Tomás Bastos tornar-se-á esta sexta-feira no 45.º matador de toiros da história da tauromaquia portuguesa. Este jovem toureiro de dinastia (é sobrinho-neto de José Júlio) dará assim continuidade à tradição do toureio a pé num país que, embora tenha o cavalo como principal expressão da sua tauromaquia, também ofereceu à história figuras de grande importância nesta disciplina.
Por exemplo, Diamantino Vizeu, o primeiro toureiro português a tomar a alternativa (Barcelona, 1947), ou o carismático Manuel dos Santos — doutorado em Sevilha um ano depois, intérprete de um toureio de grande suavidade e beleza, muito popular no México e que chegou a ser empresário do Campo Pequeno — constituem os pilares mais sólidos sobre os quais assenta a tauromaquia desta nação. A eles juntam-se toureiros com a personalidade de Paco Mendes e, nas décadas seguintes, José Júlio, Mário Coelho e José Falcão, os três oriundos da tauriníssima Vila Franca de Xira, tão diferentes quanto complementares entre si. E outros houve de grande renome como Augusto Gomes Júnior (segundo matador de Portugal, que cedo abdicou da alternativa tornando-se bandarilheiro), Antonio dos Santos, José Simões, Joaquim Marques, Armando Soares, Amadeu dos Anjos, Óscar Romano, Júlio Gomes, António de Portugal, Parreirita Cigano, Eduardo de Oliveira, Manuel Moreno, Luis "Procuna", Nuno "Velásquez", Sérgio "Parrita", Manuel Dias Gomes, António João Ferreira, Joaquim Ribeiro "Cuqui", Nuno Casquinha e João Silva "Juanito" (que entretanto se tornou bandarilheiro) outros mais.
José Júlio era um toureiro de classe requintada, com uma carreira longa e intermitente, cuja última actuação remonta a 2009. Mário Coelho formou-se à moda antiga, primeiro como bandarilheiro na quadrilha, entre outros, de Andrés Vázquez, com quem saiu em ombros em Pamplona, após um célebre tércio de bandarilhas, antes de se afirmar como novilheiro e, posteriormente, como matador de alternativa, que viria a confirmar em Las Ventas, tal como o malogrado José Falcão.
Este último, toureiro honesto e valoroso, conquistou os aficionados mais exigentes pela forma galharda e autêntica com que lidava as divisas mais duras, sem nunca perder a compostura nem o sorriso, até encontrar a morte nos cornos de "Cuchareto", de Hoyo de la Gitana, numa fatídica tarde de Verão de 1974 na Monumental de Barcelona.
Três anos antes (Agosto de 1971), Ricardo Chibanga, natural de Moçambique, tornara-se o primeiro toureiro africano e negro a tomar a alternativa, precisamente na Real Maestranza de Sevilha, vindo depois a confirmá-la em Las Ventas. Todos eles constituem a origem da irrupção, no final da década de 1970, de Vitor Mendes, o mais importante toureiro que esta terra produziu: poderoso com a capa e a muleta, extraordinário bandarilheiro e eficaz com a espada, levou com orgulho a bandeira portuguesa às principais feiras taurinas da Europa e da América.
Depois do mestre de Marinhais, coube a Rui Bento Vasques, ao angolano José Luís Gonçalves e a Pedrito de Portugal prolongar esse legado. Os três foram, sobretudo na sua etapa de novilheiros, referências do toureio a pé do país vizinho. O caráter de Rui Bento levou-o a medir forças de igual para igual com o próprio Vitor Mendes em Portugal e a enfrentar em Espanha e França corridas frequentemente pouco agradáveis, nas quais demonstrava toda a sua segurança e experiência como lidiador. Uma gravíssima cornada em Orthez, pouco depois de tomar a alternativa, travou abruptamente a sua projeção.
José Luís Gonçalves destacou-se como novilheiro em Madrid, praça onde desenvolveu grande parte da sua carreira em Espanha. Já Pedrito, toureiro intuitivo, elegante e frágil em igual medida, causou enorme sensação enquanto novilheiro sem picadores. Os aficionados de Saragoça ainda recordam o impacto da sua apresentação na praça de La Misericórdia, onde chegou a ser pedido o rabo de um novilho de Guardiola, numa tarde de Inverno realizada sob a então recém-inaugurada cobertura da praça. Foi durante a sua época que, graças a autorizações especiais, se picaram reses em espectáculos realizados em Portugal, tal era a popularidade que gozava entre os seus compatriotas, sobretudo nos primeiros anos como matador. Chegou a estoquear um toiro na Moita em 2000.
Depois deles, nenhum outro conseguiu alcançar verdadeira relevância, embora seja justo destacar as qualidades de "Procuna" no segundo tércio, que gozou de boa reputação enquanto novilheiro; o bom conceito, muito marcado pela sua quietude e verticalidade, de António João Ferreira; a sólida técnica de "Juanito", vencedor do Zapato de Oro de Arnedo; e a classe de Dias Gomes, o último português, até à data, a confirmar a sua alternativa em Las Ventas.
A este grupo juntar-se-á em breve Tomás Bastos, toureiro forjado na profissão desde a mais tenra infância, que desenvolveu um toureio de grande pureza, tempero e execução pausada, alcançando êxitos tão relevantes como o troféu Alfarero de Oro, conquistado no ano passado em Villaseca, após uma atuação reveladora diante de uma extraordinária corrida de Conde de Mayalde.
Oxalá o seu nome não apenas passe a integrar esta lista de eleitos, mas também contribua para revitalizar o toureio de capa e muleta do outro lado da fronteira.
José Miguel Arruego / “Cultoro”