| Campo Pequeno celebra este ano o 130º aniversário da sua inauguração (18 de Agosto de 1892) e a glória de por lá terem passado mais de 13 milhões de espectadores para assistir a corridas de toiros! |
Miguel Alvarenga - Invadindo a Ucrânia, já lá vão 21 dias, o tirano Putin acabou com a pandemia (mas ela continua aí e até se anuncia mais uma nova vaga, pese embora o facto de nunca mais termos ouvido falar da covid, e dos mortos e dos infectados, nos noticiários das televisões...), fez-nos esquecer que já lá vão quase dois meses depois das eleições e ainda nem sequer temos Governo nem Assembleia da República, apagou das memórias os escândalos judiciais que por aí pairavam, nunca mais ninguém se lembrou do pobre Rendeiro, a apodrecer numa cadeia sul-africana, e, pelos vistos, até deixou os aficionados indiferentes ao facto de já termos entrado na segunda quinzena de Março e ainda nada se saber da temporada do Campo Pequeno, a primeira praça do país, a que reclamavam ser "a Nossa Casa" e também a Catedral do Toureio em Portugal.
Luis Miguel Pombeiro, o gestor taurino do Campo Pequeno, vai "desculpando" o empresário musical Álvaro Covões (actual adjudicatário da primeira praça de toiros nacional) com o facto de não ter dado concertos (objectivo pelo qual adjudicou a praça, propriedade da Casa Pia) nos últimos dois anos por causa da pandemia e de os ter que dar todos agora de uma assentada, o que deixa poucas datas livres para a realização das touradas.
Muito bem, não discordo da alegação. Mais: os homens dos toiros tiveram todas as hipóteses de salvar a situação, de se juntarem (mas o problema é que não deve existir gente tão pouco unida como a dos toiros...) e comprarem eles próprios a adjudicação do Campo Pequeno. Não o fizeram. Deixaram que o fizesse Álvaro Covões. Agora não se podem queixar. Não têm a mínima autoridade moral para o fazer.
O Campo Pequeno era, foi, durante mais de 100 anos, "a Nossa Casa" - como rezava o cartaz que os toureiros exibiram em Fevereiro de 2020 no último Dia da Tauromaquia realizado em Lisboa. Agora é antes a Casa do Senhor Álvaro Covões. E dos Concertos. E ninguém se pode queixar disso. Não têm, repito, a mínima autoridade moral para o fazer. Se quisessem que continuasse a ser "a Nossa Casa", que a tivessem comprado.
Ainda nem todos terão entendido que o Campo Pequeno foi, durante 130 anos, uma Praça de Toiros, a mais importante do país e uma das mais cotadas do mundo, onde se realizavam corridas de toiros e, de quando em vez, um ou outro concerto musical; e hoje é um Centro de Lazer, uma sala de espectáculos, onde se realizam concertos e, de quando em vez, uma ou outra tourada...
Álvaro Covões não tem, nem quer ter, nada a ver com touradas. O seu negócio e a sua vida são a música, os concertos, o mundo do espectáculo. Está no seu direito. Ninguém o pode obrigar a gostar de touradas, muito menos a promover touradas. Mas não se pode esquecer de que comprou a adjudicação de uma Praça de Toiros. Inaugurada há 130 anos precisamente para dar touradas. É verdade, este ano, a 18 de Agosto, cumpre-se o 130º aniversário da inauguração da Praça de Toiros do Campo Pequeno, que só esteve encerrada entre 2000 e 2006 para as obras monumentais de recuperação e remodelação, a cargo da Família Borges - injustamente esquecida pelos homens dos toiros e à qual nunca ninguém soube agradecer, nem homenagear, por tudo aquilo que fez na e pela Catedral - e pela qual passaram nestes 130 anos mais de 13 milhões de espectadores para assistir a corridas de toiros!
Agora, entrámos na segunda quinzena do mês de Março e ainda ninguém percebeu se vão ou não realizar-se corridas de toiros no Campo Pequeno em 2022. E, bem mais grave que não se perceber, é o facto de ninguém se manifestar minimamente preocupado com essa incógnita...
Luis Miguel Pombeiro, com quem falei há momentos, garante-me que no início de Abril realizará uma gala para apresentação dos quatro cartéis de 2022 no Campo Pequeno: corrida inaugural em Julho, duas corridas em Agosto e uma última em Setembro.
"É a temporada possível, face aos compromissos que a empresa de Álvaro Covões tem para a realização dos concertos que não pôde levar a efeito nos dois anos da pandemia", diz Pombeiro, mas promete que "serão quatro grandes acontecimentos" e anuncia os nomes de Pablo Hermoso de Mendoza, de Morante de la Puebla, de Andrés Romero, uma alternativa (a do cavaleiro Joaquim Brito Paes) e a presença das principais figuras do toureio nacional, como os cavaleiros António Ribeiro Telles, Luis Rouxinol, Moura (sem especificar quais dos Mouras), Francisco Palha, Duarte Pinto e outros, assim como das melhores ganadarias e dos mais consagrados grupos de forcados.
Neste momento, empresas como as de Évora, de Coruche, de Vila Franca de Xira e Santarém já apresentaram os grandes cartéis das suas respectivas temporadas. Outras, como a de Almeirim (com Pablo Hermoso a 10 de Abril), a de Alcochete (a negociar com "El Juli" para uma corrida fora de série), a da Nazaré (onde se vão realizar cinco grandes corridas e um espectáculo cómico-taurino), para falar apenas destas três, também já estão a rematar os seus grandes elencos de 2022.
Luis Miguel Pombeiro começa a ficar, cada vez, com menos opções para promover elencos diferentes dos que já estão anunciados. E corre o sério e perigoso risco de repetir cartéis já agendados para outras praças, ou que, pelo menos, já não constituirão novidade (a não ser que ressuscite "Manolete"... o que me parece deveras improvável), sujeitando-se a que o público, depois, não acorra à Catedral e dando assim de mão beijada a Álvaro Covões o argumento de que "não vale a pena dar touradas porque os aficionados não vêm"...
Conheço e sou amigo de verdade do Luis Miguel Pombeiro há mais de quarenta anos. Entendo todas as condicionantes que "tem em cima" - a falta de mais datas para dar corridas, a pressão motivada pelo facto de Covões querer dar, com toda a legitimidade, diga-se em abono da verdade, todos os concertos que não deu devido à pandemia, a indefinição e a alarmante incerteza em que viveu estes últimos meses com os nervos à flor da pele -, mas reconheço, porque sei, que ele é um lutador, um batalhador pelas suas causas e que vai levar o barco a bom porto e tranquilizar tudo e todos quando em Abril anunciar os grandes (mesmo que poucos) cartéis do Campo Pequeno.
Estranho apenas, isso estranho, a aparente indiferença com que têm lidado com toda esta incerteza todos os agentes do mundo tauromáquico português, nomeadamente os próprios toureiros, os ganadeiros, a dita imprensa taurina, as instituições representativas da classe, as ProToiros que temos e demais congregações que se dizem defensoras da Tauromaquia. Nem uma palavra, muito menos um gritinho que fosse, sobre a indefinição da temporada na capital. Comem e calam?
Vamos ter temporada, mesmo que curta - garante Pombeiro. Mas até aqui, ninguém percebia bem se a teríamos. E também ninguém parecia minimamente preocupado com isso - à excepção do Luis Miguel Pombeiro. Estranha gente, esta dos toiros...
Fotos D.R. e M. Alvarenga
| À espera da temporada... Uma foto que diz tudo |
| Morante de la Puebla: o génio do toureio a pé é uma das apostas do empresário Pombeiro para a temporada de 2022 |
| Já foi, sim senhor. Já não é, não senhor... |
