segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Francisco Palha "rebentou a escala" outra vez em Alcochete!

Praça cheia ontem em Alcochete na primeira grande corrida da Feira do
Toiro-Toiro, a que se segue uma novilhada amanhã à noite e outra grande corrida
na quinta-feira, 16, também nocturna
António Telles em dois grandes ferros na lide do toiro da sua ganadaria de Vale
Sorraia, de bonita presença e que proporcionou uma boa lide
Triunfo clamoroso da casta de António Ribeiro Telles no quarto toiro da corrida
de ontem em Alcochete, um bravo exemplar da ganadaria São Torcato
Momentos da brilhante actuação de Vitor Ribeiro no segundo toiro da corrida, um
imponente exemplar da ganadaria do Dr. António Silva, vencedor do prémio
de apresentação 
Vitor Ribeiro de regresso com o mesmo fulgor e a mesma verdade de sempre, com
ferros de "alto risco", aqui no nobre toiro de Ascensão Vaz
Francisco Palha dedicou a lide à família de "Nené" e depois aos céus, à memória
do grande empresário, deixando o tricórnio poisado no centro da arena. E até
o toiro o respeitou, nunca o pisando...
Ferros de parar corações. Foi assim que Francisco Palha enfrentou o reservado
e sério toiro de Condessa de Sobral. Com esta ousadia e esta verdade. Partiu
a loiça toda!
Momentos de grande emoção da lide de Francisco Palha ao "toirão" de Canas
Vigouroux, uma verdadeira estampa. Em baixo, os vencedores do 36º Concurso de
Ganadarias Associadas: Sofia Silva Lapa (prémio de apresentação ao toiro do
Dr. António Silva, seu avô) e Manolo Vásquez (representante da ganadaria
Condessa de Sobral, a quem foi entregue o prémio de bravura sob fortes apupos
do público, que discordou da decisão do júri formado pelos próprios ganadeiros)


Com a firme decisão, a grande solidez e as ganas de um herói com que está a marcar esta temporada de absoluta consagração, Francisco Palha foi ontem o grande triunfador da primeira corrida da Feira de Alcochete, uma tarde também de sucesso para António Telles no seu segundo toiro e de uma imensa regularidade do regressado Vitor Ribeiro em duas lides brilhantes. Tarde de suprema glória para os Forcados Amadores de Alcochete numa jornada de mil emoções em que se homenageou a memória do seu ex-cabo "Nené". Praça cheia e um Concurso de Ganadarias com um resultado que deu polémica...

Miguel Alvarenga - Primeiro na lide de um toiro algo reservado da ganadaria Condessa de Sobral, que venceu, sem que se entendesse bem porquê, o prémio de bravura (sob fortes apupos do público discordante da decisão de um júri que era composto pelos próprios ganadeiros... e eles lá sabem!), depois na lide da "estampa" de Canas Vigouroux, que teve francas investidas e foi um toiro de uma imensa seriedade, com um enorme trapio, transmitindo emoção, Francisco Palha sagrou-se ontem, indiscutivelmente, grande triunfador, juntamente com os Forcados Amadores de Alcochete, da primeira corrida da Feira do Toiro-Toiro em Alcochete, com praça cheia e um ambiente muito grande e altamente emotivo pela homenagem e pela recordação da figura inesquecível e inigualável do grande empresário, dedicado apoderado e glorioso forcado António Manuel Cardoso "Nené". Foram emoções a mais, foram muitas lágrimas nos rostos de quantos com ele conviveram de perto e de todos os que o admiravam e ontem ali foram exactamente por isso. "Nené" marcou toda a gente. E ninguém o esqueceu.
Não quero com isto dizer que António Ribeiro Telles e Vitor Ribeiro não tenham estado muito bem - estiveram. Apenas quero realçar, em nome da justiça e em nome da verdade, que foi Francisco Palha quem ontem mais se destacou na lide dos seus dois toiros. Em ambos reafirmou a decisão, a atitude, as ganas e o grande momento que atravessa. Mexe nos toiros de maneira soberba, está no seu momento. E deu finalmente o grande grito do Ipiranga que o tem destacado do pelotão.
Lidou primorosamente os dois toiros, em ambos cravou ferros de parar corações, verdadeiramente impróprios para cardíacos, a entrar pelos toiros dentro num palmo de terreno e em sítios de enorme compromisso. O público entusiasmou-se, empolgou-se, levantou-se das bancadas. É assim que se toureia, é assim que nascem ídolos. E é pena que a maioria das empresas já tenha quase todos os seus cartéis rematados até ao final da temporada, porque o despique entre Palha e Duarte Pinto, depois do triunfo colossal no Campo Pequeno, era certamente e sem dúvidas um "duelo" que os aficionados queriam ainda ver este ano.
Palhinha ontem superou-se a ele próprio. Rebentou com o quadro, partiu a loiça toda. Está ultrapassado de vez o acidente de percurso que teve no Campo Pequeno, onde sem estar mal, não logrou confirmar os sucessos que alcançara em corridas anteriores. Francisco Palha está de novo em alta e decidido a marcar mesmo esta temporada. Com a decisão, a atitude e o espírito vencedor com que se vem destacando e marcando a diferença a todos os níveis.

Triunfo da casta do grande António

António Ribeiro Telles abriu ontem praça lidando um toiro exigente e muito sério da sua própria ganadaria Vale Sorraia, bravo, que cortava caminho e lhe pregou alguns "apertos" e um forte encontrão no terceiro comprido. A lide foi de menos a mais e nos curtos já António esteve ao seu melhor nível.
Mas foi no seu segundo toiro, um bravo exemplar de São Torcato, para mim o toiro mais bravo da corrida (mas não foi isso que consideraram os senhores ganadeiros), que em nada facilitou a vida ao grande Telles, que António esteve imponente, deitando cá para fora as suas ganas de toureiro genial e a imensa casta que lhe vai na alma de Toureiro consagrado e magistral.
Brega exemplar, lide excelente e ferros de verdade, de poder a poder, vencendo o piton contrário e cravando ao estribo e ao melhor estilo do classicismo que defende e impõe em todas as suas actuações. Ontem esteve à Mestre. Enorme!

Vitor Ribeiro de volta e para ficar!

Ainda não tinha visto Vitor Ribeiro este ano, desde que reapareceu depois de ter estado duas temporadas afastado das arenas nacionais. E vi-o igual a si próprio - como sempre. Bem montado, exímio equitador, com o mesmo coração e a mesma arte de todos os outros tempos.
Enfrentou em primeiro lugar um toiro sério, de grande emoção e excelente qualidade, da ganadaria do Dr. António Silva, vencedor do prémio de apresentação - pelo seu desmedido trapio, pela sua emotiva presença em praça. Não teria vindo nenhum mal ao mundo se este troféu tivesse contemplado o toiro de Canas Vigouroux, outra "estampa", mas na realidade este de António Silva era todo ele um toiraço de meter respeito.
Vitor Ribeiro esteve grande diante dele, lidando com emoção e cravando ferros em sortes frontais e em terrenos de "aperto" e de grande compromisso, com remates superiores e a levantar o público das bancadas.
No segundo do seu lote, quinto da ordem, da ganadaria Ascensão Vaz, outro toiro de boa qualidade, com trapio e transmissão, voltou Ribeiro a estar ao mais alto nível com ferros também muito emotivos e vistosa brega, provando que está de volta com o fulgor de antigamente - e que veio para ficar e reocupar o lugar que lhe pertencia.

Glória aos Amadores de Alcochete

Como já aqui se referiu e se mostrou, os Forcados Amadores de Alcochete tiveram ontem, como costumam, aliás, ter sempre nesta corrida, uma tarde de imensa glória. É um dos grandes grupos deste país e ontem vivia uma jornada particularmente emotiva e de grande significado pelo facto de se homenagear a memória do grande empresário desta praça e seu antigo cabo, o nosso querido "Nené".
Seu filho António José Cardoso rendeu-lhe a maior das homenagens com uma pega verdadeiramente colossal ao primeiro toiro da corrida, consumada ao primeiro intento com uma ajuda enorme de João Rei e ele a aguentar antes fortes derrotes sem nunca desarmar. Tal pai, tal filho. Seguiu-se o cabo Nuno Santana, com outro pegão à primeira. O terceiro toiro foi pegado de cernelha com decisão, mas sem "resposta" do toiro, que se "rendeu" sem dar luta, por Daniel Silva e Emanuel Freitas. Para a cara do quarto toiro foi o valente Manuel Pinto, que consumou vistosa e rija pega à segunda. João Belmonte pegou com brilhantismo o quinto toiro da tarde e João Machacaz fez-se ao poderoso toiro de Canas Vigouroux, o último, com a raça e o valor que lhe reconhecemos, consumando à segunda com, também, uma primeira ajuda decisiva do grande João Rei.
Destaque para a eficácia e a coesão de todo o grupo nas ajudas às cinco pegas de caras, com especial destaque para o já citado João Rei, para Diogo Thorn e ainda para André Pinto Tavares, que ontem se fardou pela última vez, pondo termo a uma carreira de grande valor ao serviço dos Amadores de Alcochete.
Estiveram quase sempre bem, sobretudo na colocação dos toiros para as pegas, os bandarilheiros que ontem actuaram em Alcochete, havendo apenas e só a lamentar algum excesso de capotazos durante as lides, desnecessários e prejudiciais, mas pelos vistos isso agora está na moda...

Detalhes de uma tarde emotiva

Foi uma tarde emotiva e de alguns detalhes. Houve brindes de todos os intervenientes, cavaleiros e forcados, a Paula Cardoso, viúva de "Nené", e também a seus filhos, brindes aos Forcados de Alcochete, à Banda de Alcochete e a outras figuras.
Durante a sua lide com o cavalo "Alcochete", António Telles atirou o seu tricórnio ao Dr. Carlos Ferreira, o criador desse fantástico craque da sua quadra. Numa outra ocasião, António descobriu entre o público Duarte Pinto e dedicou-lhe um ferro "pela forma como o vi tourear tão bem na quinta-feira no Campo Pequeno".
E Francisco Palha brindou a primeira lide à viúva e aos filhos de "Nené" e depois aos céus, deixando o tricónio poisado no meio da arena. No segundo toiro, brindou aos Forcados de Alcochete e à Banda e a meio da lide dedicou um ferro a José Prates, "para lhe agradecer a sua simpática mensagem". Também Vitor Ribeiro teve brindes para a família de "Nené".
Ao intervalo, como já aqui se destacou hoje, António Pinto Basto e Francisco Sobral cantaram dois fados dedicados a "Nené", acompanhados pela Banda de Alcochete e a seguir foi descerrado nos corredores da praça um bonito painel de azulejos que imortaliza para todo o sempre nesta praça aquilo que já de si estava para sempre imortalizado: a memória de "Nené" na sua menina dos olhos.
No final anunciou-se a decisão do júri, composto pelos próprios ganadeiros, que atribuiu o prémio de apresentação ao toiro do Dr. António Silva (decisão unânimemente aplaudida), tendo sido Margarida Cardoso quem o entregou à jovem ganadeira Sofia Silva Lapa; e o prémio de bravura à ganadaria Condessa de Sobral (há já uns anos propriedade da família Domecq), havendo aqui a registar os sonoros protestos do público. Ninguém entendeu esta decisão... O prémio foiu entregue por Carlos Ferreira a Manolo Vásquez, representante da divisa (estava também na praça o rejoneador Álvaro Domecq).
A corrida - da mais emotivas desta temporada - foi dirigida por Pedro Reinhardt, com a usual postura, rigor e aficion, que esteve ontem assessorado pelo médico veterinário Dr. Jorge Moreira da Silva.
Esteja ele onde estiver, não tenho dúvidas que o nosso querido "Nené" se  emocionou até às lágrimas - como eu, como todos.

Fotos Emílio de Jesus