sábado, 22 de agosto de 2026

Mansada de Silva compromete terceira nocturna do Campo Pequeno

Miguel AlvarengaJá foi boa, temida e "terrífica". Nos dias de hoje, a ganadaria de Herds. de Dr. António Silva atravessa uma comprometedora crise de mansidão que deverá obrigar os seus proprietários a repensar (e a refazer) tudo, antes de voltar às praças... 

Ontem à noite no Campo Pequeno, uma maçadora mansada da outrora brilhante ganadaria Silva comprometeu seriamente a terceira corrida da curta temporada da capital, que já de si consubstanciava uma gritante descida de nível em relação às duas corridas anteriores. 

Mesmo assim, apesar da baralhada do elenco, o público foi na mesma à praça. Quase três quartos das bancadas preenchidos e o habitual entusiasmo popular a marcar a tourada na antiga Catedral. Se houve glamour ou não, acho que desta vez não. Mas houve por parte do público vontade de se divertir, de aplaudir, de participar. O público do Campo Pequeno é bestial - come e cala... e gosta muito do que não é para gostar...

Não houve, em sete, um toiro que escapasse. Foram todos do muito mau ao péssimo. Eram bonitos, tinham apresentação, belas estampas, mas absolutamente mais nada...

Os sete cavaleiros esforçaram-se ao máximo, fizeram tudo o que estava ao seu alcance, uns melhor, outros assim-assim, mas todos quiseram agradar, embora conscientes de que ontem não havia matéria prima para nada.

Por um lado, pouparam-me trabalho, assim tenho muito pouco para escrever, porque foi quase nada o que se passou na noite de seca e sacrifício que ontem tivemos que gramar no Campo Pequeno... Irra, que foi demais.

Paco Velásquez vinha confirmar a alternativa moralizado e embalado pelo triunfo da véspera em Madrid. Não teve toiro, como também nenhum outro companheiro de cartel o teve. Empenhou-se, arrimou-se, mas sem ovos não se fazem omeletas. O director de corrida Tiago Tavares podia ter premiado o seu esforçado labor com música. Mas não o fez... Paco tem valor e tem fibra. 

Luis Rouxinol levou com outro manso sem lide. Ainda por cima, deixou um dos primeiros ferros quase no rabo do animal. A coisa ontem não lhe correu minimamente de feição...

Tiveram melhor sorte, ou talvez maiores ganas, os Filipes

Gilberto Filipe entusiasmou com um toiro uns furinhos acima dos dois anteriores, esteve certeiro a cravar e artista a lidar. Terminou com o número de tirar a cabeçada, já a música tocava e já havia entusiasmo nas bancadas.

A seguir, Filipe Gonçalves protagonizou uma lide de muita raça e grande entrega e valor. O toiro não investia, investiu ele. Pisou terrenos de alto compromisso, encontrou sempre toiro onde ele parecia não estar, obrigou o manso a fingir que era bravo. 

Manuel Telles Bastos enfrentou outro toiro bonito, mas sem ponta por onde se lhe pegasse, parado, reservado, ilidável. Maçadoramente manso. Fez o cavaleiro tudo o que pôde e a mais não era obrigado...

Ao espanhol Andrés Romero coube outro manso e parado toiro de Silva com o qual também pouco ou nada havia a fazer. Além disso, falhou alguns ferros, nada lhe correu bem...

Fechou a corrida - uma noite sem nada para contar... - o praticante Vasco Veiga, que deixou extraordinária imagem nesta sua estreia em Lisboa. Provocou o toiro com cites frontais, conseguiu ferros de emoção, a música tocou e o público aplaudiu.

Chegava ao fim uma tourada para esquecer...

Havia concurso de pegas, sem que a sétima contasse para a disputa do primeiro Troféu "Manuel Trindade", instituído em homenagem à memória do saudoso forcado que há um ano perdeu a vida nesta arena a pegar um toiro.

O Grupo de Montemor esteve abaixo dos seus pergaminhos, com duas pegas à terceira (Miguel Cecílio e Vasco Ponce) e uma à quarta (Joel Santos), salvando a honra do convento na última, que infelizmente não entrou no concurso, um pegão e um hino à arte de pegar toiros, como sempre, desse enorme forcado que é José Maria Cortes Pena Monteiro, com uma ajuda preciosa do irmão António, o valoroso cabo desta formação.

Esteve superior o Grupo de Vila Franca, com três grandes pegas à primeira por intermédio de Miguel Faria, Guilherme Dotti e Rodrigo Andrade, este com uma fabulosa primeira-ajuda de Rodrigo Dotti, que no final foi chamado à arena para também receber uma calorosa ovação.

O júri foram os cabos dos dois grupos e o prémio foi muito justamente entregue a Rodrigo Andrade (sexta pega) dos Amadores de Vila Franca.

Foi Pedro Trindade, pai do saudoso Manuel Trindade, quem entregou o prémio, mas o forcado vencedor fez questão de que o galardão, instituído pela primeira vez, ficasse para a família do forcado de São Manços (foto de cima).

Houve brindes aos céus, que se presume tenham sido à memória de Manuel Trindade e também do Dr. José Cabral (antigo forcado de Montemor e que foi médico da equipa do Campo Pequeno), cuja memória foi homenageada ao início da corrida pelos empresários Luis Miguel Pombeiro e José Maria Charraz, com a presença na arena da viúva e dos dois filhos do saudoso médico neurocirurgião (foto em baixo).

Tiago Tavares foi ontem o director desta maçadora tourada no Campo Pequeno, assessorado pelo médico veterinário José Luis da Cruz.

O rejoneador Andrés Romero foi, dos sete cavaleiros, o único que brindou a lide aos pais do forcado Manuel Trindade, a quem também brindaram os forcados de Vila Franca. O Grupo de Montemor brindou uma pega aos familiares do Dr. José Cabral. E o Grupo de Vila Franca também.

E assim se passou uma tourada chata e que se arrastou por tempo interminável, sem um toiro que valesse chamar-se toiro... mais valia ter ido ao cinema...

Silvas - nunca mais!

Fotos M. Alvarenga