Miguel Alvarenga - A bonita e muito bem cuidada praça de toiros de Sobral de Monte Agraço (fruto do belíssimo empenho do empresário José Luis Gomes, toda pintada, novos azulejos com a numeração dos lugares e até uma cabeça de toiro embalsamada em local bem destacado sobre a trincheira - na foto de baixo) foi esta tarde palco do tradicional festival a favor da Tertúlia Tauromáquica Sobralense, que decorreu em ritmo muito agradável e com momentos de muito bom toureio - um evento a que vamos dedicar uma grande reportagem durante o dia de amanhã, fique atento.
Exceptuando o terceiro novilho, da ganadaria Vinhas, que se atravessava uma barbaridade e que provocou "um aperto" daqueles que nenhum toureiro deseja ao valoroso cavaleiro Paco Velásquez (muito valente e cheio da garra esteve ele para contornar as adversidades que teve pela frente!), tudo o mais foi agradável e o festival registou momentos de muito interesse, quer a cavalo, quer a pé.
João Moura Caetano, homenageado ao início pelos seus vinte anos de alternativa pela presidente da Câmara e pela provedora da Santa Casa, Raquel Soares Lourenço e Maria Madalena Biencard Cruz, respectivamente, bem como pelo empresário promotor do festival José Luis Gomes, lidou com o temple que é a sua imagem de marca e a classe costumeira um bom novilho da ganadaria de seu pai, Paulo Caetano, bordando o toureio com pormenores de muita arte, sobretudo com o fantástico cavalo "Ouro Negro". Actuação soberba.
David Gomes lidou um novilho um pouco mais complicado e reservado da ganadaria Vinhas, que exigia e não se parava, dando-lhe a volta com aprumo e evidenciando algum "trabalho de casa" e novos cavalos nesta sua primeira presença na temporada nacional.
Paco Velásquez esteve muito por cima do estranho novilho de Vinhas que lhe tocou "em azar". Não vou ao ponto, como alguns espectadores entendidos e conhecedores se apressaram a "denunciar", ainda que em surdina, que o animal estava mexido ou mesmo toureado, mas que estava estranho, isso estava. Atravessava-se uma barbaridade e não deu sossego ao valente Paco Velásquez, que superou com calma e muita galhardia este indesejado "aperto".
As três pegas foram consumadas pelos forcados de Lisboa (a primeira da tarde pelo sobralense Duarte Fernandes ao primeiro intento) e pelos de Alcochete (segunda da tarde por Gabriel Rodrigues também à primeira). A terceira teve na cara Tomé Batalha, do Grupo de Lisboa, que consumou igualmente ao primeiro intento, numa formação conjunta dos dois grupos.
A pé, actuava pelas primeira vez em Portugal num espectáculo formal, depois de já ter morto um toiro em Barrancos, o matador espanhol Esaú Fernández, um "especialista em Miuras" e outras ganadarias duras, que teve pela frente um novilho de bandeira de Varela Crujo (premiado com volta à arena antes de ser recolhido, mais duas voltas à arena do jovem ganadeiro Bernardo Crujo e do matador, e regressando ao campo), deliciando-nos com momentos de muito bom toureio. Uma faena para "dar e durar", tal a qualidade do novilho. E a qualidade do toureiro.
Com outro bom novilho de Varela Crujo - ganadaria a que pertenciam os três lidados a pé na segunda parte do festival -, Manuel Dias Gomes foi também autor de inspiradíssima faena pautada pelo recorte artístico que o caracteriza e pelo bom gosto com que sempre toureia este que é "o mais sevilhano dos matadores lusitanos". Manuel abriu o livro e escreveu uma história bonita.
O jovem João Fernandes, aluno da Escola de Vila Franca (que estava acompanhado por um dos seus mestres, o matador António João Ferreira - que pena tourear tão pouco...), vencedor do Troféu "Orelha de Ouro" no ano passado na Nazaré, que vi tourear pela primeira vez, tem raça, tem intuição, tem sentimento e não vai ser mais um. Tomem nota do seu nome, que não me engano se afirmar que vem para dar que falar. Toureou com valor e com poderio outro bom novilho de Varela Crujo.
Muito bem nos tércios de bandarilhas os valorosos Duarte Silva, Miguel Maltinha, Filipe Gravito, Sérgio Nunes, Rui Ferreira e ainda um bandarilheiro espanhol. Aplausos para o naipe de bom bandarilheiros que coadjuvaram as lides, entre os quais José Franco "Grenho", António Telles Bastos, Pedro Paulino "China", Joel Piedade, Tiago Santos e João de Oliveira.
Presidido pela jovem - a mais jovem do país - presidente da Câmara Raquel Soares Lourenço (a quem os forcados de Lisboa brindaram a primeira pega), o festival desta tarde foi bem dirigido pelo competente Ricardo Dias, que esteve assessorado pelo médico veterinário José Luis da Cruz, com os toques a cargo de José Henriques.
Ao início foi guardado um minuto de silêncio em memória de Manuel Rosalino, falecido este semana, que foi cavaleiro amador e era pai do cavaleiro Rui Santos.
Em tarde amena e de algum calor, a praça registou uma entrada de quase meia casa, algo menos que em anos anteriores.
Amanhã publicaremos todas as fotos do festival - não percam!
Fotos M. Alvarenga



