Miguel Alvarenga - Não exagero, nem digo asneira nenhuma, se afirmar que Rui Fernandes protagonizou ontem no Coliseu de Elvas (praça esgotada) a lide da temporada. Aplaudida de pé, note-se, pelo Maestro João Moura (fotos de cima). E por todos. Foi "o fim do mundo"!
A primeira parte da corrida foi morna pela menor qualidade dos toiros. João Salgueiro lidou um de São Marcos meio reservado; Rui Fernandes enfrentou um de Passanha que se adiantava e atravessava no momento do ferro; e Marcos Bastinhas toureou, com a costumeira alegria e grande empatia com o público, um toiro de São Marcos que também não foi uma pera doce, deu-lhe ele a volta com a arte que o torna diferente de todos.
Na segunda parte da corrida, vimos "outra corrida", uma grande corrida.
João Salgueiro esteve enorme a lidar e a tourear um empenhado e bom toiro de Passanha, com teclas, de investidas claras e alegres de praça a praça. Bem nos dois compridos, veio a praça abaixo nos curtos, com três ferrões "à Salgueiro", daqueles que os aficionados esperam em cada actuação do Génio de Valada, citando de praça a praça, provocando a investida, encontrando-se com o toiro no centro da arena, fazendo a batida, cravando com a emoção de todos os tempos.
Salgueiro não voltou às lides para fazer número. Veio mesmo com a intenção de pôr isto tudo na ordem. E tem ideias nova para a próxima época. Tomem nota, não esqueçam.
No próximo fim-de-semana termina esta temporada triunfal (não sei se não o vamos ainda aclamar como grande triunfador da temporada!) com dois compromissos importantíssimos: toureia no sábado em Zafra e na terça em Vila Franca. E para o ano volta ainda com mais força. E mais projectos. A temporada não foi a mesma desde que João Salgueiro reapareceu no Colete Encarnado na "Palha Blanco". Escrevi-o na altura e Salgueiro encarregou-se depois de confirmar que era mesmo verdade! Grande João! Ainda e sempre, único e genial!
Foi no quinto toiro da noite, um toiro bravo e super-exigente de São Marcos, que "vinha cá cima buscar o toureiro", que Rui Fernandes, inspiradíssimo, se tornou também num sério candidato ao trono de triunfador-maior desta temporada. Que foi, e está a ser, importantíssima para ele.
Lide de cátedra e maestria, com ferros de poder a poder e a pisar a linha de fogo, tudo perfeito, a criar enorme entusiasmo e verdadeiro alvoroço nas bancadas, Rui a entender o toiro desde o primeiro segundo com inteligência e saber, a pôr tudo de si numa lide que não se descreve, sente-se, como todos a sentimos. Aclamado de pé, única lide que fez o Maestro João Moura levantar-se da barreira para aplaudir - é importante que se ressalve este pormenor. Não acontece todos os dias, nem com todos os toureiros.
O maioral da ganadaria deu volta à arena com Rui Fernandes e o forcado José Maria Cortes Pena Monteiro, autor de uma pega monumental. Tudo o que aconteceu neste quinto toiro - de São Marcos -, a começar na lide de Rui e a terminar na pega magistral de José Maria, constituiu o momento alto, altíssimo, da noite de ontem em Elvas.
Com esta particularidade: numa corrida em que se homenageava a memória de José Tello Barradas no centenário do seu nascimento, Rui Fernandes foi o único que honrou esse tributo e brindou uma lide, a sua primeira, a Ana Barradas, filha do Mestre. Mais ninguém disse se lembrou...
Nem houve sequer de nenhum artista a lembrança de, ao menos, dedicar um ferro a Alberto Barradas, irmão do homenageado, a viver um momento difícil depois da morte de sua Mulher, Maria José Caldeira Tello Barradas, no domingo passado - por quem se guardou um respeitoso minuto de silêncio ao início da corrida.
Também ao início da corrida e na presença, na arena, dos três cavaleiros e dos cabos dos dois grupos de forcados, os três filhos de Mestre José Barradas ouviram, emocionados, o discurso de elogio à memória de seu saudoso Pai, uma figura única que não se esquece.
Voltemos à corrida.
No último toiro, um bom exemplar da triunfadora ganadaria Passanha (pela qualidade e comportamento deste e do lidado por Salgueiro em quarto lugar, também o maioral ou mesmo o ganadeiro deveriam ter dado volta à arena... ou há moralidade, ou...), Marcos Bastinhas exibiu-se ao seu melhor estilo, em completa e permanente sintonia com o público, que não lhe regateou calorosos aplausos - brindou a primeira lide ao seu público, apeando-se do cavalo para o fazer no centro da arena; e a segunda a toda a sua equipa, já que era a última corrida da temporada do seu regresso às arenas.
Lide importante e de grande valor, com ferros "de parar corações", brega perfeita e ousados remates. Terminou Marcos em grande e em alta, a marcar com chave de ouro o encerramento de uma corrida fantástica.
Bem os seis bandarilheiros das quadrilhas dos cavaleiros, valentes e com arte frente a toiros que pediam contas e não eram "para brincadeiras". Aplausos para Diogo Malafaia e Ricardo Alves "Pagã" (de Salgueiro), João Silva e João Santos "Sevilhita" (de Fernandes), Gonçalo Veloso e Cláudio Miguel (de Bastinhas).
Noite rija de pegas com extraordinárias intervenções dos dois grupos de forcados, os Amadores de Montemor e os Académicos de Elvas.
Por Montemor pegaram Vasco Ponce (forcado de alma e com história, que ontem fez a sua última pega, ao terceiro intento, não muito bem ajudado nas duas primeiras tentativas pelos companheiros); o cabo António Cortes Pena Monteiro e Joel Santos numa cernelha impecável; e José Maria Cortes Pena Monteiro, para mim o grande forcado do momento, com uma pega "brutal" à primeira ao quinto toiro, um hino de técnica e de valor à nobre arte de pegar toiros!
Pelos anfitriões, foram forcados de cara José Pedro Silva, numa grande e emotiva pega, a aguentar que nem um herói uma valente carga na alegre e repentina investida do toiro de Passanha, segundo da noite; João Carlos, na sua primeira tentativa, a sesgo e com as ajudas carregadas, a dobrar Miguel Sadio, que foi retirado de maca depois de três tentativas arrojadas; e Luis Carvalho, numa grande pega ao último toiro da noite, com o grupo todo a ajudar na perfeição.
A corrida de ontem no Coliseu de Elvas fica na história desta temporada. Domingos Jeremias foi o muito acertado director de corrida e esteve assessorado pelo médico veterinário José Miguel Guerra.
Uma noite de bom toureio e boas pegas, com bons toiros e grande entusiasmo popular nas bancadas, cheias até às bandeiras. Houve pormenores importantes dos três cavaleiros, houve decisão e valentia dos dois grupos de forcados. Corridas assim enchem-nos as medidas!
E depois de ter chegado à capital quase às cinco da madrugada e de ter acordado, que nem um galo, cedíssimo para vos deixar aqui esta crónica, sigo para a tarde de gala à antiga portuguesa em Paio Pires, comemorativa do 50º aniversário da inauguração da praça (onde acontecem coisas importantes todos os anos!). Volto mais logo, com a continuação das reportagens da corrida de Elvas!
Fotos M. Alvarenga
| Três curtos "à Salgueiro" criaram alvoroço no quarto toiro! |
| No quinto toiro, de S. Marcos, Rui Fernandes deu lição de cátedra e o Coliseu de Elvas "veio abaixo"! |
| Alegre e contagiante, Bastinhas toureou com esta verdade o último toiro da noite, um bom toiro de Passanha |
| Ao início da corrida, os filhos de Mestre José Barradas na arena enquanto era lido um bonito texto a recordar seu Pai |
