sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Ontem no C. Pequeno: memorável triunfo de João Caetano e a última lição de Paulo



Miguel Alvarenga - A maestria de dois grandes toureiros, Paulo Caetano e Vitor Mendes; a reafirmação de um dos mais sólidos valores da nova vaga de cavaleiros, João Moura Caetano; e o despontar daquele que pode ser um novo ídolo do toureio a pé em Lisboa, Manuel Dias Gomes - marcaram a corrida de ontem à noite no Campo Pequeno, onde se assinalou o 60º aniversário do Fundo de Assistência dos Toureiros Portugueses (sem qualquer alusão ao seu fundador, o saudoso Diamantino Vizeu... e também sem a presença significativa de muitos toureiros, que se impunha - mas primaram pela ausência) e se prestou merecida e justa homenagem a uma lenda viva do toureio nacional, o Maestro Augusto Gomes Júnior, primeiro novilheiro luso que actuou nos anos 40 em Espanha, a quem depois de um breve acto na arena, matadores e forcados brindaram as suas actuações.
Faltaram toureiros na bancada na noite em que se assinalavam os 60 anos de uma obra notável em prol deles próprios. E faltou também público - o cartel fazia antever, e justificava, uma praça cheia. Desta vez estavam os aficionados. Mas faltou o calor daquele "outro" público entusiasta que, na corrida anterior, esgotou a praça e acarinhou os toureiros.
Na arena, passaram-se "coisas" importantíssimas. E que valeram a noite. Uma noite de muito bom toureio.
Paulo Caetano fazia ali a sua primeira corrida de casaca nesta temporada, depois de um importante triunfo no início da época num festival em Vila Viçosa. Primeira e última, facto que ninguém sabia. Senhor de uma carreira gloriosa com mais de três décadas, decidiu que aquela seria a sua última actuação formal, vestido de toureiro. Anunciou-o nos minutos finais da corrida, quando ia atravessar a arena e recolher os aplausos por mais uma magistral lição de toureio a cavalo. Com um lenço branco e com a simplicidade que em momentos especiais agiganta o espírito dos homens grandes, Paulo puxou de um lenço branco e disse adeus. Como se fosse uma coisa simples dizer assim de repente adeus a uma vida inteira de toureiro...
Fê-lo depois de, repito, ter dado mais uma lição enorme de bom toureio, onde passeou a sua sabedoria, a sua maestria, o temple e a imensa classe de quem tanto dignificou e prestigiou aquém e além fronteiras a nobre arte do toureio equestre. Mas fê-lo, acredito, sobretudo em jeito de "passagem de testemunho", numa noite que foi de glória para seu filho João. Não mo disse, nem precisava, mas sinto que o Paulo esperou até que se consolidasse, como neste momento acontece, a carreira do João, até que o filho despontasse de vez e seguisse sózinho o seu caminho, assegurando o futuro e assegurando, sobretudo, a continuidade da dinastia. As coisas não acontecem a correr. Os degraus sobem-se um a um. E o João subiu-os com passos firmes e muitas certezas. Está hoje um toureiro maduro e sólido, destacado, deixou de ser "o filho de" para passar a ser o João Moura Caetano - indiscutivelmente uma das nossas novas Figuras.
A sua actuação de ontem, iniciada com dois compridos de praça a praça e que depois teve o momento alto nos quatro incríveis ferros curtos que cravou com o fantástico cavalo "Temperamento", foi uma mensagem para o futuro, já não uma lição de esperança, por que antes uma consagração e uma certeza. Este cavalo "entra" e "sai" dos terrenos com uma elasticidade de pasmar, tudo aquilo parece simples e tão fácil. E o João está num momento único. Com o "Xispa", ontem utilizado por Paulo e com o "Temperamento", para falar apenas destes dois, o toureiro faz "duplas" que já são história.
A lide foi brindada a seu Pai. Paulo, por seu turno, despediu-se das arenas brindando ao seu público. Depois teve os bonitos gestos de brindar um ferro a Vitor Mendes e outro a Manuel Dias Gomes. A seu lado tinha ontem três dos seus históricos bandarilheiros, Amâncio, Albino e Peixinho. À memória vieram-me tempos outros, veio Laurentino Boieiro, o grande Raul Nascimento, os tempos de ouro ao lado do Maestro António Badajoz, tanta história, sei lá.
Ambos lidaram toiros bem apresentados da ganadaria Passanha. Melhor e mais colaborante o de Paulo. Mansote e a fugir à luta o de João. Só que o cavaleiro não lhe deu tréguas, sacando-lhe a faena que não havia. 
A carreira de Paulo Caetano terminou ontem. Trinta e dois anos depois da alternativa e não sei quantos triunfos memoráveis depois, o cavaleiro disse adeus com um lenço branco. A sua história e a sua trajectória, essas ficam para sempre gravadas nas nossas memórias, estão escritas em livros, registadas em videos e milhares de fotografias.
E há agora a carreira do João. Que certamente se prolongará também por muitos e bons anos. Noite grande, a dos Caetano, ontem no Campo Pequeno. Noite histórica. Brilhante.

Já a seguir: não perca, os pormenores, também, das lides a pé de Vitor Mendes e Manuel Dias Gomes ontem no Campo Pequeno. E todas as fotos de Emílio.

Fotos Emílio de Jesus/fotojornalistaemilio@gmail.com