sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Noite grande de toureio a pé ontem em Lisboa, mas...

Miguel Alvarenga - A corrida de ontem no Campo Pequeno era, tenho que o dizer e constatar, um risco. E um risco ousado do empresário Luis Miguel Pombeiro a tentar fazer passar a mensagem de que era preciso marcarmos presença em força na praça para dar força e continuidade às touradas na capital e acima de tudo para apoiarmos o renascimento do nosso toureio a pé. Nem uma coisa nem outra foram correspondidas minimamente pelo público. Os (ditos) aficionados estiveram-se positivamente nas tintas para o toureio a pé e para que continuem a haver ou não touradas na primeira praça do país. O maior vencedor deste descalabro foi o presidente Medina. Deram-lha razão numa bandeja dourada. O Pombeirinho é um homem de luta - e por isso penso que continua. Se fosse eu, tinha fechado ontem a porta e mandado os aficionados e o Campo Pequeno às urtigas.

Estiveram lá meia dúzia de aficionados - eu estive. E estive, primeiro que tudo, pelo respeito que tenho por Vitor Mendes. E pelo muito que gosto de ver bom toureio a pé, quando é realmente bom - e ontem foi.

Não vale a pena continuar a bater no ceguinho e não vou voltar sequer a perder tempo repetindo tudo aquilo que escrevi anteriormente. Os aficionados deram ontem, de facto, uma enorme carta branca a Medina para acabar com as touradas em Lisboa. E ponto final. Continuemos.

Artisticamente, a corrida foi um sucesso. Os toiros - de Nuñez de Tarifa e Voltalegre - foram sérios, exigentes, com presença e a transmitir emoção e verdade, à excepção do quarto, primeiro de "Juanito", que saíu visivelmente debilitado, congestionado (mas parece que ninguém da direcção de corrida deu por isso...), a deitar-se, a abrir a boca desde o primeiro minuto, sem investir, sem dar quaisquer opções ao novo ídolo do nosso toureio a pé. Espero (se não chover) revê-lo quarta-feira na Moita e depois na encerrona em Vila Franca. "Juanito" está num momento importantíssimo, só é mesmo pena já não haver hoje um Camacho que o projectasse como no seu tempo projectou Pedrito de Portugal.

A faena ao último toiro da noite, um toiro sério e bom da ganadaria Nuñez de Tarifa, fica nas memórias como um momento marcante da entrega, do poderio, da arte e da genialidade de um jovem toureiro que esteve ali desde a primeira hora a dar a cara e a dizer que reúne um potencial enorme para ser a próxima grande figura de Portugal.

Primeiro os portugueses. Manuel Dias Gomes já não precisa de provar nada a ninguém. É um toureiro feito, um toureiro de corte sevilhano, um toureiro de arte e temple sem fim, pena que não toureie mais, mas a realidade é que o toureiro a pé em Portugal está como está e ontem viu-se. Sem público. Sem entusiastas. Os "aficionados do toureio a pé" (falsos) gostam de ir presumir e mostrar-se em Espanha. Cá, ficam em casa. Sai mais barato.

O seu primeiro toiro, de Nuñez de Tarifa, era desinteressado e distraído. Manuel esteve mandão e sacou faena onde quase nada havia a fazer. Demonstrou bem a sua raça e a força da sua muleta mágica. No segundo, um bom toiro de Voltalegre, desenhou uma faena sentida e profunda, lenta e marcante, deixou em Lisboa o perfume da sua arte. Toureiro grande e bom!

Faltou o consagrado "Finito de Córdoba", lesionado na véspera em Albacete - e veio Román, um ilustre desconhecido para um público que tem pouquíssima cultura taurina e está pouco atento aos fenómenos que dão que falar do lado de lá da fronteira. A sua primeira faena, a um toiro belíssimo e sério de Nuñez de Tarifa, foi um portento e deu para descobrimos que, afinal, o desconhecido valenciano é um grande toureiro. Olé!

Repetiu a dose no quinto toiro da noite, outro bom exemplar de Voltalegre, em que esteve mandão e artista, deixando pinceladas de arte e bom toureio, revelando-se a um público (pouquinho) que não o conhecia e viu dar ontem à costa um toureiro importante.

José Garrido é um verdadeiro vulcão em ebulição, está a um passo de se sentar no trono dos consagrados em Espanha e ontem deu mostras do valor que leva na alma e do grande lidador que é. Perfeição total nas duas faenas aos toiros, bons, de Voltalegre e Nuñez de Tarifa, deixando o público em delírio.

Artista com o capote, toureiro de valor e arte com a muleta, Garrido regressava ontem a Lisboa depois de há uns anos aqui ter triunfado ainda como novilheiro com um grande novilho de Murteira Grave. Confirmou ontem a sua evolução desde essa noite. Vai ser, não tarda, um dos primeiros em Espanha.

Nota final para os grandes pares de bandarilhas dos fantásticos toureiros de prata nacionais, que ontem voltaram a ser de ouro: brilhantes. Olés para Cláudio Miguel, João FerreiraFilipe Gravito, João Oliveira e Jorge Alegrias

Direcção muito acertada, rigorosa e aficionada, de Ricardo Dias. Noite grande de toureio a pé no Campo Pequeno. Pode ter sido a última. Mas foi muito boa. 

Lamentável, a todos os títulos, a machadada fatal que os (falsos) aficionados deram ontem ao toureio a pé. E ao futuro do Campo Pequeno.

Louvável o esforço do empresário Pombeiro, os toiros sérios das duas ganadarias espanholas, a entrega e o valor dos quatro matadores. E o ambiente que, apesar de tudo, se viveu madrugada dentro, depois de terminada a corrida, no restaurante "Carnalentejana", proporcionado também por Pombeiro e que esta noite se vai repetir. 

Pena o mundo tauromáquico português ser tão pequenino...

Foto M. Alvarenga