segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Grande tarde em Vila Franca: Luque a sério sem trazer "badanos" espanhóis! Miguel e Tristão em guerra aberta pelo trono!

Miguel Alvarenga - Ninguém se chateou, apesar de a corrida ter demorado cerca de três longas horas, começou às seis da tarde e acabou já passavam alguns minutos das nove, por obra e graça do quarto toiro da ordem, um Sommer com 730 quilos (credo, cruzes, canhoto!) que saíu à arena a coxear e depois não lhe apeteceu sair de cena quando a directora Lara Gregório de Oliveira e o médico veterinário José Luis da Cruz o mandaram recolher. 

Mais corda, menos corda, incluindo as esforçadas e vãs tentativas do eficiente bandarilheiro João Bretes para o fazer entrar com a arte do seu capote, o toiro ficou mais de meia-hora a fazer birra à porta dos curros, assim como quem diz daqui não saio, daqui ninguém me tira. Acabou por entrar, feito malandrão, quando lhe mostraram lá dentro uma das chamadas "chocas". Mas tudo aquilo foi uma seca demorada e enfadonha... coisas da Festarola à portuguesa... Santo público, o nosso, que come e cala e ainda bate palmas todo contentinho da silva...

Falo da corrida deste domingo em Vila Franca, primeira das duas desta muito bem montada Feira de Outubro, que comemorava os 125 anos da inauguração da "Palha Blanco", sem que tenha havido grandes referências a essa importante efeméride.

O empresário Bernardo Alexandre e a sua equipa montaram um cartel à maneira antiga, sem cedências às exigências locais de querer sempre os mesmos toureiros. Tiveram algumas críticas dos "velhos do Restelo" que preferiam os toureiros antigos e de sempre. Mas seguiram em frente, honrando o passado histórico dos empresários antigos, no tempo em que isto era a sério e se faziam elencos com quem merecia integrá-los.

Miguel Moura e Tristão Ribeiro Telles são, da nova vaga, os dois mais destacados cavaleiros desta temporada. Ontem voltaram a defrontar-se e a guerrear que nem leões pelo trono de triunfador da temporada. Mereceram por inteiro estar neste cartel. O terceiro toureiro foi o categorizado matador espanhol Daniel Luque, que há três anos protagonizou nesta mesma "Palha Blanco" o escândalo da corrida cancelada que levou ao (inesperado e lamentável) fim do empresário Ricardo Levesinho como gestor desta praça. Voltou agora Luque num plano diferente e superior, catalogado como um dos mais importantes toureiros do momento a nível mundial.

E nas pegas, a empresa deu ao Grupo de Montemor as honras da presença numa feira importante, no primeiro ano em que não tiveram a sua praça para festejar o seu fim de temporada, proporcionando-lhes este consagrado palco numa tarde de competição com os anfitriões vilafranquenses.

O cartel era muito bom - e o público correspondeu, enchendo mais de três quartos da lotação, uma bonita moldura humana a festejar os 125 anos desta carismática praça.

Para as lides a cavalo, vieram dois toiros (acabaram por ser lidados três) de Murteira Grave de nota altíssima; e dois de Sommer d'Andrade com pesos superiores aos 700 quilos (720 e 730!), o que constitui sempre um "acontecimento" fora do normal. 

Se um toiro com quilos a menos é chumbado e não admitido em sorteio, porque razão se aprovam toiros com pesos exagerados como estes?... Não é preciso ser veterinário para reconhecer que o toiro não é um animal com morfologia para pesar 700 quilos, isso é uma coisa anormal. Mas enfim... estamos em Portugal, onde tudo é permitido e ninguém protesta... E o infeliz Regulamento preocupa-se com pesos a menos, mas não diz nada quando os pesos são a mais... Perfeita loucura!

O primeiro, com 720 quilos, foi o segundo toiro da tarde, superiormente lidado por Tristão Ribeiro Telles e muito bem pegado por Rodrigo Camilo, dos Amadores de Vila Franca. A expectativa era muita, mas o "bisonte", afinal, não fez mal a ninguém, nem sequer assustou ninguém, graças a Deus...

O segundo (730 quilos) era o quarto da ordem, destinava-se a Miguel Moura, mas entrou a coxear e foi devolvido aos currais... o tal que demorou mais de meia hora a sair da arena.

Passando agora aos toureiros, a corrida foi agradável, emotiva e agradou ao exigente público de Vila Franca, que não gritou, não barafustou, não armou escândalos. Antes assim...

Miguel Moura reafirmou o momento altíssimo que está a viver nesta temporada, havendo mesmo quem já arrisque afirmar que ele é, neste momento, o mais importante dos Mouras cavaleiros. Está a sê-lo de facto. E continua na calha como o mais sério candidato ao trono de triunfador desta temporada.

Lidou com todos os atributos da arte mourista, baseando o seu empenhado labor nos emotivos ladeios "a dar o peito" ao toiro, o primeiro Grave da tarde, toiro bravo e a cumprir "todas as normas" da exigente e séria ganadaria da Galeana; e esteve depois verdadeiramente magistral a lidar e a tourear o segundo do seu lote, em quinto lugar, que era o sobrero (também de Murteira Grave) que substituiu o Sommer coxo dos 730 quilos. Miguel em grande e a confirmar a sua enorme e cada vez maior empatia com o público de Vila Franca. 

Tristão Ribeiro Telles respondeu à letra ao "rival" com quem quer à viva força partilhar o trono desta temporada. Andou desenvolto e com a costumeira ousadia, manifestando segurança e muita raça, frente ao primeiro toiro do seu lote, o Sommer com 720 quilos que não ofereceu grande perigo nem transmitiu a emoção que se esperava. Deixou-se, não fez mal, não pregou sustos...

Foi, contudo, no seu segundo toiro, um Grave "castanho" de nota muito alto, que Tristão usou e abusou dos seus reconhecidos atributos de grande e arriscado lidador. Bem nos ferros compridos, levou o público ao rubro nos curtos, três de praça a praça, a dar toda a prioridade ao toiro, provocando a investida, fazendo a batida no centro da arena e cravando com a força e a emoção dos maiores. A lembrar Batista, e recordar Zoio. Um assombro de risco, a pisar a linha de fogo. Praça em verdadeiro alvoroço. O toiro era fabuloso e a directora de corrida premiou - e muito bem - o ganadeiro com volta à arena, honraria que foi protagonizada por Joana, filha de Joaquim Grave.

As pegas, de que em breve vamos mostrar em grande reportagem todas as fotos das quatro sortes, foram em alta e a consolidar o grande prestígio dos dois grupos intervenientes. 

Por Montemor pegaram o multifacetado Joel Santos (ao segundo intento e que brilharia depois a rabejar o outro toiro do seu grupo) e o enorme José Maria Cortes Pena Monteiro à primeira, com a técnica, o poderio e a arte que fizeram dele o grande forcado destes últimos anos.

Pelos anfitriões do Grupo de Vila Franca pegaram Rodrigo Camilo (pega serena, tranquila e brilhante, ao primeiro intento, ao Sommer de 720 quilos!) e Miguel Faria (que não deixou de estar brilhante, esteve mesmo, pelo facto de ter consumado a pega à terceira tentativa - é um grande forcado). Contou com a poderosa primeira ajuda do cada vez mais destacado Diogo Sousa.

Passando para o toureio a pé, Daniel Luque bordou o toureiro na "Palha Blanco" - com a importante e empolgante particularidade de não ter trazido "dois badanos" do seu país, como outros têm feito, antes se disponibilizando a enfrentar dois toiros portugueses de Falé Filipe, o primeiro com menos importância, o segundo aplaudido mal entrou na arena, pelo seu trapio, pela cara que tinha, pela seriedade que desde logo impôs.

Daniel Luque realizou aplaudida faena ao terceiro toiro da tarde, mas sem a força e o impacto com que o fez depois no sério sexto, um toiro complicado e a pedir contas, aplaudido quando entrou na arena, ao qual sacou os passes que quis e muito bem lhe apeteceu, como se aquilo fosse a coisa mais simples e mais fácil do mundo, com muito ofício, muita entrega e, sobretudo, com fantástico profissionalismo.

Não veio cá enganar ninguém, sacar o dinheiro e abalar, como alguns dos que por cá têm passado... Daniel Luque veio a Vila Franca dar continuidade à sua temporada triunfal, como se estivesse na mais importante praça do mundo (e, afinal, a "Palha Blanco" até é mesmo uma delas!).

Presença de alto nível de Daniel Luque, a segunda nesta temporada, depois de em Agosto já ter triunfado na Nazaré. Um toureiro a repetir em 2027.

Intervenções merecedoras de aplausos dos bandarilheiros das quadrilhas dos dois cavaleiros - Diogo Malafaia, João Bretes, Joaquim Oliveira e Duarte Silva - e também da equipa de Luque, superiores com as bandarilhas e a lidar também.

Aplausos também, inteiramente merecidos, para a eficiente e aficionada direcção de Lara Gregório de Oliveira, que esteve assessorada pelo competente médico veterinário José Luis da Cruz.

Ao início da corrida guardou-se um minuto de silêncio em memória de Luis Campino, que integrava, com seu pai, a equipa de emboladores desta praça e que nos deixou cedo de mais, há um mês, vítima de doença oncológica.

Seguimos para Monforte e na terça voltamos a Vila Franca. Uma nota positiva para o som da praça, perceptível finalmente. 

Fotos M. Alvarenga



Miguel Moura - com que raça!



Tristão R. Telles - com que ousadia!




Daniel Luque - com que arte!