segunda-feira, 4 de maio de 2015

Aprendam, senhores! A lição de Montemor

Eles deram uma lição aos empresários actuais: não é assim tão difícil pôr a Festa
de pé, recuperar uma data que estava enterrada, proporcionar ao público (que é
quem paga) uma grande corrida. João Cabral, João Caldeira, João Braga e Frederico
Caldeira foram os primeiros grandes triunfadores de Montemor. E os dois últimos
não se limitaram a organizar: intervieram, foram autores de duas pegas monumentais
 
O ilustre ganadeiro António da Veiga Teixeira com sua Mulher e sua filha. Grande
triunfador na sexta-feira em Montemor
Emoção e quase tragédia: a aparatosa colhida de João Telles no segundo toiro
da tarde. Quando há toiros de verdade, há suspiros na bancada e há verdade
na arena. A Festa é isso mesmo e o contrário será sempre uma mentira
João Moura Júnior foi, de longe, o grande triunfador de Montemor e continua
a distanciar-se, a léguas, do pelotão. É o primeiro e é a figura do momento
João Ribeiro Telles encastou-se depois de ter sido colhido. Teve ferros de
muita emoção numa tarde de muita decisão e muito querer
João Salgueiro da Costa: grandes ferros, rasgos de uma imensa genialidade. Quem
sai aos seus... Na foto de baixo, no início da corrida, o cabo de Montemor entrega
ao cabo de Santarém uma lembrança pelo centenário do grupo



Miguel Alvarenga - Nada acontece por acaso e tudo tem uma explicação. A corrida de Maio em Montemor estava esquecida, morta, enterrada e foi ressuscitada, regressou em grande força ao calendário e se para o ano a repetirem volta de novo a encher, apenas e só, por obra e graça de quatro jovens empreendedores que a decidiram voltar a pôr de pé e, para isso, limitaram-se a fazer as coisas bem feitas. O que nem sempre acontece. Afinal, nada é tão difícil e tão impossível como às vezes sustentam os complicadinhos que julgam saber tudo e não fazem nada.
Bons toiros, que à partida dêm garantias e assegurem a emoção - que é, não se esqueçam, a essência de tudo isto - bons toureiros e bons forcados. E uma boa promoção, que foi o que eles fizeram. Já lá vai o tempo em que as corridas eram promovidas com cartazes (sempre iguais) colados nas paredes e nas estradas. Hoje tudo mudou. Os jovens organizadores da corrida de sexta-feira em Montemor promoveram-na em grande, excederam-se mesmo - e bem. E nos sítios certos. Resultado: praça cheia, como antigamente. E mais importante que isso: uma data louvavelmente recuperada.
Por isso e antes de tudo, um olé muito alto e muito grande para o empenho, para a seriedade, para a humildade e para a lição que estes quatro meninos deram aos caducos. Olé, João Braga, João Caldeira, Frederico Caldeira e João Cabral. Cá esperamos por vós em Maio do ano que vem - outra vez em Montemor.
A praça não encheu apenas. Encheu - e isso foi outro facto a ressalvar - de público "à antiga", gente do toiro, gente da Festa, toureiros, empresários, forcados, aficionados de solera. Houve um ambiente enorme. Como se viu e como ficou provado, não é preciso "descobrir a pólvora" para ter sucesso empresarial no mundo da tauromaquia. Basta só não fazer igual aos que fazem mal feito... e há tantos anos.
Os toiros de Veiga Teixeira foram a primeira aposta certa dos organizadores da corrida. Seriedade, trapio, verdade, emoção - foi o que bastou e o que, à partida, estava garantido com a eleição desta histórica ganadaria, a tal que "dá pesadelos" aos toureiros. E que provoca suspiros na bancada. Houve toiros, houve sustos, houve seriedade no espectáculo. E houve toureiros e forcados que lograram estar à altura de toiros assim. Mas também aí havia garantias previamente asseguradas: três dos principais cavaleiros da nova vaga, os dois melhores grupos de forcados.
João Moura Júnior confirmou tudo aquilo que já mostrou no último ano e que já não é novidade nenhuma: dos novos, ele é indiscutivelmente o primeiro, cavalga a passos largos para o trono, em Montemor voltou a marcar a diferença e a sair triunfador. Há solidez, consistência, maturidade, segurança e há, sobretudo, uma clara afirmação: Moura Jr. é a figura do momento. Demonstrou-o em Montemor na forma como lidou os dois toiros do seu lote, na forma como fez frente a deu a volta a toiros que pediam contas e não tinha nada, mesmo nada, a ver com os "toirinhos da corda" que tanto facilitam a arte em que ele é mestre. Moura Jr. pode com todos os toiros, os fáceis e os duros. Está montado para isso e para tudo mais. E é essa raça, esse momento de solidez que alcançou, que molda e caracteriza, foi sempre assim ao longo da História, os grandes toureiros. Foi mais um passão em frente de João Moura Jr., a provar que se está a destacar a léguas do pelotão.
João Ribeiro Telles lidou em primeiro lugar o toiro mais complicado da corrida, o segundo da tarde. Foi aparatosamente colhido, podia ter sido uma desgraça. Saíu, ele o cavalo, ileso do arrepiante acidente. Encastou-se e foi para a guerra, pôs "a carne toda no assador", evidenciou todo o seu querer, mostrando que não anda aqui a brincar. Pisou terrenos de compromisso, sabendo de antemão o quanto arriscava diante de um toiro que não perdoava deslizes. Os ferros que cravou a seguir deram a nota alta da ambição de um jovem que também quer marcar.
No seu segundo voltou a estar decidido. Mesmo assim, eu sei que João Telles pode mais e tem que ser mais. Não atrasou nem adiantou mais nada - mas todos sabemos que ele é muito melhor e que pode, quando quer, estar muito superior ao que esteve em Montemor. Força, toureiro!
João Salgueiro da Costa é o eterno praticante e é o eterno promissor. Sente-se que tem nas veias o sangue e a raça do génio seu Pai. Também ele tem ferros que evidenciam um rasgo tremendo de genialidade, como aqueles em que entrou pelos toiros dentro e disse bem alto que "desta é que vai ser". As suas faenas têm sempre altos e baixos, mas os baixos nunca são tão baixos e os altos são sempre altíssimos.
No último toiro da corrida, Salgueirinho esteve ao melhor nível, com ferros "de parar corações", a deixar a marca da casa. Espera-se mais deste toureiro e deste valor. Tem que caminhar depressa para a alternativa. Não é só "mais um" e isso todos sabemos desde que se apresentou em Lisboa.
A praça de Montemor é, foi sempre, um santuário de grandes forcados. Voltava a disputar-se o troféu "Barra d'Ouro". Podia ter ganho Santarém (e ganhou), podia ter ganho Montemor. Não era fácil a decisão do júri. Ganhou Santarém, que cumpre este ano cem anos de actividade ininterrupta. Não houve um único protesto. Ganharam, principalmente, os forcados e ganhou a arte imensa destes dois grandes grupos.
Por Santarém, abriu praça o cabo Diogo Sepúlveda. Com a arte, com o saber, com a técnica e com o coração que o carcaterizam. Foi uma pega "de parar o trânsito", desde o garboso cite, à maestria com que recuou e levou o toiro toureado, à reunião de braços e pernas, à garra com que ficou na cara do toiro, depois muito bem ajudado por todos os companheiros. Foi uma lição de bem pegar. Como o são sempre as pegas de Diogo Sepúlveda - um forcadão.
António Grave de Jesus, outro "compêndio" da nobre e tão portuguesa arte de pegar toiros, foi autor da segunda pega dos Amadores de Santarém, ao terceiro toiro da tarde. Enorme, também. E o grupo, coeso, e oportuno, outra vez a ajudar muito bem.
João Brito, fortemente derrotado na primeira tentativa, pegou com galhardia e decisão, à segunda, o último toiro que cabia ao grupo centenário. E bem.
Pelos Amadores de Montemor, abriu praça o cabo António Vacas de Carvalho e não se pode dizer que tenha estado bem ou que os forcados "da casa" tenham iniciado da melhor forma esta competição com os rivais ribatejanos. Consumou à quarta tentativa a pega ao mais complicado dos Veiga Teixeiras, mas também Vacas de Carvalho complicou, não foi só o toiro.
As duas pegas seguintes dos montemorenses foram enormes e por intermédio, precisamente, de dois dos organizadores da corrida, os grandes João Braga e Frederico Caldeira. Um e outro estiveram como se deve estar na cara de um toiro. A citar, a recuar, a fechar-se, a aguentar os derrotes, fechados que nem lapas, até o grupo chegar e ajudar com decisão e a usual coesão. Muito bem Soller Garcia nas primeiras ajudas.
Houve brindes de lado a lado e isso é saudável. Competição, competição, amizade à parte. Santarém brindou a Montemor e Montemor brindou a Santarém. Houve também brindes dos dois grupos ao irmão do malogrado cavaleiro desportivo Francisco Seabra, recentemente falecido durante uma prova em Espanha. Houve brindes aos quatro organizadores da corrida. Houve o brinde de Moura Jr. aos cabos dos dois grupos. E houve um significativo brinde de um ferro por João Telles ao Mestre José Maldonado Cortes.
A corrida decorreu com bom ritmo e sem tempos mortos e Agostinho Borges dirigiu-a com a habitual competência. Excelente desempenho de todos os bandarilheiros, numa tarde em que o trabalho maior foi dos próprios cavaleiros, mas em que não se pode deixar de louvar a brega dos seus "braços-direitos", todos, sem exepção.
O público saíu da praça radiante - e quando assim é, ganha a Festa e sai enaltecida a arte tauromáquica. Recolocou-se no calendário taurino nacional uma data tradicional que perdera a tradição e, por isso, nunca será de mais aplaudir o excelente trabalho desenvolvido pelos quatro jovens "empresários" - que era bom que continuassem a organizar corridas. Só ganharíamos com isso. À Festa - e, principalmente, aos "velhos do Restelo" - eles deram uma verdadeira lição. Não é difícil ter sucesso neste mundo da tauromaquia. Basta, repito, saber fazer as coisas bem feitas. Parabéns aos quatro.

Hoje, aqui, não perca: os momentos altos da corrida, as pegas uma a uma, o esplendor e os Famosos numa grande tarde de toiros - uma foto-reportagem de Maria João Mil-Homens.

Fotos Hugo Teixeira e Maria João Mil-Homens