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Ventura e Moura ontem mano-a-mano em Estremoz. Houve "duas corridas", uma morna e sonsa na primeira parte, outra emotiva e empolgante na segunda. A praça não encheu. E isso foi o lado negro da festa |
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Num toiro (o seu último), Diego Ventura deixou bem patente a grandeza e a toreria
que lhe vão na alma. É um grande toureiro, capaz de numa só lide fazer desfilar
pela arena tudo o que os dois primeiros toiros lhe não deixaram mostrar... ou
deixaram, mas sem transmissão não pode haver emoção |
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A atitude (esperou o seu terceiro toiro à porta da gaiola e virou tudo do avesso com um ferro de parar corações) e a maestria de João Moura Jr. em grande destaque ontem em Estremoz. Muito temple, muito mourismo |
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Clareiras nos sectores de sombra. Público não correspondeu à grandeza do cartel e ao empenho do empresário espanhol Carlos Zuñiga (filho) |
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| Sectores de sol a abarrotar |
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Manuel Ramalho, forcado de dinastia dos Amadores de Montemor, ganhou o troféu "João Cortes" (quinta pega). Decisão do júri provocou divisão de opiniões. Em baixo, João Cortes homenageado ao início da corrida. Com o presidente da Câmara, Luis Mourinha, mostrando o quadro que lhe foi oferecido pelo Grupo de Montemor e pela Tertúlia "Valores e Tradição" |
Miguel Alvarenga - Quando um
mano-a-mano de duas das máximas figuras do toureio a cavalo não enche a (pequeno) praça de
Estremoz, talvez seja aconselhável pensar duas vezes e tentar entender os porquês de um
desaire de bilheteira como o que ontem ocorreu.
Carlos Zuñiga (filho) era, ao final, um empresário desolado - e com razões para o ser. O elevado preço dos bilhetes (
Estremoz é, para todos os efeitos, uma praça de província, não é propriamente o
Campo Pequeno) pode ter contribuído para as muitas clareiras que havia no sector 1. O sol estava cheio e a sombra composta, a praça terá registado três quartos fortes de entrada - mas impunha-se que, com um esforço empresarial destes, tivesse
esgotado e ficasse gente na rua. Não aconteceu.
"Primeira corrida" corrida sonsa e morna...
Artisticamente,
houve duas corridas. Uma, na primeira parte, sonsa e com pouco para contar. Os três primeiros toiros de
Romão Tenório eram verdadeiras
"tourinhas", galoparam suavemente atrás dos cavalos, foram meiguinhos em demasia, deixaram fazer tudo e não transmitiram nada. Faltou toiro, faltou risco, não houve emoção.
Ventura fez tudo bem feito nos seus dois primeiros toiros, demonstrou toda a sua maestria e a incrível aptidão dos seus fantásticos cavalos.
Moura Jr. procurou transmitir sem, contudo, ter matéria prima para brilhar. As três primeiras pegas não tiveram dificuldades de maior. O primeiro toiro foi pegado por
António Costa Monteiro, dos
Amadores de Montemor, à primeira; a segunda pega foi executada por
Nuno Toureiro, dos
Amadores de Monforte, à segunda, depois de na primeira o toiro lhe ter passado ao lado; a mais emotiva, até aqui, foi a terceira, de
Francisco Bissaia Barreto (
Montemor), à primeira. A melhor pega da corrida, para mim.
O piso da arena - um
areal a que só faltou ter mar para ser uma praia - pode ter contribuído para o comportamento demasiado dócil e o pouco andamento dos três primeiros toiros. Depois de alisada ao intervalo, foi outra arena a que serviu de cenário à segunda parte da corrida - que foi, de facto,
outra corrida, distinta da primeira em todos os aspectos.
"Segunda corrida" emotiva e empolgante
Até então demasiado frio e quase adormecido pela
pasmaceira em que decorreram as três primeiras lides, o público aqueceu e os cavaleiros
"ferveram" nos três últimos toiros. Houve emoção na arena e calor na bancada, gente de pé, coisa que até ali não acontecera. Os três toiros da segunda parte, com mais
trapio, melhor andamento e maior transmissão, tiveram pela frente dois cavaleiros mais empenhados, mais aguerridos e a procurar que as lides resultassem mais emotivas. Dois toureiros em verdadeira competição. Conseguiram os seus objectivos. Houve por fim
picardia e
competição entre
Ventura e
Moura. O público saíu satisfeito e o ambiente em torno da praça, ao longo de quase duas horas, foi enorme. A
"segunda corrida" foi, na realidade, fantástica.
João Moura Júnior procurou elevar as boas qualidades de lide do seu segundo toiro e a sua actuação foi apoteótica. Deu vantagens ao toiro, deixou-o vir, aguentou até ao fim, quarteando-se num palmo de terreno e cravando ferros de muita raça. Esteve brilhante a bregar, perfeito em alardes de maestria e arte. Esteve
"à Moura" e está tudo dito.
Diego Ventura é um grande toureiro. Tem uma quadra mais afinada que um relógio suíço. E mexe com os toiros de forma empolgante. Na última oportunidade que lhe restava para não sair dali vencido, fez desfilar pela arena os seus melhores cavalos e demonstrou toda a sua imensa tauromaquia numa lide enorme e variada - onde fez de tudo, até
tirar a cabeçada do último cavalo (bem sei que não é muito aceitável, mas a culminar uma actuação de tão grande nível, meus senhores, aceita-se tudo!) e cravar sem ela um par de bandarilhas (que ficou só por metade), evidenciando o espectacular cavalo que montava e o grande equitador e toureiro que é. Indiscutivelmente. O toiro transmitiu e
Ventura retransmitiu a grandeza da
toreria que lhe vai na alma. Esteve deslumbrante, o público entrou em delírio. Deu duas voltas à arena, a primeira com o forcado, a segunda com o ganadeiro
Francisco Romão Tenório e outra vez com o forcado
Manuel Ramalho (que se esquecera de ir chamar de novo, mas foi para tal avisado pelo director de corrida
Marco Gomes, que esteve correctíssimo nesta atitude).
Toureiro de garra e de nunca se dar por vencido,
Moura Júnior entrou na arena para lidar o último toiro decidido a
"responder" ao triunfo estrondoso de
Ventura. Cheio de atitude e de querer, esperou o toiro à porta da gaiola e virou tudo de pernas para o ar com um primeiro ferro comprido de parar corações. A partir daí, abriu o livro e bordou o toureio, emocionando tudo e todos com ferros de muita ousadia, indo buscar o toiro aos seus terrenos, parando, provocando e cravando em terrenos proibídos, quase sem saída possível, num curto palmo de terreno, o terreno da verdade. Esteve enorme. Enorme mesmo. O ganadeiro voltou a ser chamado à praça.
Assim, o que parecia ao intervalo condenado a ser uma corrida morna e
sonsita, acabou por ser, por obra e graça de três toiros com mais transmissão e dois toureiros com coração de leão, uma corrida das que deixam os aficionados horas a comentar e a relembrar.
Nesta segunda parte pegaram
João Maria Falcão (
Monforte) à segunda;
Manuel Ramalho (
Montemor) à primeira, fechando-se muito bem e com o grupo a ajudar coeso; e
Rodrigo Russo (
Monforte) à primeira, este numa pega muito emotiva e a aguentar muito bem os derrotes do toiro.
O prémio
"João Cortes" foi atribuído à pega do montemorense
Manuel Ramalho (quinto toiro), decisão que dividiu as opiniões. Houve quem defendesse que foi melhor a pega de
Bissaia Barreto e quem saísse da praça a protestar por não terem dado o troféu à última pega dos
Amadores de Monforte, a de
Rodrigo Russo. Mas quando há um prémio, só pode haver um vencedor...
Fado e homenagem a João Cortes
Ao início da corrida, com os dois cavaleiros, os cabos dos dois grupos de forcados, o ganadeiro, o empresário, o presidente da
Tertúlia "Valores e Tradição",
Francisco Mira e o presidente da
Câmara,
Luis Mourinha na arena, prestou-se emotiva homenagem ao grande forcado estremocense
João Cortes, antigo cabo dos
Amadores de Montemor.
João Margalho foi o orador e leu depois as bonitas palavras que outro antigo cabo do
Grupo de Montemor,
António José Zuzarte (que não pôde estar presente) dedicou ao seu sucessor na chefia do grupo. O fadista
Manuel da Câmara cantou o fado dedicado ao homenageado e o público rendeu tributo a
Cortes com uma calorosa ovação.
Marco Gomes esteve acertado, diligente e com aficion na direcção desta corrida. Que foi boa. Mas que podia ter sido melhor. Se tivesse havido uma primeira parte tão empolgante e emotiva como a segunda. Se tivesse havido toiros na primeira parte, com houve na segunda. Houve duas corridas, parecia que havia também duas ganadarias. E se o esforço e o empenho do empresário
Carlos Zuñiga tivesse sido correspondido pelo público. Um cartel destes tinha que ter esgotado a lotação da praça com dias de antecedência. Paciência.
Um último comentário. A mais um
falhanço (costumeiro) dos
serviços metereológicos. Não acredito que tenham intenções anti-taurinas e quisessem prejudicar a corrida. Mas a verdade é que em nada ajudaram ao anunciar chuvas para sexta-feira e para sábado. Dias fantásticos de sol. Não acertam uma, estes rapazes...
Mais logo, não perca a grande foto-reportagem de Maria João Mil-Homens: o filme das seis pegas, os Momentos de Glória da tarde, os Famosos que ontem estiveram em Estremoz.
Fotos Hugo Teixeira