Miguel Alvarenga - A praça de toiros de Paio Pires, no concelho do Seixal, Margem Sul do Tejo, a escassos quilómetros de Lisboa, modernamente denominada agora como Paio Pires Arena, inaugurada em 25 de Setembro de 1976 e reinaugurada, totalmente remodelada, em 3 de Agosto de 2018, depois de ter estado vinte anos inactiva, ganhou em oito anos um importante estatuto no panorama taurino nacional, mercê do sério, cuidado e empenhado trabalho levado a cabo por uma dupla digna dos maiores aplausos: António José Casaca e Nelson Lopes, antigos forcados dos Amadores de Lisboa, constituem o núcleo de trabalho do Departamento Taurino do Paio Pires Futebol Clube, proprietário da praça, e em poucos anos (oito, desde a reabertura) lograram colocar esta praça de novo no mapa e nos roteiros taurinos nacionais.
Uma primeira corrida em Junho e outra em Agosto, pelas festas da aldeia de Paio Pires, têm sido, nos últimos anos, as datas das corridas na praça - a primeira, organizada em parceria com o cavaleiro Rui Fernandes; a segunda, um já tradicional concurso de ganadarias ibérico, com três toiros portugueses e três espanhóis, das mais importantes ganadarias dos dois países. Ontem, ficou de pé a possibilidade de passar a contar com uma terceira data. Não era mal pensado.
Este ano, para comemorar o 50º aniversário da inauguração da praça, os empresários decidiram apostar nesta terceira data, arriscando apresentar um cartel diferente do habitual, maioritariamente composto por jovens cavaleiros da nova vaga, dando-lhes a oportunidade de se mostrarem e de, eventualmente, ganharem um posto num dos cartéis de força da próxima temporada. O público correspondeu e preencheu pouco mais de meia casa, o que se pode considerar uma vitória empresarial e, sobretudo, uma resposta muito positiva por parte dos aficionados, face à menor força do elenco em relação aos costumes habituais.
A aposta dos empresários passou também pelos toiros, um factor sempre tido em conta por António José Casaca e Nelson Lopes, sempre com o objectivo de garantir verdade e emoção e nunca defraudar o público pagante.
Foi lidado um curro de toiros "brancos" (jaboneros) de Canas Vigouroux - muito sérios, exigentes e com aplaudido trapio e notável transmissão. Toiros dos que impõem respeito e pedem contas aos toureiros. Uma excelente forma de pôr à prova o valor e a raça dos jovens toureiros "menos vistos", ávidos de oportunidades. Toiros que algumas das ditas figuras (algumas meramente decorativas, de papelão...) costumam recusar, mandar para trás... nem os querem ver ao longe...
A rapaziada nova não lhes virou a cara, "foi à guerra" como vão os heróis, todos eles desejosos de mostrarem os seus atributos e afirmarem o seu valor. Uns melhor que outros, uns bem mais aptos que os outros para darem o passo em frente, mas todos com dignidade e com atitude, conscientes, de antemão, que não iriam ter pela frente matéria muito fácil.
O maior triunfo da tarde foi de Diogo Oliveira (fotos de cima), com o quinto "Canas" da corrida, o mais pesado, com 620 quilos, uma estampa e que foi um toiro bravo, bravíssimo mesmo, empenhado, com teclas, exigente, daqueles que não deixam passar nada em falso e não perdoam o mínimo dos deslizes. Diogo chegou, deu um grito de atenção, assim como quem diz: "Estou aqui, senhores empresários!".
Muitos dos presentes assistiram, incrédulos, pasmados, à lide fantástica de Diogo Oliveira. Incrédulos porque muitos nunca o tinham visto tourear, não sabiam sequer da sua existência. Como é possível que haja um cavaleiro assim e não o vejamos com frequência nas grandes competições e nas mais importantes praças da temporada?
Pasmados porque, na realidade, está tudo ao contrário na nossa Festa. Passamos a vida a gramar mais do mesmo, sempre os mesmos nomes, sempre todos a tourearem igual uns aos outros, o pessoal vai-se fartando, qualquer dia já ninguém tem pachorra para ir às touradas ver sempre o mesmo filme e... afinal, há toureiros como o Diogo Oliveira, que os empresários deixam de lado e que poderiam trazer um novo alento e um novo entusiasmo à tão monótona e desinteressante Festarola que temos... Incrível!
Diogo lidou e toureou admiravelmente este importante toiro de Canas Vigouroux. Brindou a sua lide, emocionado e com lágrimas de parte a parte, ao seu apoderado Hugo Ferro, o único manager trajado a rigor na trincheira, de fato e gravata. Teve o Hugo um grande mestre - Carlos Amorim, com quem aprendeu nos tempos em que trabalhou a seu lado no Sindicato dos Toureiros, hoje denominado Associação Nacional de Toureiros.
Apoderado e toureiro como nos tempos antigos. Uma dupla de sucesso. Um cavaleiro que, juntamente com mais três ou quatro como ele (não preciso de enumerar nomes, todos sabem quem eles são), pode ajudar, assim o entendam os senhores empresários, a dar a volta por cima e a acabar de uma vez por todas com a morna monotonia em que andamos há uns anos adormecidos...
Fixem o nome, façam alguma coisa: Diogo Oliveira! Não deixam morrer isto...
Eram sete os cavaleiros. É demais para a paciência de um aficionado, por mais aficionado que seja.
Antecedida por um cortejo de gala à antiga portuguesa (em tempo de crise, embora nada tendo a ver com o aumento do preço do gasóleo..., só havia um coche, que teve que fazer duas viagens de ida e volta para trazer todos os artistas...), mais das cerimónias de homenagem aos 50 anos da praça, com representantes de várias entidades na arena ao início da corrida, o espectáculo começou às cinco da tarde e acabou por volta das nove. Santa paciência...
Por ordem, não cronológica das suas entradas em cena, mas antes do peso do triunfo que alcançaram frente aos exigentes toiros de Canas Vigouroux, destacaram-se nesta tarde/noite Parreirita Cigano (outro cavaleiro que toureia menos do que deveria tourear, porque é bom e tem valor de sobra para competir taco a taco com os nomes do costume e de sempre) e o jovem promissor João Gregório de Oliveira, que foi durante alguns anos o neto das corridas de gala do Campo Pequeno e agora se está a revelar um cavaleiro com grandes possibilidades de atingir um patamar superior e vingar também Ana competição com os da frente.
Fez ontem a prova para cavaleiro praticante com um bom novilho-toiro da ganadaria Lopes Branco (que não era "branco") e presumo que tenha ficado aprovado com louvor e distinção. Sabe o que quer e para onde vai. Tem "gancho", chega ao público, arrisca, é ousado, não anda pelo caminho da facilidade, chega-se à frente, pisa a linha de fogo e não vai ser apenas mais um. Tomem também nota do nome e não o esqueçam: João Gregório de Oliveira! Façam alguma coisa, senhores empresários, não deixem morrer isto...
João Salgueiro da Costa, já não propriamente um novato, toureou com verdade e ousadia o primeiro toiro "jabonero" da tarde; Joaquim Brito Paes alternou altos e baixos numa lide que teve bons apontamentos e que brindou a seu tio Pedro Tamagnini Abreu (irmão de sua mãe), a recuperar de um problema de saúde, graças a Deus agora em melhor forma; António Telles (filho) lidou com classe e muita entrega o quarto toiro da ordem, brindando ao embolador Luis Campino e a sua Mulher, em memória do filho Luis, forcado do Cartaxo, falecido recentemente por doença oncológica (bonito e senhorial gesto de um cavaleiro bem nascido e que honra em todos os momentos os pergaminhos de uma ilustre Família); e Tomás Moura andou alegre e desenvolto, com apontamentos da inigualável arte mourista de enfrentar os toiros.
Aplausos para todo o pelotão de excelentes bandarilheiros que marcaram presença nesta corrida, eficientes e valorosos frente aos duros toiros de Canas Vigouroux. Aplaudindo todos eles, permitam-me que aqui realce a veterania e a classe de João Ribeiro "Curro", de Duarte Alegrete, de Pedro Paulino "China" e de João Bretes.
Pegaram os forcados das Caldas da Rainha, de Monsaraz e do Ramo Grande (da Ilha Terceira), grupos menos rodados e com menor número de corridas do que muitos outros que se podem considerar mais aptos e melhor preparados para um desafio complicado como este de pegar poderosos toiros da exigente ganadaria Canas Vigouroux. Mas, valha a verdade, estiveram os três à altura do compromisso.
Pelos Amadores das Caldas, sob o comando de Duarte Manoel, pegaram António Casimiro (à terceira); António Proa (à segunda, numa das melhores pegas da tarde); e Bernardo Seia (à primeira, na sétima pega, ao novilho lidado pelo cavaleiro amador, que se esperava fosse partilhada, como é norma nestes casos, com elementos dos outros dois grupos... mas não foi).
Pelos Amadores de Monsaraz, grupo capitaneado por João Tiago, foram forcados de cara André Claudino (à terceira) e João Ramalho (à primeira, ao toiro de 620 quilos lidado pelo triunfador Diogo Oliveira - a pega da tarde e a única consumada ao primeiro intento entre as que seis que foram feitas aos poderosos toiros "brancos" de Pedro Canas Vigouroux.
Pelos forcados açoreanos do Ramo Grande, comandados por Rui Dinis, pegaram Gonçalo Batista (à segunda) e o próprio cabo (também à segunda, visivelmente lesionado num ombro depois de derrotado na primeira intervenção).
No final, houve agradecimentos da organização à banda que abrilhantou a corrida e aos campinos Gabriel e Luis Silva.
O neto do cortejo de gala à antiga portuguesa, neta neste caso, foi Clarinha Filipe, filha do cavaleiro Gilberto Filipe.
A corrida teve na direcção Ruben Fragoso - que esteve bem e a quem apenas aponto o esquecimento de honrar o ganadeiro com chamada à praça ou mesmo volta à arena, merecidíssima no quinto bravo toiro de Canas Vigouroux. O director esteve assessorado pelo competente médico veterinário Alexandre Reis, antigo forcado do Grupo de Montemor.
Foi bravo, mas sem força, o primeiro toiro de Canas Vigouroux; e foi bom o segundo. Bravíssimo o quinto (foto de baixo). Os outros cumpriram o seu papel, honrando o bom nome da ganadaria. E foi bom o novilho-toiro de Lopes Branco, ganadaria que continua em alta, bem lidado pelo cavaleiro amador João Gregório de Oliveira.
Resumindo, uma boa tarde de toiros. E uma nova data que pode passar e vigorar no calendário dos empresários de Paio Pires - uma praça que já ganhou um lugar de honra no panorama taurino nacional.
Fotos M. Alvarenga








