Miguel Alvarenga - Embora oficialmente classificada como "de terceira categoria", a bonita, bem cuidada e acolhedora praça de toiros de Paio Pires, no concelho do Seixal, conquistou há já alguns anos o estatuto de praça de primeiríssima importância no panorama taurino nacional e não me engano nada se afirmar que muito em breve ela pode ser uma das principais alternativas à cada vez mais "sem relevância" antiga Catedral do Toureio Nacional, que foi a do Campo Pequeno.
E isto acontece pelo mérito do Paio Pires Futebol Clube (entidade proprietária da praça) e do seu Departamento Taurino composto pelos antigos forcados (do Grupo de Lisboa) Nelson Lopes e António José Casaca; e, de há uns anos para cá, também ao empenho com que o cavaleiro Rui Fernandes ali promove esta corrida-extra no mês de Junho - que ontem se voltou a realizar com praça cheia e um ambiente de entusiasmo, de classe e de glamour como o eram, noutros tempos, as nocturnas de quinta-feira no Campo Pequeno "que Deus tem"...
A corrida de ontem começou às dez da noite e quando acabou era quase uma e meia da manhã - tinha sete cavaleiros o cartel. Aceitam-se num enquadramento destes, numa praça destas e num palco marcado pelo permanente entusiasmo com que o público aficionado acorre há vários anos a esta localidade para assistir às corridas. Não tem nada a ver com a inaceitável postura adoptada pela empresa do Campo Pequeno de, em apenas quatro touradas, promover duas de sete toureiros que não têm, nem de perto nem de longe, a categoria e a dimensão das duas primeiras da temporada. Essas primeiras têm o selo do empresário José Maria Charraz - que ontem assistiu à corrida de Paio Pires na trincheira. As outras duas traduzem os conhecidos compromissos do empresário Luis Miguel Pombeiro. E o Campo Pequeno não é isso. Não pode ser isso. Adiante.
Ontem em Paio Pires lidaram-se seis toiros de quatro anos e um novilho da ganadaria de Alves Inácio, toiros de linha Murube, mas com transmissão, com emoção, até com exigência e alguns "a meter mudanças", sem a costumeira moleza que caracteriza estes encastes "mais amiguinhos dos toureiros", menos agressivos.
Na generalidade, todos os cavaleiros estiveram em alto nível, proporcionando ao público uma agradável e bem ritmada noite de toiros, daquelas que fazem nascer novos aficionados e que muita falta fazem à Festa. Foi uma corrida à maneira antiga, com estilos para todos os gostos.
Triunfou quem? Triunfaram todos - o que é raro acontecer.
Para mim, que ainda resisto e ainda gosto disto a sério, houve quatro primeiras lides de encher as medidas aos bons aficionados.
António Ribeiro Telles deu lição de cátedra com um belíssimo toiro de Alves Inácio, cada vez mais "estilo Vinho do Porto", mais "velho" e com melhor sabor. Um grande toureiro, ainda e sempre na linha da frente e a ensinar gerações.
Rui Fernandes vive um momento de grande esplendor, de superior maturidade e de verdadeira maestria. Lide exemplar, com brega a primor a outro toiro de nota alta, ferros de emoção e verdade e depois a novidade (que já tem praticado em Espanha) de cravar um par de bandarilhas (que não resultou à primeira, mas foi depois executado com perfeita consumação e muito aplaudido pelo conclave).
Manuel Telles Bastos protagonizou ontem aquela que pode ficar na história como uma das melhores actuações desta temporada, até ao momento. Manuel, a cumprir vinte anos de alternativa, vive também um momento de completa e reconhecida maestria, está muito bem montado, superiormente moralizado e a tourear como nunca - a desfrutar de tudo aquilo que faz bem feito. O toiro era bravo, investia com alegria ao chamamento do cavaleiro e Manuel deu-lhe sempre a prioridade, deixou-o vir, aguentou, para depois de quartear num palmo de terreno e cravar ferros de uma verdade tremenda. Toureiro à antiga e toureio à antiga maneira. Assim se toureia!
Antes de um curto intervalo, entrou em cena o irreverente e explosivo Duarte Fernandes. E Paio Pires veio abaixo com a entrega, com a raça, com o toureio de alto risco deste jovem que não me canso de aclamar como o maior caso do toureio equestre dos últimos tempos e, indiscutivelmente, o primeiro da nova vaga.
Vai tomar a alternativa em Agosto no Campo Pequeno e não tenho a mínima dúvida de que depressa vai esgotar a lotação da praça para o ver a competir com o tio Rui e com o impagável Diego Ventura.
Ontem, como há um ano nesta mesma Arena de Paio Pires, Duarte foi a grande imagem do futuro. Se os empresários de hoje fossem Manuéis dos Santos, Manuéis Gonçalves e outros que tais, o toureio e a Festa estariam de outra maneira. Bastava anunciarem este Duarte nas grandes competições da temporada, como Manuel dos Santos fez com Mestre Batista, como Manuel Gonçalves fez, por exemplo, no seu tempo, com Luis Rouxinol, quando todos o quiseram travar. E com outros.
Está aqui um cavaleiro para revolucionar isto "de alto a baixo". Estão à espera de quê os senhores empresários? É que se continuarem a dormir, esquecendo valores como este, como Prates, como Parreirita Cigano, insistindo nos cartéis de "mais do mesmo", qualquer dia isto acaba... ou se calhar até já acabou e nós é que ainda não demos por isso...
Depois do intervalo foi a estreia europeia do promissor rejoneador mexicano Javier Funtanet, jovem ginete de dinastia que é hoje a nova estrela do toureio a cavalo no seu país. Sobrinho do saudoso Eduardo Funtanet (vítima de colhida mortal na Monumental do México), filho do antigo rejoneador Francisco Funtanet (a quem ontem brindou a sua lide) e irmão do também cavaleiro José Funtanet, o jovem Javier tem maneiras, tem noção de lide, tem belíssimos cavalos e demonstra uma segurança e um profissionalismo de se lhe tirar o chapéu.
Não acusou minimamente o peso de estar a debutar na Pátria do toureio a cavalo e de se seguir às quatro actuações magistrais dos cavaleiros que o antecederam. Praticando um toureio emotivo, de risco e a chegar com entusiasmo ao público, Javier Funtanet foi uma agradável surpresa e pode animar alguns elencos nas nossas praças - para que não seja sempre tudo tão igual, tão rotineiro e, às vezes, tão chato e tão cansativo.
Terminou com dois ferros em sorte de "quiebro" ao contrário, como fazia o saudoso Ginés Cartagena, que levaram o público ao rubro. Nota alta no debute europeu de Javier Funtanet.
Vasco Veiga foi o sexto cavaleiro a entrar em cena, com a habitual postura clássica, sem tirar o tricórnio, à antiga maneira. Um jovem que está a deitar cartas e que está a chamar as atenções. Começou muito bem, com dois emotivos ferros compridos a "entrar pelo toiro dentro", teve depois alguns altos e baixos a meio da lide, mas terminou de novo em beleza com dois curtos de nota superior. Soma e segue o jovem Veiga.
E esta agradável e, repito, muito ritmada noite de toiros (pena não serem assim todas as corridas...) terminou com a actuação do jovem cavaleiro amador Bruno Nery, natural desta zona da Margem Sul, pupilo de Rui Fernandes, que contava com uma falange de entusiasmados apoiantes na bancada a torcer por si.
Saíu com pata o novilho de Alves Inácio. Tinha "gatos na barriga" e não se parava por nada deste mundo. Com a ousadia e a raça, e o valor, de aguentar a fortíssima carga do oponente sem a intervenção dos bandarilheiros, Bruno Nery resolveu com aprumo a papeleta, sem pestanejar, evidenciando decisão e atitude.
Embora pouco toureado em praça e ainda em arranque de carreira, teve pormenores reveladores de que tem fibra e argumentos para poder andar. Agradou e não destoou numa noite que foi de triunfos repartidos entre todos os intervenientes.
Sem intervenções excessivas, belíssimas presenças em praça de todos os muitos bandarilheiros que coadjuvaram as actuações dos cavaleiros, havendo a destacar a presença do antigo matador "Juanito", agora bandarilheiro.
Nas pegas, estiveram os Amadores de Lisboa e os Amadores da Moita, com sete pegas nem sempre facilitadas dada a exigência e a superior qualidade dos toiros de Alves Inácio.
Pela formação lisboeta pegaram Duarte Nascimento à segunda; Tiago Silva à terceira;e Miguel Santos e Duarte Fernandes, ambos ao primeiro intento.
Se avaliarmos por tentativas de execução das respectivas pegas, há que reconhecer que os Amadores da Moita levaram ontem a melhor com três pegas ao primeiro intento - por intermédio de João Pombinho, Luis Chatinho e João César. O grupo esteve muito bem a ajudar.
A corrida foi muito bem dirigida pelo eficiente delegado técnico Tiago Tavares, que esteve assessorado pelo médico veterinário José Luis da Cruz. Ao início da corrida foi guardado um minuto de silêncio em memória do aficionado local Rogério Santos.
E mais logo (depois de Santarém) voltamos aqui para mostrar as fotos das sequências das sete pegas, os melhores momentos das actuações dos sete cavaleiros e os muitos Famosos que ontem deram um ambiente "à antiga", uma vez mais, a esta importante Arena de Paio Pires, praça que foi inaugurada em 1976 (cumpre 50 anos), que esteve inactiva vinte e que foi depois recuperada e reinaugurada em 2018.
Segue-se o já afamado Concurso de Ganadarias em 31 de Julho, com três toiros espanhóis e três portugueses e mais um cartel diferente e que não é "mais do mesmo" (cartaz em baixo). E este ano haverá ainda uma terceira corrida comemorativa do 50º aniversário da inauguração da praça, que deverá ser de seis cavaleiros e muito provavelmente de gala à antiga portuguesa para assinalar a efeméride.
Esta praça, já o disse aqui, aguenta perfeitamente quatro ou cinco corridas por ano, pode rapidamente transformar-se numa praça de temporada e assumir um papel alternativa à media que Lisboa for perdendo, infelizmente e como está a acontecer, categoria e relevância...
Voltaremos em fins de Julho a Paio Pires!
Fotos M. Alvarenga
| Maestria e cátedra - António Ribeiro Telles |
| Maturidade e permanente inovação - Rui Fernandes |
| Assim se toureia! - Manuel Telles Bastos |
| Irreverência, diferença! - Duarte Fernandes |
| Debute europeu triunfal - Javier Funtanet |
| Um cavaleiro em permanente ebulição, a afirmar-se - Vasco Veiga |
| Raça e atitude - Bruno Nery |
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| A próxima noite em Paio Pires - Concurso de Ganadarias a 31 de Julho (21h30) |

