sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Vila Franca: equívocos, remendos, menos exaltação popular e triunfos de Nuno Casquinha, de Grave e dos Forcados


Brinde do matador Nuno Casquinha ao empresário Paulo Pessoa de Carvalho,
no sexto toiro de ontem, desencadeou uma vaia monumental na praça. Público
vilafranquense não perdoou ao empresário a brincadeira de 3ª feira...
Houve ligeiros protestos, mas Vila Franca protesta sempre por tudo e por nada.
Mas a volta à arena do Dr. Joaquim Grave com Ana Batista no quarto toiro, um
toiro sério, emotivo, que transmitiu, que exigiu e que foi bravo, foi inteiramente
merecida e justa. O toiro marcou a diferença e salvou a Feira de Vila Franca
Nuno Casquinha está placeado, está maduro e mandão. Lide brilhante ao
primeiro toiro de Pontes Dias conquistou desde logo o público de Vila Franca
Nuno Casquinha voltou a estar em grande com o capote, as bandarilhas e a
muleta frente ao sexto bom toiro de Pontes Dias
No seu primeiro, um bonito toiro de Pontes Dias que veio a menos, Juan Leal
deu um ar da sua graça, mas soube a pouco...
Juan Leal esteve valente e esforçado com o ilidável Passanha de quilos a mais
que saíu como sobrero
Ana Batista e Francisco Palha lidaram a duo o primeiro toiro da tarde, de
Passanha, nobre e de boa nota. Lide com ferros isolados de grande nota,
outros menos bons e algum desentendimento entre os dois cavaleiros
Lide emotiva e valente de Ana Batista ao poderoso Murteira Grave que abriu a
segunda parte da corrida. Esteve a toureira valente que nem um homem de barba
rija. Um actuação valorosa e empolgante
Com dois toques no início, a lide de Francisco Palha ao Grave foi subindo
de tom e terminou com ferros de grande emoção 
A primeira pega, ao toiro de Passanha lidado a duo, foi consumada com muita
raça e valor pelo jovem Guilherme Dotti ao primeiro intento
Momento da tentativa de David Moreira para pegar o poderoso toiro de Murteira
Grave, pouco antes de ser fortemente derrotado contra as tábuas, partindo o
estribo da trincheira e ficando inanimado na arena
A "dobra" foi feira pelo grande Francisco Faria com uma pega imponente
e cheia de valor e de técnica, aguentando fortes derrotes, com o grupo a
ajudar coeso e muito bem
A terceira e última pega foi brilhantemente consumada à segunda tentativa
pelo valoroso forcado Vasco Pereira


Miguel Alvarenga - Depois da tragicomédia (subgénero teatral que alterna ou mistura comédia, tragédia, farsa, melodrama, etc.) que foi a tourada de terça-feira passada na “Palha Blanco”, marcada pela presença de alguns toirecos da ganadaria Santa Maria, um especialmente sem a mínima apresentação para uma garraiada, quanto mais para o que se anunciava como corrida de toiros, noite de verdadeira “revolução” na praça de Vila Franca, com o público exaltado e em permanente protesto, o empresário Paulo Pessoa de Carvalho emendou-se, mudou os toiros, trouxe novos das ganadarias não anunciadas de Murteira Grave e Pontes Dias e os ânimos acalmaram, se bem que o público vilafranquense mantenha o cartão vermelho passado ao empresário e o tenha ontem brindado com uma vaia monumental quando o matador Nuno Casquinha lhe brindou a sua segunda actuação.
A corrida estava anunciada para as cinco da tarde e foi adiada para as seis, tendo começado mesmo assim um quarto de hora mais tarde e quando já se ouviam na praça sonoros protestos do público que ontem preencheu menos de metade das bancadas. Um aviso afixado junto às bilheteiras dava conta de que o adiamento de uma hora se ficara a dever a “problemas no enjaulamento dos toiros”. Às cinco e meia, corria no exterior da praça a notícia de que não haveria corrida porque alguns toiros tinham sido reprovados. O espectáculo iniciou-se sem a presença do médico veterinário, Dr. José Manuel Lourenço, ao lado do director de corrida João Cantinho, porque o mesmo se encontrava ainda nos curros a acompanhar a embolação dos toiros. Enfim, uma série de atribulações que noutras praças e com outras empresas não costuma ocorrer.
Paulo Pessoa de Carvalho perdeu assim a gestão da “Palha Blanco” por sua culpa exclusiva. Acima de tudo, pela sua ingenuidade, pelo seu romantismo - que tem pouco a ver com profissionalismo.

Paulo estava, de facto, equivocado

Ontem, com a decisão que tomou (e bem) de mudar os toiros, confirmou que, na realidade, estava equivocado quando montou a Feira de Vila Franca com dez toiros de Santa Maria. Dos seis anunciados para terça-feira só sairam três e mais valia que não tivesse saído nem um. Os quatro anunciados para ontem foram trocados por outros de Pontes Dias.
Uma praça com o peso e o carisma da “Palha Blanco” não pode ser gerida por um empresário que se dá ao luxo de arranjar toiros “em cima do joelho” e à pressa apenas com um mês de antecedência. Há aqui uma gritante falta de profissionalismo e uma enorme carga de ingenuidade.
Os toiros de Santa Maria escolhidos para Vila Franca não eram, garante-me a empresa de Lisboa, os que estavam apartados para vir ao Campo Pequeno. E se fossem, ainda mais grave seria para o empresário Paulo Pessoa de Carvalho, uma vez que a empresa de Lisboa só a 7 de Setembro anunciou que cancelava a corrida para a qual tinha agendada a presença de toiros da referida ganadaria e isso significaria que até um mês antes da Feira, Paulo Pessoa não tinha toiros escolhidos para Vila Franca
Mais um esclarecimento: afinal, a Comissão de Vedores da “Palha Blanco” não está há um ano em funcionamento, não existe já, não tem quaisquer culpas no cartório da bronca de terça-feira. Os toiros de Santa Maria foram previamente vistos no campo pelo próprio Paulo Pessoa de Carvalho e pelo seu sócio Jorge Vicente, que ali foram acompanhados por um antigo forcado dos Amadores de Vila Franca.
Com toda a polémica que se viveu na terça-feira na “Palha Blanco”, Pessoa de Carvalho perdeu em definitivo a praça, que irá a concurso em Janeiro. Mas perdeu-a apenas e só por culpa sua. Não se emendou, afinal, depois da bronca semelhante ocorrida há exactamente um ano, quando ali apresentou também três escorridos toiros da ganadaria Miura.

Tarde de afirmação de Nuno Casquinha

A corrida de ontem, cheia de remendos (mas bons) decorreu sem exaltação popular, exceptuando a que aconteceu aquando do já referido brinde de Casquinha ao empresário e a que depois se verificou no final quando o toiro de Pontes Dias, visivelmente debilitado dos quartos traseiros, recolheu aos curros e se esteve meia-hora à espera que fosse arranjado o sobrero… um toirão da ganadaria Passanha (e não de Pontes Dias, como foi referido na praça) anunciado com 500 quilos mas que tinha seguramente 600, cego de um olho, cheio de sentido, com quatro anos, verdadeiramente impróprio para ser lidado a pé.
Artisticamente, a corrida ficou marcada pela afirmação de Nuno Casquinha, traquejado com a experiência colhida além-fronteiras e que está um toureiro poderoso, mandão e artista, conquistando Vila Franca, a sua terra, com duas actuações enormes e em que esteve brilhante com o capote, enorme com as bandarilhas e cheio de ofício com a muleta, demonstrando maturidade, atitude e solidez.
No seu segundo toiro, convidou o consagrado bandarilheiro Pedro Gonçalves a consigo repartir o tércio de bandarilhas e o veterano puxou dos seus galões e cravou um par fantástico, evidenciando o poderio, a arte e o valor de sempre. No final, agradeceram os dois uma calorosa ovação do público, tendo Casquinha estado também em plano superior em dois grandes pares, um de poder a poder e outro em sorte cambiada, de muita emoção.
Certamente que, no mundo em que vivemos, este notável triunfo de Nuno Casquinha ontem em Vila Franca não lhe terá valido de nada. Mas a realidade é que Portugal tem uma nova Figura do toureio a pé e a par de António João Ferreira e de Manuel Dias Gomes, as grandes empresas deveriam aproveitar esta onda para fazer ressurgir o interesse e o entusiasmo do público pelos nossos matadores, morta que está a galinha dos ovos de oiro que se chamou Padilla.

Valente Juan Leal não teve opções

O matador francês Juan Leal é um toureiro de imenso valor que ontem teve poucas opções. O seu primeiro toiro, de Pontes Dias, um bonito exemplar, acabou por vir a menos e não lhe permitiu grande brilhantismo na faena, apesar dos detalhes de bom gosto que desenhou com a muleta. No segundo, o sobrero de Passanha, mal visto de um olho, cheio de sentido e com quilos a mais - a que foram cravados dois pares de bandarilhas negras -, o toureiro francês esteve valente até dizer chega, sofreu uma violenta e arrepiante colhida e não teve quaisquer hipóteses de brilhar, para lá de exibir a sua valentia e o seu arrojo.
Nota alta neste toiro para os poderosos pares de bandarilhas dos portugueses João Pedro Silva e João Oliveira, que cumpriram com alto profissionalismo e brilhante desempenho uma tarefa que ninguém adivinhava fácil. E até fizeram parecer fácil, afinal, o que era e foi tão difícil. No toiro anterior de Juan Leal, já ambos tinham estado em alto nível com as bandarilhas. Mereciam ontem ter sido ovacionados de montera em mão, mas isso não aconteceu.
E já que falo de bandarilheiros, nota alta, também, durante a corrida de ontem, para as oportunas e não excessivas intervenções com o capote do valoroso bandarilheiro Filipe Gravito.
Bem apresentados, corpulentos, os toiros de Pontes Dias salvaram a honra do convento em substituição dos anunciados de Santa Maria… cujo “problema no enjaulamento” terá sido, como constou, a falta de idade e de trapio. Que, pelos vistos, ninguém terá detectado antecipadamente…
Investiram com nobreza os dois lidados por Nuno Casquinha, toiros de nota alta. Veio a menos o terceiro, de Juan Leal, que tinha trapio e apresentação de respeito.

Ana Batista e Palha: grandes ferros 
em lides com altos e baixos

As actuações a cavalo estiveram a cargo de Ana Batista e de Francisco Palha, que abriram a corrida com a lide a duo de um toiro de Passanha, bem apresentado e cumpridor. Não houve um entendimento perfeito entre os dois cavaleiros, sofreram alguns toques violentos e a lide ficou-se por alguns bons ferros de ambos, sem grande brilhantismo.
Na segunda parte, Ana Batista enfrentou um toiro potente, de meter respeito, cheio de transmissão, com idade e grande apresentação, da ganadaria Murteira Grave. O toiro adiantava-se, criou alvoroço na arena e suspiros nas bancadas, Ana esteve à altura das circunstâncias, valente que nem um homem de barba rija, conseguindo uma actuação vibrante e de permanente emoção, com ferragem de imenso valor, em que pôs toda a sua raça e toda a sua reconhecida garra.
Houve quem discordasse da volta à arena com que o director de corrida premiou o ganadero Dr. Joaquim Grave, eu aplaudi. Não me venham dizer que o toiro não era bravo, porque era. Era um toiro à antiga, daqueles que pedem contas, que se impõem, que exigem, que transmitem, um toiro na melhor linha da dura ganadaria de Grave. E com bravura. Se aquilo não é um toiro bravo, expliquem-me então o que é um toiro bravo, que sou eu que não entendo nada disto…
O segundo Murteira Grave teve apresentação razoável, comportamento mais reservado, mas foi um toiro de respeito também. Francisco Palha desenhou uma lide em crescendo, iniciada com alguns toques, mas que se compôs na parte final com ferros de alta emoção e risco, a atacar, a entrar pelo toiro dentro com decisão e ousadia. Está num momento bom e está moralizado para ir em frente. E é um toureiro de valor.
Nota negativa para o excessivo e protestado número de capotazos dados pelos bandarilheiros dos cavaleiros aos toiros. As lides a cavalo continuam, pelos vistos, a ser actuações “mano-a-mano” de cavaleiros e bandarilheiros…

Grande Grupo de Vila Franca!

O Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca é um grande grupo, um grupo coeso e com forcados de alma e de raça. Guilherme Dotti, jovem forcado de dinastia, representante de uma ilustre Família que tantos e tão bons forcados deu ao grupo, pegou com galhardia e muito querer o toiro de Passanha, bem ajudado pelos companheiros. Era um toiro para descompor qualquer forcado, mas Dotti esteve enorme com ele.
Para a cara do poderoso Murteira Grave, quarto toiro da tarde, foi David Moreira, que recuou muito bem, mandando na investida, fechando-se com raça e aguentando poderosos derrotes altos, acabando por ser violentamente projectado e despejado contra a trincheira e partindo mesmo o estribo de madeira. O estrondo foi enorme e o pânico foi ainda maior. O mundo dos toiros está super sensível, sobretudo no que aos Forcados diz respeito, depois das duas tragédias que ensombraram esta temporada e por isso mesmo a angústia que se viveu na praça foi enorme. O forcado ficou inanimado, foi estabilizado na enfermaria e posteriormente o Dr. Luis Ramos, reputado médico da “Palha Blanco”, acabou por tranquilizar o público informando, através de um boletim clínico lido aos megafones, que David Moreira estava estável e consciente, fora estabilizado na enfermaria e conduzido ao Hospital de Vila Franca, onde foi submetido a vários exames que, como esta manhã noticiámos, descartaram, felizmente, qualquer leão de maior gravidade e já se encontra em casa.
O forcado lesionado foi dobrado por Francisco Faria, um forcadão de créditos firmados e que resolveu a situação com uma pega “do outro mundo”, aguentando também violentos derrotes, muito bem ajudado pelo grupo. Não quis dar a volta à arena, num gesto de grandeza e de respeito pelo companheiro ferido. Até nisto, Francisco foi grande!
O segundo Grave, quinto toiro da corrida, foi também muito bem pegado por Vasco Pereira, outro forcado de valor (e que valor!) dos Amadores de Vila Franca, que concretizou à segunda, depois de o toiro lhe ter passado ao lado na primeira tentativa.
Tarde rija e valente, como sempre, para o grande Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca, que esteve à altura dos toiros. Lá está, para toiros de verdade, Forcados de verdade. E estes são.

Tapou-se o desastre de 3ª feira,
mas Vila Franca não perdoou
ao empresário

A corrida foi dirigida, como fora a de terça-feira, por João Cantinho, com alguma disparidade no critério de atribuição de música. Alguns tiveram-na cedo demais, Ana Batista, na emotiva lide do toiro de Grave, só teve direito a banda já no último ferro…
A praça registou menos de meia entrada e até se esperava menos. O público castigou o empresário pela vergonha da primeira corrida e ontem não compareceu. Alterar toiros anunciados, adiar uma hora o início da corrida, levar meia-hora a aranjar um sobrero que não era para lidar a pé, sacrificando e pondo em risco a integridade física de uma figura do toureio francês são anomalias que não se podem passar numa praça de primeira categoria com o carisma da de Vila Franca. São coisas para acontecer em portáteis e, mesmo assim, só num país como este Portugalzinho das Toiradas - ali, não.
Em suma, tapou-se mais ou menos o desastre e a vergonha da nocturna de terça-feira, mas ficou o cartão vermelho passado pelo público vilafranquense ao empresário Paulo Pessoa de Carvalho - que, faça-se justiça, é um homem sério e vertical, com carácter, bem nascido, educado, mas continua a ser um romântico sonhador e de uma ingenuidade que às vezes arrepia. Vila Franca não é a praça das Caldas, por maior respeito que se tenha por esta. Nem o exigente e complicado público de Vila Franca tem a ver com o público de veraneio das Caldas. E isso, pelos vistos, Paulo Pessoa nunca terá entendido.
Ontem, emendou-se, trocou os toiros, procurou salvar a honra do convento. E com isso confirmou - e confessou - que estava equivocado quando montou à pressa, sobretudo no que a ganadarias diz respeito, esta atribulada Feira de Outubro em Vila Franca. Que acabou por constituir o seu bilhete de partida para dali se ir embora. Podia ter sido evitada esta situação.

Fotos Maria Mil-Homens e Fernando Clemente