Miguel Alvarenga - Proporcionando a um jovem cavaleiro praticante a possibilidade de integrar o importante cartel da data forte de Coruche, 17 de Agosto, a Associação Nossa Praça, que regressou à gestão da Monumental do Sorraia, deu uma lição aos empresários e provou que se podem - e devem - fazer elencos a olhar para o futuro e que não sejam sempre "mais do mesmo".
Houve um festival matinal, ontem, apresentaram-se ao serviço os cavaleiros Francisco Maldonado Cortes, Luis Pimenta, Vasco Veiga e Tomás Moura e toureou também o promissor novilheiro Eduardo "Chibanga", que prestou prova para praticante e saíu em ombros com o triunfador Luis Pimenta, que é o jovem que vai estar na corrida de 17 de Agosto (onde até é provável que possa tomar a alternativa). Lidaram-se a cavalo quatro toiros de Conde de Murça e a pé um novilho de Cunhal Patrício e pegaram os forcados de Coruche e Alcochete. Luis Pimenta esteve uns bons pontos acima dos companheiros e por isso ganhou o terceiro posto no cartel-forte de Coruche, que está encabeçado por João Ribeiro Telles.
Na corrida que se realizou à tarde, com quatro toiros de Cunhal Patrício, actuaram os cavaleiros Gilberto Filipe, Duarte Pinto, João Salgueiro da Costa e António Telles filho, também disputando entre si a entrada no cartel de Agosto. Foram as tertúlias de Coruche que elegeram os dois vencedores e da corrida da tarde saíu triunfador João Salgueiro da Costa. Ou melhor dizendo: saíu vencedor do prémio (o posto no cartel da próxima corrida), mas não único triunfador da tarde. Houve mais.
Houve o triunfo importante da ganadaria Cunhal Patrício, uma semana depois do sucesso na Moita, arriscando-se seriamente a ser eleita como a ganadaria triunfadora desta temporada.
Sairam à arena de Coruche quatro toiros de irrepreensível apresentação, cheios de trapio, sérios, bravos, a exigir e a transmitir imensa emoção. No quarto, o ganadeiro Alberto Cunhal Patrício deu aplaudida volta à arena acompanhado por sua filha, honra merecidíssima que lhe concedeu o diligente director de corrida Marco Cardoso, com a unânime concordância do público, que já premiara o quinto toiro com uma enorme ovação quando era recolhido. Os toiros foram recolhidos a cavalo, com eficiência, pelos campinos Mário Gordo, Rui Santos e António Gordo.
A corrida foi um êxito artístico, um êxito ganadeiro e um êxito para os forcados (pegaram os de Lisboa e os de Coruche). E foi também um êxito para a Associação Nossa Praça - e para o público. Explico porquê: o formato de apenas quatro toiros alivia o tédio em que habitualmente decorrem as touradas em Portugal, sempre iguais, sempre ou quase sempre "mais do mesmo", onde na maior parte das vezes não se chega. passar nada. Ontem foi tudo diferente. Os cartéis da manhã e da tarde eram variados e eram diferentes do habitual. E os espectáculos demoraram muito menos que o costume... Ufa!
A Associação Nossa Praça, composta por antigos forcados e aficionados coruchenses (à semelhança do que acontece em Santarém, no Cartaxo e em Reguengos) deu um louvável exemplo de como se pode inovar a Festa, com cartéis variados e diferentes, com apenas quatro toiros para não ser a chatice do costume. Haverá coragem para seguir o exemplo?
Os tempos mudaram e nos dias de hoje já há pouca paciência para estar mas de três horas mal sentados nas incómodas bancadas pré-históricas de cimento (houve praças que se modernizaram, como sabem, mas a maioria delas continuam a ser do tempo dos Flinstones...) e, ainda por cima, a ver sempre "o mesmo filme". Adiante.
No que aos cavaleiros diz respeito, Salgueiro da Costa mereceu vencer e ser o cavaleiro escolhido para a corrida de Agosto. Marcou a diferença, esteve perfeito na lide de um toiro (terceiro da ordem) que exigia e transmitia, emocionou com ferros "à Salgueiro", levantou o público das bancadas.
No final da lide do primeiro toiro, também um belíssimo exemplar de Cunhal Patrício, ninguém tinha dúvidas de que Gilberto Filipe podia ser o vencedor da disputa para entrar no cartel de Agosto. Mas ainda faltavam três cavaleiros.
Gilberto protagonizou uma lide em crescendo, com excelentes pormenores de brega e ferros onde impôs a verdade do seu toureio. Terminou com um emotivo ferro em sorte de violino e com o habitual número do cavalo sem cabeçada, fazendo jus às suas competências de exímio equitador.
Duarte Pinto lidou o segundo toiro da corrida, um bravo e codicioso exemplar de Cunhal Patrício, mas ontem não esteve, nem de perto, nem de longe, nos seus dias. Sofreu um violento "aperto" contra as tábuas que só por milagre não resultou em queda, mas isso são coisas que podem ocorrer e não se tem que criticar minimamente um toureiro por isso acontecer. Mas depois Duarte esteve muitos pontos abaixo do seu melhor, numa lide com mais baixos do que altos e com alguma desorientação. Pura e simplesmente, Duarte não esteve ontem em Coruche... Quem mandou ali foi o Cunhal...
António Ribeiro Telles filho enfrentou também um toiro sério e que pedia contas. Passou por ele de início em excesso de velocidade e os primeiros ferros resultaram demasiado traseiros. Depois compôs-se, recompôs-se e a lide foi aumentando de nível, para terminar já num tom superior, com a banda a tocar e o público a reconhecer com aplausos o bom toureio de António.
O facto de estarem ontem em praça os grupos de forcados de Lisboa e Coruche levou a Associação Nossa Praça a promover, ao início da corrida, homenagens à memória de dois forcados que integraram estes dois grupos, os saudosos Carlos Galamba e Fernando Ferreira, por quem foi guardado um minuto de silêncio.
Depois, entraram na arena os filhos dos dois forcados, Pedro Galamba e Rodrigo Ferreira, a quem os organizadores entregaram lembranças alusivas ao tributo póstumo que se rendeu a seus pais e, durante a corrida, ambos receberam os brindes dos forcados dos dois grupos a que os seus progenitores pertenceram.
A seguir, vamos mostrar as sequências das quatro pegas. Pelos Amadores de Lisboa, pegaram o futuro cabo Duarte Mira (à primeira) e António Galamba (à segunda), enquanto que pelos anfitriões Amadores de Coruche foram forcados de cara o cabo João Prates e António Tomás, ambos ao primeiro intento.
A corrida foi bem dirigia por Marco Cardoso, decorreu "num instante", não maçou ninguém e, se calhar, era assim que as corridas deviam passar a realizar-se...
José Luis da Cruz foi o médico veterinário que esteve ontem na direcção da corrida e no camarote principal assistiu o novo presidente da Câmara Nuno Azevedo, mas não houve um único interveniente no espectáculo que se lembrasse de agradecer através de um brinde o apoio manifestado à tauromaquia pelo autarca. Pena...
Com pouco público no festival da manhã (muito calor...), a praça à tarde registou meia entrada, 2.500 espectadores segundo as estatísticas oficiais da Associação Nossa Praça, com os sectores de sombra muito bem preenchidos (fotos em cima) e menos gente nos de sol.
Fotos M. Alvarenga e D.R.


