Custa dizer - e pensar - isto, mas a realidade é que mais depressa se vão entender os americanos e os iranianos, assim como os russos e os ucranianos, do que se entenderão os empresários taurinos nacionais...
Vão longe, muito longe, os tempos em que a Tauromaquia era gerida por Senhores. Ainda restam alguns "à antiga", mas são já muito poucos. Nos últimos anos deu à costa a Cambada - que é quem hoje manda, ou pretende mandar, na Festa.
O mundo está em guerra. E a lusa Tauromaquia está à beira de outra guerra. Em vez de drones, por aqui explodem providências cautelares, insolvências e desacordos entre parceiros. Andam (quase) todos a tentar sacanear-se uns aos outros. E quem perde com isso? A Festa, só a Festa.
O que hoje aqui vou contar ainda não é tudo. Há mais histórias tristes e vergonhosas que a seu tempo serão divulgadas. Com uma certeza: é necessário e urgente limpar a Tauromaquia.
Dois meses depois das cheias, só "cerca de um terço" dos negócios reabriram em Alcácer do Sal e, segundo a Presidente da Câmara Clarisse Campos, em entrevista ao semanário "Expresso" (recorte da primeira página em baixo), "quando chegarem as ajudas, já não vamos conseguir salvar pessoas e negócios".
É a favor dessas pessoas e desses negócios que está anunciada uma corrida de toiros de beneficência para o próximo dia 26 na praça de toiros que tem o nome de Mestre João Branco Núncio - imóvel que quase esteve debaixo de água e que neste momento está prestes a pegar fogo... e a arder!
Esta semana deram entrada no Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja duas providências cautelares de suspensão de acto administrativo, o que significa, de suspensão (imediata), neste caso, de duas corridas de toiros que estão anunciadas para as próximas semanas: a de 26 de Abril em Alcácer e a de 9 de Maio em Garvão (Ourique).
Nas duas touradas, há um denominador comum: o promotor das duas é José Maria Charraz, o empresário que se arvorou em dono disto tudo e que, nos últimos tempos, no dizer de vários empresários também taurinos, se está a revelar "uma verdadeira desilusão em todos os aspectos"...
Charraz é, foi sempre, um empresário sério, cumpridor, dinâmico e aficionado. Antigo cabo dos forcados Amadores de Beja, revelou-se empresarialmente à frente de algumas praças alentejanas. Depois quis subir mais alto. Tornou-se parceiro de Pombeiro no Campo Pequeno e concorreu a tudo o que era praça, ganhando em muitas frentes. O trabalho que fez em Montemor foi louvável e temos que o aplaudir. Mas depois... descambou ao tentar alcançar alguns fins sem olhar a meios. Foi a praças que estavam adjudicadas tentando sacá-las aos inquilinos. E isso não se faz...
Uma das providências cautelares diz respeito à corrida de beneficência de Alcácer do Sal e foi interposta pela empresa Tertúlia Óbvia, de José Luis Zambujeira e João Anão Madureira, os anteriores adjudicatários da praça de toiros.
A requerida é a Câmara Municipal de Alcácer do Sal, proprietária da praça de toiros, a quem os dois empresários acusam de ter cedido ou alugado a praça a José Maria Charraz "por obra e graça de uma cunha", em lugar de ter promovido um concurso para a sua adjudicação, como é habitual.
O que pode acontecer?
Se o Tribunal der provimento à providência cautelar, a suspensão do acto administrativo (isto é, da corrida) tem efeitos imediatos e o espectáculo não se realizará. A decisão do Tribunal deverá ser conhecida no início da próxima semana.
Caso a corrida seja suspensa, só temos que lamentar que isso aconteça. Mas não nos podemos admirar. Noutros tempos - "da fidalguia, que deu brado nas toiradas" - nada disto aconteceria. No estado a que a nossa Festa chegou, tudo é admissível... mesmo que o não seja.
Os comerciantes de Alcácer precisam de ser ajudados. Esta corrida de toiros visava precisamente dar uma ajuda. Mas o mundo taurino português não está em condições mínimas para o fazer. Apodreceu...
Na outra providência cautelar que esta semana deu também entrada no Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja, a requerida é a Câmara Municipal de Ourique, acusada pelo empresário António Pedro Vasco de, alegadamente, ter feito uma adjudicação directa (ao empresário José Maria Charraz, que promove em Garvão uma corrida no dia 9 de Maio), em lugar de promover um concurso para adjudicação da praça, com a agravante de ter omitido o Caderno de Encargos a outros concorrentes.
O que pode acontecer?
Se o Tribunal der provimento à providência cautelar, a corrida de Garvão fica imediatamente suspensa - o que se saberá também no início da próxima semana.
Estas são as duas bombas que podem estoirar dentro de dias - com efeitos de suspensão imediata das duas referidas corridas de toiros.
As outras bombas dizem respeito aos processos que também correm os seus trâmites nos corredores da Justiça (leia-se: nos Tribunais) para pedir a insolvência de duas empresas taurinas por dívidas a toureiros e ganadeiros. Se a insolvência for decretada, como tudo leva a crer que seja, essas duas empresas vão por água abaixo e ficam em causa algumas corridas que até já foram anunciadas...
Num dos casos, o processo está a decorrer e o Tribunal solicitou ontem que sejam devidamente enumerados todos os credores da empresa em questão.
No outro caso, o empresário visado chegou à fala com o representante da Sociedade de Advogados que requereu a sua insolvência e, para já, houve alguns acordos... que até alteraram cartéis e deixaram apeados toureiros que já estavam citados para actuar. Num dos casos, uma corrida que ia ser mista e incluia um matador espanhol, passou a ser "à portuguesa" e entrou nela um cavaleiro "com ligações" à citada Sociedade de Advogados.
São outras histórias que contaremos muito em breve...
O mundo taurino português não pode continuar assim. Estas histórias que hoje aqui contei nunca deveriam existir. Nunca existiriam no tempo em que a Tauromaquia era gerida por Senhores.
Vamos expulsar a Cambada! Depressa e em força!
Fotos "Expresso", fotomontagem D.R. e cartoon D.R.




