado na quinta de quem nele também acreditou, os irmãos António e Jorge Martins - onde ainda se encontra, quase vinte anos depois, sendo nas últimas temporadas lider do "escalafón" nas corridas ali realizadas por empresários e aficionados oriundos da Ilha Terceira


Coube-lhe também, nestes anos, a importante tarefa de apoiar a Família Martins na criação e manutenção da sua coudelaria, montando e preparando os muitos cavalos que serviram e continuam a servir aos cavaleiros lusitanos que ali vão tourear. O seu contributo para o desenvolvimento da tauromaquia nos Estados Unidos foi crucial nas duas últimas décadas.


Paulo Jorge Ferreira, a quem daqui abraço nesta emotiva hora da despedida, diz hoje adeus às arenas nos Estados Unidos da América e prepara o regresso à Pátria, onde no próximo ano ainda o vamos ver actuar para também por cá fazer a festa da despedida.


Este foi o texto que Paulo Jorge escreveu na rede social Facebook e que aqui transcrevo, com a devida vénia:


"Hoje despeço-me das arenas de um lugar que me deu tanto, um lugar que me proporcionou viver momentos inesquecíveis, alcançar tantos sonhos e construir uma história que levarei comigo para o resto da vida. A Califórnia não foi apenas o lugar onde toureei, foi uma terra que me acolheu, que me deu oportunidades, que me deu amigos e, acima de tudo, uma comunidade portuguesa que me recebeu como um filho. Hoje é dia de dizer Adeus às arenas, mas antes de tudo, é dia de vos dizer uma palavra que vem do fundo do coração: Obrigado!".


Fotos D.R. e Emílio de Jesus/Arquivo



Paulo Jorge Ferreira na tarde da
alternativa em 21 de Julho de 2002
na desaparecida praça da Póvoa de Varzim
e, em baixo, o cartaz da corrida da despedida
esta noite em Gustine, Estados Unidos da América