segunda-feira, 6 de julho de 2026

Borja Jiménez esteve ontem em Vila Franca, não se limitou a passar por lá a correr...

Miguel Alvarenga - Portugal já não tem há muitos anos ídolos do toureio a pé. Também já não existem empresários que os criem, como tantos criou o grande Manuel dos Santos. Hoje em dia vem uma figura de quando em vez e já é um pau. Padilla ainda foi o último ídolo, há não muitos anos (lembram-se?), criado e fomentado por Rui Bento nos tempos últimos em que geriu a praça do Campo Pequeno.

Nos anos 60 e 70, Portugal teve ídolos nascidos na praça do Campo Pequeno. O empresário Manuel dos Santos trazia-os e repetia-os três, quatro, às vezes cinco vezes por temporada. O público ia vê-los. A Dámaso González anunciava-o como "o toureiro que empolgou Portugal". A "Paquirri" trouxe-o vezes sem fim, antes já tinham vindo Paco Camino e "El Cordobés", "Antoñete" e Palomo Linares, "Mondeño" e tantos mais. Já depois da sua morte, o Campo Pequeno continuou a criar ídolos quando assumiu a empresa o filho de Manuel dos Santos, Manuel Jorge Díez dos Santos.

"Niño de la Capea" e Francisco Ruiz Miguel foram dois dos últimos grandes ídolos do Campo Pequeno e do Portugal taurino da década de 70, trazidos à recordada Corrida da Imprensa, sempre na primeira quinta-feira de Agosto (agora dizem que é a pior data... antes era a melhor e que esgotava sempre!) pelos promotores da mesma, Raul Nascimento e José Sampaio.

Mais tarde ainda houve um último ídolo, Francisco Ramón "Currillo". E depois desse, mais nenhum.

Vem toda esta lembrança, mais ou menos saudade, mais ou menos nostalgia, a propósito da vinda ontem a Vila Franca do matador sevilhano Borja Jiménez. Rui Bento apresentou-o há dois anos na Nazaré e no ano passado trouxe-o também a Almeirim, onde alcançou bons triunfos. Passou também pela Ilha Terceira. Mas depois ficou esquecido, até Bernardo Alexandre se voltar a lembrar dele para a corrida do Colete Encarnado, ontem na "Palha Blanco"

Voltará mais alguma vez a qualquer outra praça? É um bom toureiro. Mas o mais certo é ficar outra vez esquecido...

E ainda nenhum empresário se lembrou de trazer Ismael Martín, a não ser os promotores da corrida do Ramo Grande na Ilha Terceira, que o levaram no ano passado e o repetem agora em Julho, tal foi o triunfo com que empolgou aqueles aficionados de solera dos Açores.

Esse reúne todas as condições para poder ser um ídolo de Portugal. Tomem nota.

Por agora, fiquem com os melhores momentos das duas faenas de Borja Jiménez ontem em Vila Franca, a dois toiros da ganadaria Condessa de Sobral com presença e algum trapio, com transmissão, que "se deixaram tourear" e frente aos quais o diestro sevilhano esteve empenhado, esforçado, arrimando-se e entregando-se com elevada dose de arte e profissionalismo. Os dois toiros que enfrentou, em terceiro e sexto lugar, acusaram, por coincidência, o mesmo peso de 490 quilos. Borja Jiménez brindou a primeira faena ao público e a segunda ao ganadero Manolo Vásquez Gavira, proprietário da antiga ganadaria portuguesa Condessa de Sobral.

Nota alta para os bandarilheiros espanhóis da quadrilha de Jiménez e para o português João Ferreira, um craque com as bandarilhas, que agradeceu de montera em mão depois do grande par que colocou no terceiro toiro da tarde.

Como já aqui escrevo ontem, Borja Jiménez esteve em Vila Franca. Não se limitou a passar por lá a correr, como às vezes acontece com algumas das estrelas que aqui se anunciam.

Fotos M. Alvarenga