sábado, 8 de agosto de 2026

Alcochete e o maldito sacrifício da trincheira...

Miguel Alvarenga - Tirando as largadas de toiros, que foi coisa com que nunca simpatizei e até acho uma estupidez que não devia ser permitida (o vinho transforma as pessoas normais em valentões e depois morrem que nem tordos nessas brincadeiras sem sentido...), gosto muito das tradicionalíssimas Festas do Barrete Verde e das Salinas, do dedicado bairrismo com que as vivem as gentes de Alcochete, os campinos, os forcados, os aficionados. Têm um sabor diferente e único estes momentos.

E a festa começa sempre, como ontem aconteceu, na tasca do meu querido e velho amigo (de muitos anos) António José Pinto, com as magníficas bifanas e as imperiais de tradição, sempre em belíssima companhia, aparece um, aparece outro, aparecem dois, é um momento animado a anteceder a corrida.

Tenho pena que o Manuel (Pinto) não volte a pegar. E tenho esperança de o voltar a ver pegar. Não se pode perder um forcadão daquele calibre por uma (simples...) guerrinha de cabos e de bastidores. Estou errado? Adiante.

À romaria habitual à tasca do António José Pinto segue-se a ida para a praça, ali mesmo ao lado. E segue-se o santo sacrifício da trincheira. Passo a explicar.

O meu querido Nené era um forreta dos diabos. E eu adorava-o na mesma. E admirava, e tenho saudades, do seu sorriso matreiro, das suas artimanhas, que mesmo sendo artimanhas (habilidades, melhor dizendo), jamais lhe retiravam o rótulo de empresário sério e honestíssimo, como já existem poucos. 

Mas, como era um grande forreta, obrigava-me sempre a ir para trincheira. Era um bilhete a mais que ele vendia na bancada... E Alcochete era, e continua a ser, para mal dos meus (poucos) pecados, a única praça onde me obrigavam a ir para a trincheira. 

A Margarida é igualzinha ao pai. E por isso, em Alcochete, a maldita trincheira continua a ser o meu lugar. Odeio. A maioria dos curiosos que estão na trincheira, estão lá para se pavonear e serem vistos. Eu já sou conhecido, não preciso disso. E quanto a fotografias, tiram-se muito melhor da bancada do que em baixo, por mais que me tentem convencer do contrário. Mas enfim...

Ontem, só por pouco não me caíu em cima o Palhinha, quando o toiro agarrou o cavalo junto às tábuas e o projectou violentamente para dentro da trincheira.

E também houve um toiro que saltou a trincheira, se calhar à procura do nosso Clemente, mas teve azar... porque que ele ontem não estava lá...

Benditos tempos da pandemia, em que só podia estar na trincheira quem tinha mesmo que lá estar... e nunca os curiosos, amigos dos amigos, primos e enteados deste e daquele...

Levar com um toiro (e com um cavaleiro...) em cima são riscos (desnecessários) que se correm na trincheira de uma praça de toiros... e que eu prefiro não correr, mas faço-o, armado em herói, por respeito e em homenagem à memória do meu querido Nené. Lembro-me dele muitas vezes. Tenho saudades dele tantas vezes. E por isso aqui recordo esta foto que um dia nos tirou o nosso querido Emílio. Sem os dois, esta tauromaquia, pelo menos para mim, nunca mais foi a mesma coisa... mas a vida é assim, não podemos fazer nada...

Posto isto, vou passar a falar das razões que me fizeram estar ontem à noite na trincheira em Alcochete (onde, se Deus quiser, voltarei na tarde de amanhã) - foi o mano-a-mano entre João Moura Jr. e Francisco Palha.

Os mano-a-manos de hoje em dia não têm a ver com os mano-a-manos de antigamente. Um mano-a-mano pressupõe rivalidade, picardia, os dois protagonistas dessa competição deviam olhar um para o outro por cima da burra, com desprezo e alguma irritação, assim como quem pergunta: "queres o quê? anda cá que já te trato da saúde...".

Quando cheguei à praça, Mourinha e Palhinha estavam a cavalo, a conversar, ao lado um do outro, como amigos que são - e é bom que o sejam. Mas, é disso que falava, os mano-a-manos de hoje são "simpáticos duetos" em vez de aguerridos duelos, como o eram noutros tempos. Perdem, por isso, metade do interesse...

Aqui não estava nada em causa. Moura Jr. estava e continuou a estar catalogado como o "camisola amarela" do pelotão; Francisco Palha estava e continuou a estar referenciado como um dos mais ousados e mais valentes cavaleiros do momento, dos que apertam os calos a qualquer companheiro e até fazer tremer o primeiro. e foi assim, neste contexto amigável, que a corrida decorreu.

Foi uma noite muito séria e de grande emoção no que respeita aos poderosos toiros de Joaquim Brito Paes, houve quatro muito bons e dois respeitáveis, mas mais reservados e mais complicados. Todos transmitiram seriedade e verdade, estavam bem apresentados, com trapio, com peso, com muita transmissão, com idade, tinham teclas, pediam o bilhete de identidade a toureiros e forcados. 

Parabéns ao ganadeiro. Por muito menos, já vi ganadeiros serem premiados pela Direcção de corrida com voltas à arena. Ontem, Joaquim Brito Paes tinha merecido essa honraria. Mas não lha concederam... coisas e loisas da nossa estranha Festa...

Moura e Palha deram volta à arena em todos os toiros. Estiveram bem nos seis toiros. Exceptuando o incidente vivido por Francisco Palha no último, que o projectou para dentro da trincheira, a corrida decorreu em muito bom ritmo, apenas com alguns tempos mortos na recolha (demorada e chata) de alguns toiros.

Nem Moura nem Palha sairam por cima um do outro. Estiveram ambos ao seu melhor nível. Não houve um vencedor nem um vencido. Houve dois grandes cavaleiros, dois triunfadores numa emotiva e muito séria noite de toiros.

Houve dois brindes particularmente significativos de cada um: Moura Jr. brindou uma lide a Sofia Ribeiro Telles e Francisco Palha dedicou a última à sua nova apoderada Margarida Cardoso.

Aplausos para os seis bandarilheiros que coadjuvaram as lides, com a curiosidade de quatro serem da aficionada vila de Azambuja: Diogo Malafaia, João Oliveira e Rui Regateira (a quadrilha de Palha) e também Joaquim Oliveira, que integrou a quadrilha de Moura Jr. ao lado de Benito Moura e José Maria Maldonado Cortes.

Pegaram os forcados Amadores de Lisboa, comandados por Pedro Maria Gomes, com o ex-cabo José Luis Gomes, seu pai, e a antiga glória José Augusto Batista a seu lado; e os Amadores de Alcochete, comandados por António José Cardoso, com os antigos cabos João Pedro Bolota e Nuno Santana a seu lado. Bonito ver os antigos sempre ao lado dos seus grupos.

Por Lisboa pegaram Ricardo Nunes (à quinta tentativa), Tiago Silva (à segunda) e Duarte Nascimento (à primeira). Por Alcochete foram forcados de cara Miguel Cruz (à primeira), a nova estrela Pedro Nascimento (à primeira) e Vitor Marques (à primeira). Mais logo publicaremos o habitual bloco com que sempre homenageamos os forcados, com as fotos das sequências das seis pegas.

A Banda de Alcochete abrilhantou a corrida dando-lhe a tradicional emoção durante as lides e a acertada direcção, com rigor e seriedade, esteve a cargo do diligente Ricardo Dias, assessorado pelo reputado médico veterinário José Luis da Cruz.

Tal como seu querido Paizinho, Margarida "Nené" diz sempre que a corrida teve pouca gente, ou menos do que aquela que esperavam, mas a verdade é que a praça de Alcochete esteve muito bem composta e a servir de mote a mais uma bem montada Feira do Toiro-Toiro, que na tarde domingo (amanhã) há-de encher para assistir ao Concurso de Ganadarias com Rui Fernandes, João TellesRouxinol Jr. e os Amadores de Alcochete na sua sempre emotiva e muito esperada encerrona anual.

Até amanhã!

Fotos M. Alvarenga