sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Campo Pequeno: quem viu, não esquece mais!

Os anos não passam pelo Maestro António Ribeiro Telles, cada vez melhor, há quase meio século a marcar a diferença e ainda com a mesma classe, o desmedido valor de todos os tempos, a mesma sobriedade e a mesma arte, como se fosse um menino. Lição de cátedra no quarto toiro da noite, ontem em Lisboa. Um curro extraordinário da ganadaria Vinhas a proporcionar óptimo toureio a cavalo e a pé. Francisco Palha na sua noite de ouro no Campo Pequeno. António João Ferreira a demonstrar a sua arte e o seu temple, como se andasse a tourear todos os dias. Os forcados, exceptuando a grande pega de João Armando, do Barrete Verde de Alcochete, foram ontem o elo mais fraco de uma grande noite de toiros - a que só faltou público.

Miguel Alvarenga - Muito bem apresentados, verdadeiras estampas e aclamados hinos ao toiro bravo, os toiros da ganadaria Vinhas contribuíram em decisivo para o enorme sucesso artístico da noite de ontem em Lisboa na quinta e penúltima corrida do abono de 2020. Comemoração digna e triunfal do 70º aniversário da fundação da ganadaria, cujos responsáveis foram homenageados por isso mesmo ao início da corrida pelo empresário Luis Miguel Pombeiro e o maioral veio depois à praça receber as justíssimas ovações do público pela excelente qualidade do quarto toiro da noite, superiormente lidado por António Telles e muito bem pegado por João Amândio, dos Amadores do Aposento do Barrete Verde de Alcochete.

Exceptuando o quinto toiro, mais reservado e com menos transmissão, todos os outros evidenciaram excelentes qualidades para a lide do toureio a cavalo e também para a lide a pé, apesar de menos suave o último, a que o valoroso António João Ferreira deu a volta, embora insistindo em o tourear nos médios.

António Ribeiro Telles teve uma actuação sóbria, com detalhes da sua imensa arte e saber, frente ao colaborante toiro que abriu praça. No quinto, um bravo Vinhas a fazer jus à seriedade e às qualidades especiais do encaste Santa Coloma, o Maestro deu verdadeira e inesquecível lição de cátedra, transmitindo segurança, tranquilidade, bom gosto e toureio que marca a diferença. Já acontece, aliás, há quase meio século. E António continua igual a si próprio, melhor que nunca, como se fosse todos os dias um menino a esforçar-se para vingar na profissão. Incrível.

Brega templada, elegância, pormenores de maestria nos cites e nos encontros, com ferros de grande emoção e valor, a aproveitar com saber as grandes qualidades deste quinto toiro, sério, de investida pronta e nobre, impondo a verdade do seu toureio e a classe das suas maneiras (únicas) à exigência de um oponente que marcou a noite e cuja prestação foi depois merecidamente reconhecida pelo director de corrida João Cantinho, com a chamada do ganadeiro à arena, na pessoa do maioral da Herdade do Zambujal, honra mais que merecida na celebração triunfal dos 70 anos da ganadaria. Grande António, Toureiro de alma e coração. Eterno!

Ontem não era propriamente um mano-a-mano de cavaleiros, antes um primo-a-primo, já que António Telles repartia cartel com Francisco Palha, sangue de seu sangue. E foi também uma noite memorável para o jovem Palhinha, que já no ano passado ultrapassara o "calcanhar de Aquiles" que costumava marcar as suas vindas a Lisboa e ontem teve, por fim, a sua noite de glória, há muito esperada e que sempre acreditei que aconteceria, no Campo Pequeno.

Francisco Palha já dera o mote, pelo menos, nas duas corridas em que o vi anteriormente, em Alcochete e na Nazaré e também na de Coruche, onde me dizem que esteve enorme. Brilhou em grande no segundo e codicioso toiro da noite, a que impôs a espectaculosidade, o risco, a ousadia e a grande verdade do toureio que traz na alma. Preparações perfeitas, cites bonitos e ferros "do outro mundo", daqueles que são verdadeiramente impróprios para cardíacos, em terrenos de verdade e a pisar, como sempre, a linha de fogo - e de alto risco.

Francisco deu o salto definitivo para a linha da frente, está por mérito próprio entre os primeiros do toureiro equestre. Ontem teve na primeira praça do país a noite por que todos - e ele próprio, mais que todos - esperavam. No quinto toiro, o mais reservado dos seis e o que menos transmitiu, Palha voltou a impor-se e voltou a cravar ferros de nota altíssima. Passagem memorável de Francisco Palha pela Catedral - a pedir repetição ainda este ano, que o empresário certamente cumprirá, depois de anunciar que quem triunfa merece e tem que ser repetido. Que volte Francisco Palha!

O toureio a pé esteve representado pelo heróico e muito artista António João Ferreira, a quem Pombeiro fez louvável justiça, trazendo-o de volta ao palco onde há um ano sofreu violenta colhida. Ferreira é um grande Toureiro, não me canso de o escrever. E mesmo no país que teima em esquecer o toureio a pé e as corridas mistas, sempre que toureia, sem ter toureado antes, parece que está toureadíssimo e que leva já "em cima" uma mão cheia de corridas. Foi assim ontem outra vez.

Bonito e artista nos quites de capote, esteve mandão e templadíssimo nas duas faenas de muleta, a primeira brindada a Lourenço Vinhas e à ganadaria, a segunda ao público, que o acarinhou e nas cortesias o recebeu com uma enorme e sentida ovação.

Parou, templou e mandou como mandam os livros. Entegou-se, arrimou-se, deu tudo de si para que o triunfo lhe sorrisse. E sorriu. O seu primeiro toiro investia com nobreza pelos dois lados e António João desenhou uma faena de recortes artísticos e muitíssimo bom gosto. No último, um pouco mais complicado, não teve tarefa fácil, mas impôs a sua raça e o seu valor, apenas pecando, a meu ver, pela insistência de não trazer o toiro para o centro e preferir lidá-lo nos médios. Mas valeu a pena revê-lo e confirmar que está de novo em forma, com sítio e com ganas, sem esmorecer pelo facto de ter tido o azar de nascer num país onde o toureio a pé já não tem a expressão e o carisma que teve outrora e onde as oportunidades para se mostrar são escassas e só de tempos a tempos.

Bandarilharam os toiros das lides a pé os valorosos Pedro Noronha, João Oliveira e João Ferreira. Este último, irmão do matador de toiros, destacou-se, como sempre, pelo brilhantismo com que desempenha este tércio em que é rei na actualidade, com dois pares de bandarilhas fantásticos, superiormente rematados. De montera em mão, escutou uma das maiores ovações da noite, com o público de pé.

Nota alta, também, para as intervenções dos bandarilheiros dos cavaleiros, João Ribeiro "Curro" e António Telles Bastos, Jorge Alegrias e Diogo Malafaia. Correctos, eficientes.

Frente à seriedade dos Vinhas, que pediam forcados à altura, a noite foi fraca, como já aqui se referiu em pormenor, no campo das pegas. Uma grande pega de João Armando, do Aposento do Barrete Verde de Alcochete, fica para recordar na noite de comemoração dos 55 anos de actividade deste valoroso grupo. Os Amadores de Alter do Chão tiveram ontem uma noite dura e de menor destaque na arena da capital.

Excelente a aficionada direcção de João Cantinho, que esteve assessorado pelo médico veterinário Jorge Moreira da Silva.

Única nota negativa: a falta de público. Onde estavam, afinal, os ditos defensores do toureio a pé e da corrida mista?

Fotos M. Alvarenga


Lição de cátedra! Os anos não passam pelo Maestro António!

Francisco Palha teve ontem a sua grande noite de glória
no Campo Pequeno

O valor, o temple e a arte de António João Ferreira elevaram
bem alto a importância (esquecida) do toureio a pé em Portugal