Hugo Teixeira - José Tello Barradas, grande aficionado, escreveu um dia um livro com o título “Moura, um caso!”. Infelizmente já não está entre nós - cumpre-se, aliás, este ano, o centenário do seu nascimento - mas se estivesse, este grande escritor e aficionado, bem poderia escrever mais um, dois ou três livros da gloriosa história desta família toureira.
Quem ficou em casa e não rumou até Portalegre, para assistir no sábado ao mano-a mano-entre os irmãos Moura (João e Miguel), perdeu uma enorme corrida, perdeu uma oportunidade de ver “in loco” o compromisso que foi assumido no sentido de continuar a defender o trono do toureio a cavalo.
João Moura Jr. e Miguel Moura estiveram enormes, toureiros, com ganas e não foram até à velhinha praça “José Elias Martins” para brincar ou perder o duelo... Entraram com tudo, jogaram todas as cartadas, apresentaram todos os argumentos.
Sortes de gaiola, mourinas, ferros à meia volta junto às tábuas e num espaço onde nem uma agulha passava, brega ao correr das tábuas, sortes bem rematadas, ferros de praça a praça, com batidas a pisar terrenos de compromisso, palmitos, cavalos transformados em muletas como se fosse uma faena a pé, enfim… houve de tudo. Mas mesmo de tudo o que é bom!
Não vou destacar as lides de um ou de outro, para mim, o que conta, foi a lição que ambos nos transmitiram. E essa lição foi simples e directa: Estamos cá para defender o trono e seguir em frente, continuar a escrever a história da dinastia Mourista.
Enfim… houve Mouras, emoção nos olhos do progenitor e o grito de quem quer continuar a triunfar forte todas as tardes, seja qual for a ganadaria.
Tudo isto perante toiros nada fáceis de Veiga Teixeira, a pedirem contas, com as suas teclas e a “carregar no acelerador”, não deu para “dormir” nas bancadas.
Correu tudo bem? Não, também houve toques nas montadas dos manos, pois os “Teixeiras” não perdoam, pedem o BI… agora Cartão do Cidadão.
Mas esses escassos momentos menos bons não apagam, nem de perto nem de longe, o brilho da triunfal tarde na praça de Portalegre, uma “casa mourista”, que guarda grandes histórias e triunfos da família, principalmente de João Moura, o mestre e patriarca.
E como se não bastasse, como se uma pessoa ainda não tivesse em cima uma “overdose” de bom toureio, os manos ainda brindaram o público, que rondou os três quartos de casa (a melhor entrada nos últimos anos em Portalegre, parece-me), com a lide do sobrero, numa iniciativa que contou com o aval da empresa Toiros com Arte.
E também a duo o “baile” foi perfeito. Uma tarde que foi fechada com um enorme abraço entre os dois, enquanto recolhiam a cavalo os aplausos, num hino à cumplicidade (foto de cima).
No capítulo das pegas, pegaram os Amadores de Coruche e de Portalegre, numa tarde também de emoções fortes, com os toiros de Veiga Teixeira a colocarem à prova a forcadagem e os valores das duas garbosas formações.
Por Coruche pegaram António Tomás à primeira tentativa; de cernelha Frederico Pinto e Luís Gonçalves, também ao primeiro intento; o cabo João Prates ao terceiro intento e na pega do sobrero (dividido com Portalegre), Tiago Pata à terceira tentativa.
Por Portalegre foram solistas Daniel Ameixa, ao segundo intento; Ricardo Almeida e Filipe Rodrigues, também ambos à primeira em rijas e vistosas pegas.
Uma palavra para o Ricardo Almeida, um enorme forcado que durante 18 anos vestiu a jaqueta de Portalegre com galhardia, escreveu uma página importante no grupo e que decidiu neste dia despedir-se.
O “Cardana”, para os amigos, foi um enorme forcado, deixa a sua marca e foi justamente homenageado pelo público, pelo grupo de Portalegre (através do cabo Gonçalo Louro), pela Associação do Grupo de Forcados Amadores de Portalegre, através dos membros João Semedo e António Alegria e pelo município, com a presidente da autarquia, Fermelinda Carvalho a pisar também o ruedo.
Dirigiu com acerto Marco Gomes, assessorado pela médica veterinária Maria Enes de Oliveira.
Foto D.R./@João Moura Jr.