A Tertúlia "A Toireira" de Alhandra, a mais importante do concelho de Vila Franca de Xira, realizou ontem na histórica Sociedade Euterpe Alhandrense o seu tradicional almoço de aniversário, desta vez a assinalar 34 primaveras. Como sempre acontece nesta ocasião, a tertúlia presidida pelo recordado bandarilheiro João Boieiro homenageou uma figura do mundo tauromáquico - desta vez Miguel Alvarenga, Director do "Farpas", pelos seus 50 anos de jornalismo.
Há quem refira o romance "Esteiros" de Soeiro Pereira Gomes (1941) como primeira obra onde surge a referência de Toireira a Alhandra, mas na verdade foi Almeida Garret quem assim baptizou a aficionada vila ribatejana em 1846 no seu livro "Viagens na Minha Terra".
Na obra "Viagens na Minha Terra", de Almeida Garrett, a expressão "Alhandra, a toireira" surge logo capítulo 1, no início da viagem física, quando o narrador segue de barco pelo rio Tejo em direcção a Santarém.
Ao passar pela povoação ribeirinha de Alhandra, Garrett utiliza este epíteto para sintetizar a identidade e a alma daquela terra. A expressão é uma referência directa à forte ligação histórica da região à cultura dos toiros, aos campinos e à Festa Brava, elementos profundamente enraizados na lezíria ribatejana. No espírito romântico da obra, o autor procura fazer uma crónica viva das tradições, costumes e mitos do país. Chamar a Alhandra "a toireira" serve como um registo pitoresco e de cor local que ajuda a desenhar a paisagem sociocultural do Ribatejo. Logo após saudar "Alhandra, a toireira", Garrett introduz a vizinha "Vila Franca, a que foi de Xira, e depois da Restauração...". Esta transição geográfica serve de pretexto literário para o autor disparar duras críticas políticas aos governos da época, refletindo sobre a instabilidade política.
“Já saudamos Alhandra, a toireira; Vila Franca, a que foi de Xira, e depois da restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal restauração caiu, como a todas as restaurações sempre sucede e há de suceder, em ódio e execração tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome" - escreve Almeida Garret no seu livro.
O cognome reflete a grande fama que Alhandra tinha na época pelas touradas (nomeadamente as touradas reais e as festas em honra de S. João Baptista, entre 1840 e 1843), impulsionadas também pela proximidade com a Casa do Duque da Terceira. Esta expressão cunhada por Garrett inspirou mais tarde colectividades e pontos de encontro da região, como é o caso da Tertúlia "Alhandra, a Toireira".
Ontem, a tertúlia esteve em festa pelo seu 34º aniversário - e repartiu-a com o jornalista Miguel Alvarenga, assinalando os seus 50 anos de profissão. Em dia tradicional de encerramento oficial da temporada tauromáquica, 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, esta foi a terceira e última homenagem ao 50º aniversário de jornalista do Director do "Farpas". A primeira homenagem ocorreu em Maio no Clube Náutico Alfoz, em Alcochete, onde se homenageou também o Maestro João Moura pelos 50 anos da sua triunfal estreia na Monumental de Madrid.
Posteriormente, Miguel Alvarenga foi também homenageado em 15 de Agosto na praça de toiros da Nazaré pela empresa Doses de Bravura, de Rui Bento.
Depois da usual romagem ao cemitério de Alhandra para render homenagem aos sócios e figuras do toureio já falecidas, os membros da Direcção da Tertúlia "A Toireira" receberam Miguel Alvarenga e os convidados na sua sede, com paredes recheadas de fotos que são recordações da história taurina da vila ribeirinha - onde nasceram os irmãos Boieiro, bandarilheiros de nomeada; também Ludovino Bacatum, Jesus Nunes e o cavaleiro António Luis Lopes, que muito novo foi viver para Coruche, mas teve aqui as suas raízes.
Entre muitas outras recordações, um facto histórico está imortalizado num velho cartaz (na foto em cima): o célebre matador Rafael Gomez "Gallito" toureou em 1898 numa da praças de toiros que existiu em Alhandra.
À recepção e visita à sede da tertúlia, passou-se para a Sociedade Euterpe Alhandrense, ali a dois passos, onde teve lugar o almoço comemorativo do 34º aniversário da "Toireira" e em que se homenageou Miguel Alvarenga, estando a alocução evocativa a cargo do Dr. Vitor Escudero, seu amigo de infância, historiador, conferencista e antigo crítico tauromáquico, que com a eloquência habitual, passou em revista o importante história da tertúlia de Alhandra e depois referiu em pormenor muitas passagens da carreira do jornalista homenageado, recordando facetas vividas junto com sua família e depois todo o seu percurso profissional, polémico e vertical, iniciado com Vera Lagoa em "O Diabo" e com Manuel Maria Múrias em "A Rua".
Miguel Alvarenga usou depois da palavra para agradecer a honra desta homenagem por parte de "uma tão importante tertúlia por onde passaram nos últimos 34 anos tantos homenageados ilustres, como os Maestros José Júlio, Mário Coelho e José Falcão ou os cavaleiros António Luis Lopes e Luis Miguel da Veiga, entre tantos mais", lembrando os laços de amizade que o ligaram a dois ilustres toureiros da terra, os bandarilheiros Ludovino Bacatum e Laurentino Boieiro.
O jornalista deu os parabéns à Tertúlia "A Toireira" e depois, frisou que "normalmente e como dizia Joaquim Letria, que há poucos dias nos deixou, os jornalistas só são homenageados depois de morrerem, mas se estivessem à espera que eu morresse, ainda iam ter que esperar muito anos...".
De seguida, afirmou que "não ia dizer, com falsa modéstia, que esta homenagem era imerecida, porque eu acho que até a mereço, por 50 anos de luta e defesa do Jornalismo e também da Tauromaquia".
João Boieiro, presidente da Direcção da Tertúlia "A Toireira", elogiou a carreira de Miguel Alvarenga e a forma como sempre defendeu a Tauromaquia, exibindo um quadro com uma reportagem por este escrita em 1990 no jornal "O Título", referindo uma digressão de fadistas e toureiros à Ilha Terceira onde ele próprio, Boieiro, alcançou um recordado triunfo bandarilhando vários toiros.
Antónia Balsinha, poeta popular de Alhandra, leu um bonito poema dedicado a Miguel Alvarenga e depois seguiu-se uma sessão de fados com intervenções de Jaime Amante, Ana Paula Santos, António Pinto Basto e seu filho António (valente forcado do Grupo de Académicos de Coimbra, que se estreou ontem em público, demonstrando ser um digno seguidor de seu pai), bem como de Miguel Alvarenga, acompanhados à guitarra pelo tomarense Joaquim Rocha e à viola por Paulo Marques, antigo e valoroso forcado dos Amadores da Chamusca.
Depois de "deitar abaixo" dois fados, muito aplaudidos pela assistência, Miguel Alvarenga recebeu no palco a bonita lembrança oferecida pelo presidente da Direcção da "Toireira", João Boieiro, e pelo presidente da Assembleia-Geral, Dr. Victor Dias - uma placa evocativa desta homenagem (fotos de cima).
A fechar a noite, actuaram as sevilhanas do Trio Compás e cantou-se os parabéns à tertúlia e a Miguel Alvarenga, que apagou, emocionado, as velas do bolo, agradecendo uma vez mais a simpatia desta homenagem - a que se assinou a Junta de Freguesia de Alhandra, representada por António Sousa; e a Associação de Tertúlias, com a honrosa presença do seu presidente Guilherme Nunes.
Fotos Fátima Pinto Bessa e D.R.
| O cartão do Sindicato dos Toureiros de Jesus Nunes, toureiro de Alhandra |
| Um artigo de "Solilóquio" no "Diário de Notícias" sobre Bacatum |
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| Miguel Alvarenga e sua Mulher, Fatucha Pinto Bessa, com João Boieiro, presidente da Tertúlia "A Toireira" |
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| Francisco Palhota e Miguel Alvarenga |
| Laura e Paco Duarte |
| Amigos há mais de meio século: Vitor Escudero, Miguel Alvarenga e Luis Pestana |
| Ana e José Miguel Moore |
| Miguel Alvarenga com Ana e Luis Pestana |
| Paco Duarte, Miguel Alvarenga e Rui Santos, cavaleiro de Alhandra |
| António Pinto Basto e seu filho António com Miguel Alvarenga |
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| A honrosa presença de Bernardo Alexandre, o empresário da praça "Palha Blanco" |
| Ernesto Manuel, Paco Duarte e Laura |
| Dr. Victor Dias, presidente da Assembleia-Geral da Tertúlia, com Vitor Escudero e Miguel Alvarenga |
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| Dr. Vitor Escudero no uso da palavra |
| Miguel Alvarenga quando agradecia a simpática homenagem |
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| Antónia Balsinha, poeta de Alhandra, dedicou bonitas quadras ao homenageado |
| Jaime Amante |
| Ana Paula Santos |
| Triunfal estreia em público de António Pinto Basto Jr. |
| Miguel Alvarenga |
| Antónios Pinto Basto, Jaime Amante e Ana Paula Santos e os músicos Joaquim Rocha e Paulo Marques |
| Flamenco com o Trio Compás |
| Miguel Alvarenga e João Boieiro, presidente da Tertúlia "A Toireira" |
| E depois cantaram-se os Parabéns a Você! |


























