segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Alcochete: Rui Fernandes marcou a diferença e repartiu as maiores ovações da tarde com os valentes forcados

Maestria, consistência, bom gosto - Rui Fernandes (nesta foto
dando a volta à arena com o empresário e cabo António José
Cardoso) repartiu ontem com os Amadores de Alcochete as
maiores ovações da tarde no Concurso de Ganadarias

Miguel Alvarenga - Num ano em que por tudo e por nada se realizaram concursos de ganadarias em quase todas as praças e a pretexto sabe-se lá do quê, se calhar da falta de curros completos, o Concurso de Alcochete, que se realizou ontem, como sempre, no domingo solene da Feira do Toiro-Toiro, continuou rotulado como um dos melhores e de maior prestígio. Os filhos do saudoso empresário "Nené" jamais deixaram de o dignificar, dando continuidade ao trabalho sério e dinâmico do nosso sempre recordado António José Cardoso.

As ganadarias de ontem eram seis das melhores e mais credenciadas. Mas a história é sempre igual, os toiros são como os melões, só lhes tomamos o gosto e descobrimos a bravura (ou não) depois de abertos.

Apresentação e trapio tinham eles todos. Bravura, nem por isso. Destacaram-se o de Ribeiro Telles, bravo e com muita transmissão, superiormente lidado em primeiro lugar por Rui Fernandes; e o de Passanha, lidado em segundo lugar com altos e baixos por Luis Rouxinol Júnior, um toiro bravo, nobre, com excelente presença e a transmitir emoção, a arrancar-se com alegria de todos os lados. Foram estes os vencedores dos prémios de bravura e apresentação, decisão assumida pelo júri composto pelos seis ganadeiros e que não motivou qualquer protesto por parte de público.

Foi bom, mas sem romper, limitando-se a cumprir bem, o toiro de Joaquim Brito Paes, que coube a João Ribeiro Telles lidar em segundo lugar; exigiu e pediu contas o de Cunhal Patrício também superiormente toureado por Rui Fernandes (ontem, o mais destacado dos três cavaleiros) em quarto lugar; marcou presença e pediu contas o bonito toiro de Branco Núncio com que João Telles obteve um bom triunfo em quinto lugar; e por fim, descompôs a tropa toda o toiro sobrero de Passanha, muito bem apresentado, outro toiro a dar emoção à tarde, cheio de sentido e de poder, que Rouxinol Jr. enfrentou com mais decisão que o seu primeiro e que no final deu água pela barba e muita sopa de corno aos valentes forcados de Alcochete...

O toiro da credenciada ganadaria coruchense Lopes Branco, de que tão bons frutos temos visto nos dois últimos anos, nomeadamente na corrida de Setembro em Sobral de Monte Agraço, onde a ganadaria tem sido muito merecidamente repetida e voltará a sê-lo este ano, desta vez destoou e não honrou o bom nome da divisa. 

Saíu em terceiro lugar para Luis Rouxinol Júnior - que, diga-se de passagem, se apercebeu do que ali estava e nem o quis ver de longe, quanto mais de perto. Houve quem alvitrasse que o toiro "via mal", mas era desculpa de mau pagador: investiu com tanta clareza para o capote de Ricardo Alves que deu logo a entender que até era capaz de ver mosquitos na Outra Banda...

Era, pura e simplesmente, um toiro perdido de manso. Mas os mansos também se toureiam. Rouxinol andou ali para trás e para a frente, dizendo por gestos que o toiro não servia, negando-se a cravar o ferro. E depois de andarmos alguns minutos nisto, o director de corrida Ricardo Dias e o médico veterinário José Luis da Cruz mandaram recolher o toiro...

O toiro não coxeava, via bem a quilómetros de distância, não tinha qualquer anomalia para além da assustadora mansidão demonstrada. Isso é razão para recolher um toiro?... Muito confusa anda a nossa Festarola...

Vamos ao que aconteceu.

Rui Fernandes atingiu um plano de maestria e maturidade, de consistência e de segurança, que fazem hoje dele uma das principais figuras do nosso toureio a cavalo, pena só que toureie pouco por cá - este ano até está a tourear mais e ainda bem que o faz, que sempre vai marcando a diferença e abanando a monótona moda do mais do mesmo...

Lidou com suprema elegância e bom gosto, aprumando-se em todos os detalhes, cravando com emoção e rematando as sortes com poderio e temple, o primeiro toiro da tarde, o bravo e premiado exemplar da ganadaria Ribeiro Telles, um toiro que cresceu e muito transmitiu.

Em quarto lugar toureou o toiro de Cunhal Patrício (lide brindada a João Salvação "Ninan", ex-cabo dos forcados do Aposento do Barrete Verde), que não era o que estava apartado para a corrida e que se inutilizou na embolação. O toiro tinha teclas, era exigente e pedia contas. Rui Fernandes deu-lhe as continhas todas, lidou-o com saber e arte, esteve a gosto, desfrutou, está um Senhor Toureiro! Marcou toda a diferença.

João Ribeiro Telles toureou em segundo lugar o toiro de Joaquim Brito Paes, que apenas cumpriu sem a excelência com que o fizeram os irmãos lidados na primeira corrida desta feita. Andou regular o cavaleiro da Torrinha, sem um brilhantismo por aí além.

No quinto toiro, o sério e bem apresentado representante da ganadaria Branco Núncio, um toiro que impôs respeito e transmitia seriedade, esteve João Ribeiro Telles no seu melhor, bregando com acerto, lidando com arte, cravando com destacada emoção, levantando o público das bancadas.

Luis Rouxinol Jr. andou ontem algo aquém dele próprio. Pode ter acusado o cansaço e o stress de haver toureado na véspera na Ilha Graciosa, ter vindo a correr a Alcochete e regressar outra vez à ilha açoreana, onde toureia novamente esta segunda-feira. Pode ter sentido a divisão da quadra de cavalos. 

Não quis ver o toiro manso de Lopes Branco, lidou em terceiro lugar o Passanha que deveria tourear em último lugar e começou logo por levar um valente aperto contra as tábuas, limitando-se depois a lidar sem a alegria e a dinâmica que o caracterizam. O toiro, que ganhou merecidamente o prémio de apresentação, foi bravo e apertou, tinha emoção e transmitia a seriedade que marca os momentos de verdade.

Em sexto lugar lidou outro toiro de Passanha, o sobrero, voltando a cumprir apenas. O toiro impôs-se e impôs respeito. Rouxinol esteve acertado, apontou bons ferros e a lide decorreu até com música, mas sem um esplendor por aí além.

Em fim de festa, quase a estragando, o Passanha deu água pela barba aos forcados Amadores de Alcochete, que optaram por o tentar pegar de cernelha com a valorosa dupla Miguel Direito (cernelheiro) e João Ferreira (rabejador). Pese embora a entrega e o esforço dos campinos no seu trabalho, o toiro esteve sempre de olho nos forcados, com um sentido e um poder que anunciaram desde logo que vinha ali uma carga de trabalhos. E assim foi.

Por diversas vezes tiveram a cernelha praticamente consumada, mas acabou sempre por dar para o torto.

Já com algum alvoroço entre tábuas e vários forcados antigos a dar apoio ao grupo, tentou-se a pega de caras, a sesgo, mas na primeira abordagem o toiro levou todos pela frente, sendo o já bastante maltratado e visivelmente diminuído Miguel Direito o forcado de cara. É um facto contra o qual me bato há anos. Devia haver lei, regras, que não permitissem que um forcado (ou um toureiro) neste estado fosse outra vez ao palco (arena) enfrentar o toiro. 

Verdadeiro herói da tarde, Miguel Direito acabou por consumar a pega, depois de quase meia-hora em praça, tempo demasiado, mas que o director de corrida Ricardo Dias permitiu que assim fosse e se arrastasse, não o critico, antes reconheço a sua condescendência e a sua aficion, o seu estatuto de antigo forcado para deixar a coisa andar até que os valentes forcados de Alcochete salvassem, como salvaram, a honra do seu convento. É preciso, às vezes, haver excepções para depois se confirmarem as regras. Ricardo Dias esteve bem. Melhor dizendo, não se pode dizer que tenha estado mal de todo.

As outras cinco pegas valeram a tarde e reafirmaram a grandeza dos Amadores de Alcochete, grupo onde parece finalmente ultrapassada a tempestade (causada por divergências eternas quando foi empossado o novo cabo) e a cujo seio, felizmente, voltou a bonança - pelo menos evidente com as presenças na trincheira, ao lado do grupo, dos antigos cabos João Pedro Bolota e Nuno Santana, que na última temporada tinham andado meio arredados.

Miguel Direito dedicou, aliás, a pega de cernelha a estes dois antigos cabos e também a Vasco Pinto, que assistia num camarote. 

As cinco pegas de caras que antecederam a cernelha foram consumada por Miguel Cruz (à segunda); João Pereira (à primeira); pelo "menino" Pedro Nascimento, outra vez em grande (à primeira, um pegão como o que fizera na sexta-feira!); o cabo António José Cardoso (à segunda) com uma primeira ajuda fabulosa de Gonçalo Catalão, que o acompanhou na volta à arena; e Vitor Marques (à primeira) - a seguir, publicaremos o habitual bloco com todas as fotos das seis pegas, fique por aqui.

Desta vez, assim sim, não foi ignorada a honrosa presença, a presidir à corrida, do aficionado presidente da Câmara Fernando Pinto, tendo-lhe o Grupo de Alcochete dedicado a sua primeira pega, por Miguel Cruz. Um político que defende a tauromaquia sem complexos e honra sempre a tradição taurina da sua vila ribeirinha assistindo às corridas na praça

Uma palavra de apreço e um aplauso às boas intervenções dos seis bandarilheiros que coadjuvaram as lides dos cavaleiros: Hugo Silva e João Santos (equipa de Rui Fernandes), Duarte Alegrete e Diogo Fernandes (João Telles), Ricardo Alves e João Martins (Rouxinol Jr.).

Excelente direcção, como acima referi, do diligente e muito aficionado Ricardo Dias, que esteve ontem assessorado pelo reputado médico veterinário José Luis da Cruz.

E na terça à noite há mais - a terceira e última corrida da importante Feira do Toiro-Toiro. Segue-se na quinta um espectáculo, sempre emotivo, de recortadores. Alcochete viva a sua semana de festa em grande.

Fotos João Silva e M. Alvarenga

Um "casão" ontem em Alcochete