Miguel Alvarenga - A maestria de dois grandes toureiros, Paulo Caetano e Vitor Mendes; a reafirmação de um dos mais sólidos valores da nova vaga de cavaleiros, João Moura Caetano; e o despontar daquele que pode ser um novo ídolo do toureio a pé em Lisboa, Manuel Dias Gomes - marcaram a corrida de ontem à noite no Campo Pequeno, onde se assinalou o 60º aniversário do Fundo de Assistência dos Toureiros Portugueses (sem qualquer alusão ao seu fundador, o saudoso Diamantino Vizeu... e também sem a presença significativa de muitos toureiros, que se impunha - mas primaram pela ausência) e se prestou merecida e justa homenagem a uma lenda viva do toureio nacional, o Maestro Augusto Gomes Júnior, primeiro novilheiro luso que actuou nos anos 40 em Espanha, a quem depois de um breve acto na arena, matadores e forcados brindaram as suas actuações.
Faltaram toureiros na bancada na noite
em que se assinalavam os 60 anos de uma obra notável em prol deles próprios. E
faltou também público - o cartel fazia antever, e justificava, uma praça cheia.
Desta vez estavam os aficionados. Mas faltou o calor daquele "outro"
público entusiasta que, na corrida anterior, esgotou a praça e acarinhou os
toureiros.
Na arena, passaram-se "coisas"
importantíssimas. E que valeram a noite. Uma noite de muito bom toureio.
Paulo Caetano fazia ali a sua primeira
corrida de casaca nesta temporada, depois de um importante triunfo no início da
época num festival em Vila Viçosa. Primeira e última, facto que ninguém sabia.
Senhor de uma carreira gloriosa com mais de três décadas, decidiu que aquela
seria a sua última actuação formal, vestido de toureiro. Anunciou-o nos minutos
finais da corrida, quando ia atravessar a arena e recolher os aplausos por mais
uma magistral lição de toureio a cavalo. Com um lenço branco e com a
simplicidade que em momentos especiais agiganta o espírito dos homens grandes,
Paulo puxou de um lenço branco e disse adeus. Como se fosse uma coisa simples
dizer assim de repente adeus a uma vida inteira de toureiro...
Fê-lo depois de, repito, ter dado mais
uma lição enorme de bom toureio, onde passeou a sua sabedoria, a sua maestria,
o temple e a imensa classe de quem tanto dignificou e prestigiou aquém e além
fronteiras a nobre arte do toureio equestre. Mas fê-lo, acredito, sobretudo em
jeito de "passagem de testemunho", numa noite que foi de glória para
seu filho João. Não mo disse, nem precisava, mas sinto que o Paulo esperou até
que se consolidasse, como neste momento acontece, a carreira do João, até que o
filho despontasse de vez e seguisse sózinho o seu caminho, assegurando o futuro
e assegurando, sobretudo, a continuidade da dinastia. As coisas não acontecem a
correr. Os degraus sobem-se um a um. E o João subiu-os com passos firmes e muitas certezas. Está hoje um toureiro
maduro e sólido, destacado, deixou de ser "o filho de" para passar a
ser o João Moura Caetano - indiscutivelmente uma das nossas novas Figuras.
A sua actuação de ontem, iniciada com
dois compridos de praça a praça e que depois teve o momento alto nos quatro
incríveis ferros curtos que cravou com o fantástico cavalo
"Temperamento", foi uma mensagem para o futuro, já não uma lição de
esperança, por que antes uma consagração e uma certeza. Este cavalo
"entra" e "sai" dos terrenos com uma elasticidade de
pasmar, tudo aquilo parece simples e tão fácil. E o João está num momento
único. Com o "Xispa", ontem utilizado por Paulo e com o
"Temperamento", para falar apenas destes dois, o toureiro faz
"duplas" que já são história.
A lide foi brindada a seu Pai. Paulo,
por seu turno, despediu-se das arenas brindando ao seu público. Depois teve os
bonitos gestos de brindar um ferro a Vitor Mendes e outro a Manuel Dias Gomes.
A seu lado tinha ontem três dos seus históricos bandarilheiros, Amâncio, Albino
e Peixinho. À memória vieram-me tempos outros, veio Laurentino Boieiro, o
grande Raul Nascimento, os tempos de ouro ao lado do Maestro António Badajoz,
tanta história, sei lá.
Ambos lidaram toiros bem apresentados da ganadaria Passanha. Melhor e mais colaborante o de Paulo. Mansote e a fugir à luta o de João. Só que o cavaleiro não lhe deu tréguas, sacando-lhe a faena que não havia.
A carreira de Paulo Caetano terminou
ontem. Trinta e dois anos depois da alternativa e não sei quantos triunfos
memoráveis depois, o cavaleiro disse adeus com um lenço branco. A sua história
e a sua trajectória, essas ficam para sempre gravadas nas nossas memórias,
estão escritas em livros, registadas em videos e milhares de fotografias.
E há agora a carreira do João. Que
certamente se prolongará também por muitos e bons anos. Noite grande, a dos
Caetano, ontem no Campo Pequeno. Noite histórica. Brilhante.
Já a seguir: não perca, os pormenores,
também, das lides a pé de Vitor Mendes e Manuel Dias Gomes ontem no Campo
Pequeno. E todas as fotos de Emílio.
Fotos Emílio de
Jesus/fotojornalistaemilio@gmail.com
