domingo, 26 de abril de 2026

Sobral: Esaú Fernández e um novilho "de bandeira" de Varela Crujo

Miguel Alvarenga - Este festival taurino que José Luis Gomes organiza há vários anos em Sobral de Monte Agraço, a favor da Tertúlia Tauromáquica Sobralense, sempre no dia 25 de Abril, sem ter propriamente qualquer razão directa com essa data, é, este sim, um verdadeiro festival misto, com igual número de cavaleiros e de espadas (normalmente dois matadores e um novilheiro, dando-se assim oportunidade a um novo, como ontem e nos últimos anos aconteceu) e não "uma pouca vergonha" como os festivais que a APET aconselhou os seus associados a promoverem, chamando-lhes "mistos", mas enfiando um matador, estilo esmola aos pobres (ao toureio a pé), no meio da santa cavalaria...

Ontem tourearam o matador espanhol Esaú Fernández e o português Manuel Dias Gomes e o novilheiro praticante João Fernandes, aluno do matador António João Ferreira (que o acompanhava) na muito produtiva Escola de Vila Franca, vencedor na última temporada do troféu "Orelha de Ouro" na Nazaré. E que aconselho vivamente a que vão ver quando se anunciar, porque vale a pena - e tem futuro. 

Esaú Fernández é um dos mais interessantes matadores de toiros da nova vaga em Espanha. Tem 36 anos, nasceu em Camas, Sevilha, onde um dia nasceu também o Niño Sábio do toureio, o saudoso Paco Camino, e tem já um historial de destaque, sendo no momento um dos toureiros "especialistas em Miuras" e outras ganadarias duras... daquelas de que as Figuras fogem... e ele "traga". Porque tem valor para isso.

Apresentou-se de luces em Jaén em 28 de Maio de 2005 e cortou logo três orelhas nessa estreia. Depois debutou com picadores em Las Matas (Madrid) a 1 de Maio de 2009, apresentou-se em Las Ventas (Madrid) a 21 de Março de 2010 e tomou a alternativa em Sevilha em 3 de Maio de 2011 apadrinhado por Morante de la Puebla, com o testemunho de "El Cid", cortando duas orelhas e saindo em ombros pela porta principal. Confirmou a alternativa em Madrid a 11 de Maio de 2012 com Uceda Leal como padrinho e David Mora a testemunhar. Como podem atestar, não é um toureiro qualquer...

A sua relação de amizade com Manuel Dias Gomes terá pesado na escolha do empresário José Luis Gomes para que ontem o tivesse trazido ao Sobral, mas digamos que a razão maior está no historial do matador sevilhano e na certeza de que não viria, como alguns vêm, defraudar o público lusitano.

Esaú só tinha toureado uma vez em Portugal, foi em Agosto de 2024 numa das corridas de morte em Barrancos, onde alternou precisamente com Manuel Dias Gomes. Ontem estava pela vez primeira num festejo formal, ainda que sendo um festival, em Portugal. Com ele e a sua equipa veio Gregório de Jesus, seu apoderado, antigo matador de toiros que foi a testemunha da alternativa de matador de toiros do nosso Paco Duarte.

E ainda bem que Esaú veio - porque teve a sorte de lhe ter tocado um novilho de bandeira, verdadeiramente excepcional, da triunfadora ganadaria Varela Crujo, ao qual desenhou uma artística e muito inspirada faena de muleta, depois de ter preenchido com bonitas verónicas e chicuelinas o tércio de capote, a que Dias Gomes respondeu também com três cingidas chicuelinas.

Com a muleta, Esaú Fernández entendeu que tinha pela frente importante matéria prima para marcar com um êxito esta sua apresentação em Portugal e recebeu o novilho com uma bonita série de derechazos de joelhos em terra, seguindo depois para a realização de uma faena profunda, completa, com um novilho que não acabava mais.

Sensível e aficionado, o director Ricardo Dias honrou o novilho com volta à arena antes de ser recolhido e o público aplaudiu de pé a bravura e a raça do fantástico exemplar de Varela Crujo - que no final voltou para o campo, indultado pelo ilustre ganadeiro António Manuel da Cruz e Crujo Fialho Afonso, que confessou ao "Farpas" a sua satisfação pelo comportamento do animal e, sobretudo, pelo momento extraordinário que a ganadaria atravessa. Seu filho Bernardo foi também autorizado pelo director a acompanhar Esaú Fernández nas duas muito aplaudidas voltas que este deu à arena (foto em cima). Quando o toiro era recolhido, Esaú saíu à arena e aplaudiu-o também nos médios, saudando o ganadeiro que se encontrava na bancada.

A qualidade fantástica do novilho e a maestria com que Esaú Fernández o toureou tornaram este momento o mais importante da lide a pé que preencheu a segunda parte do festival, mas há que destacar também a muito artística faena de Manuel Dias Gomes e a raça com que se revelou o jovem novilheiro João Fernandes, promissor toureiro de rara intuição, que não deixa dúvidas a ninguém de que vai ser e fazer história nesta arte que escolheu.

Eram também novilhos de nota alta os que Dias Gomes e João Fernandes enfrentaram em quinto e sexto lugar, ambos pertencentes também à ganadaria Varela Crujo.

Manuel Duas Gomes, ainda e sempre "o mais sevilhano dos toureiros lusitanos", preencheu um tércio de capote marcado pela arte e o bom gosto usuais, iniciando com bonitas verónicas de joelhos em terra e depois arrimadas chicuelinas, a que João Fernandes respondeu com uma aplaudida intervenção.

Com a muleta, Manuel Dias Gomes abriu o livro e encantou-nos com o temple e o poderio com que sempre toureia, aproveitando a boa qualidade do novilho e pondo em prática a sua forma de sentir e interpretar a arte que herdou de seu Avô, o saudoso Augusto Gomes Júnior, segundo matador de toiros de Portugal e primeiro novilheiro a tourear trajado de luces em Espanha.

Manuel é um clássico, uma referência, o mais cotado dos matadores de toiros portugueses da actualidade. Já triunfara forte em Portalegre, num dos tais festivais "entalado" entre a cavalaria. Ontem voltou a triunfar nesta que é, há já alguns anos, uma das suas praças talismã.

O jovem João Fernandes é actualmente uma das mais destacadas estrelas da muito produtiva Escola de Toureio "José Falcão" de Vila Franca de Xira e ontem deixou bem patente, ao lado de duas figuras, que é possuidor de uma raça e de uma fibra que prometem ajudá-lo a chegar longe. Se a sorte o ajudar, não vai ser apenas mais um, nem será uma daquelas "grandes promessas" que depois, infelizmente, acabam por ficar pelo caminho. João Fernandes tem qualquer coisa dentro que vai fazer dele um toureiro com importância.

Recebeu o novilho com uma larga afarolada de joelhos e seguiu com bem desenhadas verónicas, para depois demonstrar na faena de muleta que tem (muitas) pernas para andar. Esteve artista e esteve mandão. Vê-se que é um principiante... cheio de princípios. Nunca o tinha visto tourear. Foi uma muito agradável surpresa descobrir este jovem toureiro. Força, João!

Esaú Fernández brindou a sua faena a Manuel Dias Gomes; Manuel Dias Gomes brindou a sua a Madalena Cruz, provedora da Santa Casa da Misericórdia; e João Fernandes brindou ao público a sua arte.

Destaco também neste bloco de reportagem, em baixo, os brilhantes pares de bandarilhas de Duarte SilvaMiguel MaltinhaFilipe GravitoSérgio NunesRui Ferreira e ainda de um bandarilheiro espanhol (no último novilho).

Fotos M. Alvarenga

Manuel Dias Gomes e Esaú Fernández
João Fernandes e o seu mestre António João Ferreira


Bonito tércio de capote de Esaú Fernández...

... a que Manuel Dias Gomes "respondeu" com esta arte!

Brinde de Esaú Fernández a Manuel Dias Gomes










Uma faena "sem fim" a um novilho de sonho de Varela Crujo




Arte e templo nas chicuelinas e verónicas de Dias Gomes...


... a que João Fernandes "respondeu" com este vistoso quite

Brinde de Dias Gomes à provedora Madalena Cruz













Manuel Dias Gomes: faena brilhante "de duas orelhas"!





















João Fernandes "tem qualquer coisa" de especial!
Sérgio Nunes
Filipe Gravito

Duarte Silva
Miguel Maltinha
Rui Ferreira