Rei da arte, génio maior do toureio a pé, triunfador absoluto da temporada passada em Espanha, onde fez tudo para manter a tauromaquia de pé num ano difícil da pandemia, Morante de la Puebla, que na realidade se chama José António Morante Camacho e é de La Puebla del Rio (Sevilha), regressa esta quinta-feira ao Campo Pequeno para actuar como único matador, ao lado dos cavaleiros Marcos Bastinhas e Francisco Palha e dos forcados de Santarém e do Aposento da Chamusca, na Corrida da Cultura, em que se comemora o 130º aniversário da inauguração da nossa Catedral. Vem tourear dois toiros de Nuñez del Cuvillo, uma das principais e mais credenciadas divisas espanholas - e explicou-me porquê. Faltam só três dias. É um homem calmo, calmíssimo mesmo, tranquilo, sabe o que quer e para onde vai. Nesta temporada quer ir até às 100 corridas para igualar o recorde de Joselito “El Gallo”, seu ídolo maior. A de quinta-feira em Lisboa será a 60ª, acha ele, não tem bem a certeza, "não sou bom para estatísticas", justifica-se. Fica a nossa conversa, em jeito de entrevista, a antecipar as faenas de quinta-feira na arena do Campo Pequeno. Quando lhe perguntei o que podem os aficionados esperar de si na quinta-feira, respondeu com a maior das simplicidades: “Não sei… pode acontecer tudo”. E justificou: “Talvez esse seja o aliciante maior do toureiro Morante. Nunca faço um toureio pré-concebido”. É diferente em tudo. E até no que respeita às fotos para ilustrar esta entrevista, foi claro: "Basta uma, não vale a pena mais nenhuma...". Os génios não são iguais às outras pessoas.
Entrevista de Miguel Alvarenga
- Como vai, Maestro, a temporada das 100 corridas? Que número é a corrida de Lisboa?
- É uma temporada especial realmente. Nunca aspirei tourear esse número tão elevado de corridas, mas é o momento de fazê-lo. São 25 anos de alternativa e sinto-me bem fisicamente para tentar matar as 100 corridas de toiros. Encontro-me com ilusão, fresco e fisicamente, apesar das três ou quatro voltaretas que me pegaram, sinto-me bastante bem. Como sabe, é uma temporada larga, com muitas dificuldades no tema ‘toiro’, mas apesar disso as coisas têm resultado bastante bem. Quanto ao número da corrida de Lisboa, sou bastante mau para as estatísticas mas penso que será a número 60.
- Cansado?…
- Cansado… são muitas corridas, viagens muito longas, muitas preocupações, mas dentro do possível, apesar de todas as circunstâncias, encontro-me bastante bem.
- Que significado tem para si tourear no Campo Pequeno na noite de comemoração do 130º aniversário da inauguração da praça, por onde passaram ao longo de mais de um século todas as grandes figuras do toureio mundial?
- Lisboa sempre tem um significado especial, não só pela história do Campo Pequeno, mas também pelas minhas ligações a Portugal e às suas gentes. O significado mais importante, é que são 130 anos de história e que o toureio continua. Parece-me realmente o mais importante.
- Vem tourear dois toiros de Nuñez del Cuvillo, uma das mais credenciadas ganadarias espanholas. Porquê esta escolha? Não gosta das ganadarias portuguesas?…
- Tinha que escolher dois toiros… e escolhemos Cuvillo… quanto às ganadarias portuguesas, como sabe nas últimas actuações sempre fiz questão de tourear toiros do vosso país, este mesmo ano estou anunciado em Vila Franca com a ganadaria de Manuel Veiga, mas nesta ocasião decidimos trazer Cuvillo.
- Vir sózinho a Lisboa, como único matador, significa que vem competir consigo próprio?
- Sempre quis tourear com outro matador de toiros. Dadas as circunstâncias tão especiais da corrida em Portugal, com outro companheiro sempre há possibilidade de quites, o que torna a lide mais entretida. Nesta ocasião, as circunstâncias levaram a que viesse sózinho, mas numa temporada tão especial como esta, não queria deixar de estar no Campo Pequeno.
- Reparte cartel com os cavaleiros Marcos Bastinhas e Francisco Palha e os forcados de Santarém e Aposento da Chamusca. O que lhe apraz dizer dos companheiros desta noite no Campo Pequeno?
- O Pedro comentou-me mais ou menos o momento em que se encontra cada cavaleiro, não sou um grande conhecedor da temporada portuguesa, apesar de ser um grande aficionado ao toureio a cavalo. Sei que ambos que estão a fazer uma temporada importante, conheci o Marcos Bastinhas há vários anos, assim como o seu pai e sempre ouvi falar da sua capacidade para chegar às bancadas; do Francisco Palha tenho também referências e a mais recente a da sua actuação em Las Ventas.
- É este ano o único matador de toiros presente na temporada lisboeta, uma temporada reduzida a apenas quatro corridas. Isso significa uma responsabilidade acrescida?
- Mais que uma responsabilidade acrescida, dá-me pena que assim seja, quando Lisboa sempre foi uma praça de temporada larga e pela qual passavam as grandes figuras do toureio, apesar da particularidade da corrida portuguesa.
- Pedro Marques é o apoderado da sua vida?
- O Pedro é meu amigo de sempre e, neste momento da minha carreira, é o apoderado que reúne o perfil para melhor me representar. Pelo facto de ser português também lhe põe mais carinho as actuações nas praças portuguesas.
- O que podem esperar os aficionados lusos de Morante de la Puebla no próximo dia 18 no Campo Pequeno?
- Não sei. Talvez esse seja o aliciante do toureiro Morante… Que o público nunca verá o toureio pré-concebido. Pode sempre acontecer tudo!
Foto D.R.

