sábado, 5 de setembro de 2026

Adeus, Forcado!

José V. Claro - Praça cheia ontem no Campo Pequeno, bom ambiente, o habitual "glamour" (que há quem não saiba o que quer dizer...) e, apesar da trapalhada de sete cavaleiros (que acontecia pela segunda vez na curtíssima temporada de apenas quatro corridas), desta vez viu-se um espectáculo agradável, muito em parte devido à excelente qualidade dos toiros de António Raul Brito Paes (que logo no segundo deu volta à arena) e também à superior categoria do elenco. Foi a quarta e derradeira corrida da temporada lisboeta.

Para a enchente das bancadas contribuíram igualmente o cortejo de gala à antiga portuguesa, a evocar as Touradas Reais, sempre muito do agrado do público (aficionado e não aficionado); a homenagem a uma figura que sempre defendeu e dignificou altamente a tauromaquia, o Padre Vitor Melícias; a homenagem, também, ao cavaleiro Moura Caetano pelos seus vinte anos de alternativa; e, obviamente, a festa da mudança de cabo no grupo de Amadores de Lisboa.

Artisticamente, no que aos cavaleiros diz respeito, ficou a noite marcada por um triunfo empolgante de Miguel Moura, de dia para dia a marcar um lugar importantíssimo entre os da primeira fila; por uma grande lição de bem tourear de João Moura Caetano, com uma digníssima comemoração do 20º aniversário da sua alternativa, a bordar o toureio com o cavalo que tem o nome desta praça; e por uma lide espectacular de Tristão Ribeiro Telles, no último toiro, em ritmo de grande euforia e sempre com uma impressionante empatia com o público. 

A noite arrastou-se por obra e graça do cartel de sete cavaleiros (não chegavam seis?... Ainda por cima, este "amontoado" acontecia pela segunda vez, irra, que é demais!), havendo ainda a registar boas, mas mais discretas, actuações de Ana Batista (que reapareceu, depois da aparatosa queda em Alpalhão); de Duarte Pinto (que esteve ao seu bom estilo clássico, não se percebendo como um toureiro com este valor tem aparecido tão pouco nos cartéis nesta temporada...); de Joaquim Brito Paes (que teve um ferro espectacular, mas depois uma lide de mais a menos, com algumas intermitências e até uma "briga" desnecessária com o director de corrida Ruben Fragoso por não lhe ter concedido música...); e António Telles (filho), que brilhou a toda a prova com uma lide de categoria e imensa classe.

O grupo de forcados Amadores de Lisboa encheu o Campo Pequeno e foi um dos grandes protagonistas desta noite - marcada pela despedida do cabo Pedro Maria Gomes, que passou o testemunho a Duarte Mira, quarto líder do histórico grupo fundado por Nuno Salvação Barreto e que teve como segundo cabo José Luis Gomes (pai de Pedro).

O primeiro toiro foi pegado por Gonçalo Maria Gomes, irmão de Pedro, forcado de méritos consagrados e já retirado das arenas, que consumou ao primeiro intento - com a raça, a decisão e a técnica de sempre.

Pedro Maria Gomes (homenageado pela empresa ao início da corrida) despediu-se pegando com garra e técnica apurada o segundo toiro de Brito Paes. Depois entregou a jaqueta e a chefia do grupo a Duarte Mira e deu emotiva e muito aplaudida volta à arena, com a humildade de sempre, caminhando à frente dos seus homens, sem ir aos ombros. Adeus, Forcado!

O novo cabo Duarte Mira pegou o terceiro toiro à segunda tentativa; seguindo-se Duarte Nascimento (à segunda), José Duarte Batista (à segunda, também), Tiago Silva (à quarta) e o veterano e já retirado Francisco Mendonça Mira à primeira.

Curiosamente, a actuação dos Amadores de Lisboa na noite de festa da mudança de cabo começou e terminou com duas grandes pegas de dois grandes forcados "antigos", Gonçalo Maria Gomes e Francisco Mendonça Mira. Quem sabe sabe e quem tão bem pegou toiros no passado jamais esquece a arte, é como andar de bicicleta...

Ao final da lide do quarto toiro, no intervalo, os empresários Luis Miguel Pombeiro e José Maria Charraz homenagearam o Padre Vitor Melícias e o cavaleiro João Moura Caetano.

Mais adiante, teremos tempo para analisar, mais a frio, o que foi a curtinha temporada na capital, marcada por duas grande cartadas iniciais e depois por dois cartéis de alguma trapalhada com sete nomes cada um...

Apesar de todas as críticas que se possam (e devam) fazer aos segundos cartéis, a temporada terminou em beleza. Para o ano há mais, espera-se...

Foto D.R./Facebook