Miguel Alvarenga - Estão em cima duas fotos. Entre a primeira (momento da alternativa de Duarte Fernandes ontem no Campo Pequeno esgotado, concedida por seu tio Rui Fernandes exactamente no dia em que se cumpriram 28 anos do seu doutoramento nesta mesma praça) e a segunda (momento da saída em ombros de Duarte, que cruzou a porta grande com o público em verdadeiro delírio), passou-se uma autêntica revolução e a nova estrela ditou as leis que passarão a vigorar a partir de agora.
Duarte Fernandes é, por seu próprio mérito, a nova figura do toureio a cavalo. Já não podemos dizer apenas que "vai ser" figura - porque já é. Os empresários deste país têm a partir de agora nas mãos um diamante para mudar o rumo da Festa em Portugal - e os diamantes são eternos. Não esqueçam isso.
Se ainda houvesse um empresário como Manuel dos Santos, foi assim que ele apoiou e incentivou o aparecimento de Mestre Batista, Duarte Fernandes estava já no cartel da próxima corrida de Lisboa, com duas figuras consagradas e com toiros a sério.
Se ainda houvesse um empresário chamado Manuel Gonçalves, Duarte Fernandes estava já nos principais cartéis e nas grandes competições da temporada.
Apareceu finalmente um toureiro novo capaz de arrastar público às praças? De as encher e de trazer de volta à Festa todo o esplendor e toda a força dos tempos de Batista, de Zoio, de Moura, de Salgueiro, de seu tio Rui? O futuro se encarregará de dar a resposta a esta pergunta, que é a mais pertinente de todas as questões no momento.
A noite da alternativa de Duarte Fernandes esgotou o Campo Pequeno com quatro dias de antecedência. Vários factores, para além da alternativa, terão contribuído para isso, nomeadamente as presenças de Rui Fernandes e do número-um do toureio mundial Diego Ventura, as presenças dos forcados do Aposento da Moita e de Turlock na comemoração dos 50 anos destes, mas também a grande promoção que a empresa fez da corrida.
Voltará Duarte Fernandes a esgotar o Campo Pequeno? Ou outras praças? Os tempos mudaram, as contas são outras, mas penso que sim, que pode acontecer. Andamos há muitos anos, salvo raríssimas excepções, a viver na pasmaceira do mais do mesmo. Ontem, chegou a diferença. Duarte Fernandes é, sem nenhuma dúvida, a grande estrela da nova vaga. Se calhar mesmo, o "D. Sebastião" por que todos esperávamos para dar o abanão que faltava e salvar a Festa da preocupante monotonia em que se encontra, sem figuras, sem ídolos que levem gente às praças.
Este ano já houve outros sinais importantes. Os regressos de Salgueiro e de Bastinhas prometem trazer uma nova animação aos cartéis. Ora aqui está um cartel que acredito poder mexer com os aficionados: Salgueiro, Bastinhas e o Duarte. E outros, muitos outros.
Há muito tempo que não se via uma praça inteira num tão grande delírio como vimos ontem o Campo Pequeno na lide da alternativa e depois na lide do último toiro. Duarte Fernandes mexeu com todos nós.
É um toureiro que arrisca, que pisa, como se não fosse nada do outro mundo, a linha de fogo com um à vontade e uma segurança incríveis. Tem gancho com o público, tem cara e aprumo de toureiro; ontem, 28 anos depois, ainda por cima com a mesma casaca cor de creme que o tio usou nessa noite, parecia que o tempo tinha andado para trás e que estávamos outra vez a assistir à explosão de um novo figurão chamado Rui Fernandes, dessa vez ao lado dos maestros João Moura (padrinho da sua alternativa) e Pablo Hermoso (testemunha do acto).
A corrida de ontem teve um ambiente "à antiga". Como já tinha tido a anterior.
Respirava-se aficion e expectativa, as pessoas iam bem vestidas, arranjadas, parecia o Campo Pequeno de outros tempos.
Só faltou o elemento principal - e foi pena. Os toiros de Armando João Moura (ganadaria que se anuncia em nome de sua saudosa mãe, Maria Guiomar Cortes de Moura) não permitiram grande brilhantismo aos cavaleiros e dificultaram, como é costume, a vida aos forcados.
Faltou-lhes casta. Tinham apresentação, alguns com peso excessivo, e não foram fáceis. Exceptuando o primeiro, que se chamava "Triunfador" e não só triunfou, como permitiu a Duarte Fernandes um triunfo grande na sua alternativa, um toiro bravo e alegre, com transmissão (coisa que faltou depois aos outros), os restantes, sem destoarem, não foram toiros de lide fácil, eram na maioria reservados, parados, sem vontade de investir, o que em nada ajudou a mudar o rumo ao que poderia ter sido uma grande noite - e acabou por ser apenas uma noite sem o esplendor que se pretendia.
Duarte Fernandes esteve enorme a lidar o "Triunfador", com risco, com atitude, com convicção e ousadia, com arte e muita galhardia, entusiasmando, galvanizando o público, que o aplaudiu de pé e o consagrou logo ali como a nova estrela do toureio a cavalo. Brindou a lide da alternativa a dois importantes pilares da sua vida e da sua carreira: o avô e o tio. A segunda lide brindou-a a seus pais e sua irmã.
E foi outra lide em crescendo, a um toiro que, não tendo a qualidade do primeiro, teve algum som e transmitiu, investindo com nobreza e clareza, permitindo a Duarte protagonizar outro sucesso. Bem a lidar, a preparar as sortes, a cravar com emoção e em terrenos de compromisso, recriando-se com arrojadas piruetas na cara do toiro, três seguidas, praça em euforia, público em pé a consagrar a mais brilhante alternativa dos últimos anos em terras de Portugal.
Os dados estão lançados. Agora têm a palavra os senhores empresários. Pode ser uma questão de pegar ou largar. Mas se o largarem da mão, podem estar a deitar fora o futuro da nossa Festa. Pensem. Tomem atitudes. Cheguem-se à frente. O futuro tem um nome: Duarte Fernandes. 28 anos depois de ter tido outro: Rui Fernandes.
E 28 anos depois daquele que foi o primeiro dia do resto da sua vida, com carreira e trajectória de respeito consagrada por cá e lá fora, Rui Fernandes deu ontem duas lições de maestria e de técnica, de experiência e de bom gosto. Diferentes, mas ambos complicados, os dois toiros de Guiomar Cortes de Moura exigiram muito trabalho e Rui esteve "por cima" de ambos, mercê da sua maturidade, da sua apurada maestria.
Foram duas lides de emoção também - e onde faltaram toiros, esteve o toureiro. Em grande e a marcar a diferença. Duas lides de valor, a que pôs um ponto final com um emotivo par de bandarilhas, que falhou na primeira vez, mas consumou em grande na segunda, levantando o público.
Quando entrou em praça para lidar o seu primeiro toiro, Rui Fernandes foi homenageado pelos 28 anos de alternativa com breves palavras do crítico António Lúcio - que desta vez, aleluia, aleluia, se entenderam na perfeição, o que significa que alguém teve a preocupação de afinar a aparelhagem sonora da praça.
Ontem quem menos sorte teve foi Diego Ventura. Tocaram-lhe os dois piores, mais parados e mais complicados toiros da corrida. Ventura é genial e os seus cavalos são fabulosos, só lhes falta falar. Mas sem ovos nunca se fizeram omeletas. E ontem Diego não teve toiros, nem bons, nem maus, por mais que se tivesse esforçado para agradar.
Não deu volta à arena em nenhuma das lides. Não foi uma jornada fácil, esta de Ventura em Lisboa. Nem foi bom para a sua imagem. Acontece. Não deixa de ser Ventura, o primeiro. Mas ontem acabou por estar longe de si próprio. Não por sua culpa. Antes por falta de qualidade dos toiros (que ele próprio elegeu...).
Boas intervenções, sem excessos de capotazos, dos valorosos bandarilheiros dos três cavaleiros: Hugo Silva, João Santos, Jorge Alegrias, João Silva, Pedro Noronha e Miguel Batista.
Nas pegas, a que dedicaremos de seguida o habitual bloco com todas as fotos, estiveram, sem a vida facilitada, antes pelo contrário, os forcados do Aposento da Moita e os de Turlock, da Califórnia, que estão a comemorar o 50º aniversário da sua fundação.
Os toiros não foram fáceis para os forcados. Pelo Aposento da Moita pegaram o cabo Luis Canto Moniz (à primeira), António Lopes Cardoso (à segunda) e André Silva (à primeira). Pelos Amadores de Turlock foram forcados de cara Bryce Rocha (à quarta), Joseph Pereira (à primeira) e Fábio Vieira (também à primeira).
Os dois grupos de forcados brindaram as primeiras pegas a Duarte Fernandes; o Aposento da Moita, através de António Lopes Cardoso, brindou uma a João Moura, secretário de Estado da Agricultura, que assistiu à corrida no camarote da PróToiro; Rui Fernandes brindou a primeira lide a seu pai e a seu sobrinho e a segunda ao seu apoderado Andrés Caballero e a Diego Ventura; Ventura brindou a primeira actuação a Duarte Fernandes e a outra ao público.
A corrida decorreu em bom ritmo e com boa direcção de Ricardo Dias, que esteve assessorado pelo médico veterinário José Luis da Cruz. Os toques foram, como é habitual, da responsabilidade de José Henriques e a corrida foi abrilhantada pela Banda do Samouco.
Ao início, guardou-se um respeitoso minuto de silêncio em memória de António José Zuzarte, antigo cabo dos Amadores de Montemor, recentemente falecido.
Resumindo e concluindo: o toureio nacional tem uma nova e cintilante estrela. Se lhe vão dar maior brilho ou não, o futuro há-de dizê-lo. Mas de uma coisa tenho eu a certeza: se ainda houvesse um Manuel dos Santos, se ainda por cá andasse Manuel Gonçalves, tudo seria bem diferente. Acreditem.
Fotos M. Alvarenga
