sábado, 26 de setembro de 2026

Rui Fernandes ontem em Elvas: até o Maestro Moura aplaudiu de pé a lide da temporada!

Miguel Alvarenga - Não exagero, nem digo asneira nenhuma, se afirmar que Rui Fernandes protagonizou ontem no Coliseu de Elvas (praça esgotada) a lide da temporada. Aplaudida de pé, note-se, pelo Maestro João Moura (fotos de cima). E por todos. Foi "o fim do mundo"!

A primeira parte da corrida foi morna pela menor qualidade dos toiros. João Salgueiro lidou um de São Marcos meio reservado; Rui Fernandes enfrentou um de Passanha que se adiantava e atravessava no momento do ferro; e Marcos Bastinhas toureou, com a costumeira alegria e grande empatia com o público, um toiro de São Marcos que também não foi uma pera doce, deu-lhe ele a volta com a arte que o torna diferente de todos.

Na segunda parte da corrida, vimos "outra corrida", uma grande corrida.

João Salgueiro esteve enorme a lidar e a tourear um empenhado e bom toiro de Passanha, com teclas, de investidas claras e alegres de praça a praça. Bem nos dois compridos, veio a praça abaixo nos curtos, com três ferrões "à Salgueiro", daqueles que os aficionados esperam em cada actuação do Génio de Valada, citando de praça a praça, provocando a investida, encontrando-se com o toiro no centro da arena, fazendo a batida, cravando com a emoção de todos os tempos.

Salgueiro não voltou às lides para fazer número. Veio mesmo com a intenção de pôr isto tudo na ordem. E tem ideias nova para a próxima época. Tomem nota, não esqueçam. 

No próximo fim-de-semana termina esta temporada triunfal (não sei se não o vamos ainda aclamar como grande triunfador da temporada!) com dois compromissos importantíssimos: toureia no sábado em Zafra e na terça em Vila Franca. E para o ano volta ainda com mais força. E mais projectos. A temporada não foi a mesma desde que João Salgueiro reapareceu no Colete Encarnado na "Palha Blanco". Escrevi-o na altura e Salgueiro encarregou-se depois de confirmar que era mesmo verdade! Grande João! Ainda e sempre, único e genial!

Foi no quinto toiro da noite, um toiro bravo e super-exigente de São Marcos, que "vinha cá cima buscar o toureiro", que Rui Fernandes, inspiradíssimo, se tornou também num sério candidato ao trono de triunfador-maior desta temporada. Que foi, e está a ser, importantíssima para ele. 

Lide de cátedra e maestria, com ferros de poder a poder e a pisar a linha de fogo, tudo perfeito, a criar enorme entusiasmo e verdadeiro alvoroço nas bancadas, Rui a entender o toiro desde o primeiro segundo com inteligência e saber, a pôr tudo de si numa lide que não se descreve, sente-se, como todos a sentimos. Aclamado de pé, única lide que fez o Maestro João Moura levantar-se da barreira para aplaudir - é importante que se ressalve este pormenor. Não acontece todos os dias, nem com todos os toureiros.

O maioral da ganadaria deu volta à arena com Rui Fernandes e o forcado José Maria Cortes Pena Monteiro, autor de uma pega monumental. Tudo o que aconteceu neste quinto toiro - de São Marcos -, a começar na lide de Rui e a terminar na pega magistral de José Maria, constituiu o momento alto, altíssimo, da noite de ontem em Elvas.

Com esta particularidade: numa corrida em que se homenageava a memória de José Tello Barradas no centenário do seu nascimento, Rui Fernandes foi o único que honrou esse tributo e brindou uma lide, a sua primeira, a Ana Barradas, filha do Mestre. Mais ninguém disse se lembrou... 

Nem houve sequer de nenhum artista a lembrança de, ao menos, dedicar um ferro a Alberto Barradas, irmão do homenageado, a viver um momento difícil depois da morte de sua Mulher, Maria José Caldeira Tello Barradas, no domingo passado - por quem se guardou um respeitoso minuto de silêncio ao início da corrida.

Também ao início da corrida e na presença, na arena, dos três cavaleiros e dos cabos dos dois grupos de forcados, os três filhos de Mestre José Barradas ouviram, emocionados, o discurso de elogio à memória de seu saudoso Pai, uma figura única que não se esquece.

Voltemos à corrida.

No último toiro, um bom exemplar da triunfadora ganadaria Passanha (pela qualidade e comportamento deste e do lidado por Salgueiro em quarto lugar, também o maioral ou mesmo o ganadeiro deveriam ter dado volta à arena... ou há moralidade, ou...), Marcos Bastinhas exibiu-se ao seu melhor estilo, em completa e permanente sintonia com o público, que não lhe regateou calorosos aplausos - brindou a primeira lide ao seu público, apeando-se do cavalo para o fazer no centro da arena; e a segunda a toda a sua equipa, já que era a última corrida da temporada do seu regresso às arenas.

Lide importante e de grande valor, com ferros "de parar corações", brega perfeita e ousados remates. Terminou Marcos em grande e em alta, a marcar com chave de ouro o encerramento de uma corrida fantástica. 

Bem os seis bandarilheiros das quadrilhas dos cavaleiros, valentes e com arte frente a toiros que pediam contas e não eram "para brincadeiras". Aplausos para Diogo Malafaia e Ricardo Alves "Pagã" (de Salgueiro), João Silva e João Santos "Sevilhita" (de Fernandes), Gonçalo Veloso e Cláudio Miguel (de Bastinhas).

Noite rija de pegas com extraordinárias intervenções dos dois grupos de forcados, os Amadores de Montemor e os Académicos de Elvas.

Por Montemor pegaram Vasco Ponce (forcado de alma e com história, que ontem fez a sua última pega, ao terceiro intento, não muito bem ajudado nas duas primeiras tentativas pelos companheiros); o cabo António Cortes Pena Monteiro e Joel Santos numa cernelha impecável; e José Maria Cortes Pena Monteiro, para mim o grande forcado do momento, com uma pega "brutal" à primeira ao quinto toiro, um hino de técnica e de valor à nobre arte de pegar toiros!

Pelos anfitriões, foram forcados de cara José Pedro Silva, numa grande e emotiva pega, a aguentar que nem um herói uma valente carga na alegre e repentina investida do toiro de Passanha, segundo da noite; João Carlos, na sua primeira tentativa, a sesgo e com as ajudas carregadas, a dobrar Miguel Sadio, que foi retirado de maca depois de três tentativas arrojadas; e Luis Carvalho, numa grande pega ao último toiro da noite, com o grupo todo a ajudar na perfeição.

A corrida de ontem no Coliseu de Elvas fica na história desta temporada. Domingos Jeremias foi o muito acertado director de corrida e esteve assessorado pelo médico veterinário José Miguel Guerra.

Uma noite de bom toureio e boas pegas, com bons toiros e grande entusiasmo popular nas bancadas, cheias até às bandeiras. Houve pormenores importantes dos três cavaleiros, houve decisão e valentia dos dois grupos de forcados. Corridas assim enchem-nos as medidas!

E depois de ter chegado à capital quase às cinco da madrugada e de ter acordado, que nem um galo, cedíssimo para vos deixar aqui esta crónica, sigo para a tarde de gala à antiga portuguesa em Paio Pires, comemorativa do 50º aniversário da inauguração da praça (onde acontecem coisas importantes todos os anos!). Volto mais logo, com a continuação das reportagens da corrida de Elvas!

Fotos M. Alvarenga

Três curtos "à Salgueiro" criaram alvoroço no quarto toiro!


No quinto toiro, de S. Marcos, Rui Fernandes deu lição de
cátedra e o Coliseu de Elvas "veio abaixo"!

Alegre e contagiante, Bastinhas toureou com esta verdade o
último toiro da noite, um bom toiro de Passanha

Ao início da corrida, os filhos de Mestre José Barradas na arena
enquanto era lido um bonito texto a recordar seu Pai