José Maria Cortes partiu há um ano. Nesse dia, enchemos a Igreja de São João de Deus (e vamos voltar a enchê-la logo à tarde, pelas 19h45), fomos todos Montemor, fomos todos Cortes, fomos todos o abraço em torno dos pais que sofriam a morte do seu filho querido. Há um ano escrevi aqui esta carta ao meu querido amigo João Cortes. Sei que podia e devia ter escrito muito mais e muito melhor. Mas não consegui. Foi o que me saíu, à medida que ia teclando e ia chorando a dor de um Pai que perdeu um filho. Um ano depois, voltam-me a assaltar, quando penso e me lembro, todos os mesmos sentimentos. E, outra vez, não consigo fazer melhor. Volto a publicar a carta, João. Volto a abraçar-te. E a todos vocês, que foram amigos e companheiros do Zé Maria. Passou um ano. Os nossos sentimentos e a nossa revolta são os mesmos. A nossa saudade também. Era tão cedo, Zé Maria! Foi tão cedo, meu querido João!
quinta-feira, 27 de Junho de 2013
Carta a um Amigo
Meu
Querido João Cortes,
Sei
bem que não consigo dizer-te nada, João. E que também tu não vais conseguir ler
nada. Que se lixe, hei-de dizer-te um dia.
Poucos
saberão, e também pouco importa, da amizade antiga que nos unia. Pela amizade
que te unia a meu Pai e a minha Tia Isabel. Que te tratavam sempre por
Joãozinho.
Lembro-me
tão bem de ti como cabo - e como forcado. Quantas e quantas vezes te elogiei as
tuas enormes pegas, ainda nas páginas de "O Diabo", que eu repartia
semanalmente com o saudoso Dr. Fernando Teixeira, elogios esses que ele
aplaudia, precisamente por que te considerava - e eras, e foste - um dos
maiores Forcados da nossa História.
Imagino,
ou não imagino, a tua dor neste dia. Não sei, confesso, se aguentaria a morte
de um Filho. Sei. Não aguentava mesmo.
Ao
longo dos anos, habituei-me, habituámo-nos todos, a ter pelo teu Filho Zé Maria
o mesmo respeito e a mesma admiração (enorme) que tínhamos por ti. Que temos
por ti. Ele foi, sem favor, um dos maiores Forcados dos últimos anos.
O
Zé Maria não é um daqueles de que se vai escrever e dizer bem só porque teve a
infelicidade, o azar, de ter morrido assim tão cedo - e de um forma tão
estúpida, tão inglória, tão inacreditável. Nada disso. É que ele foi mesmo bom.
Sei
que fica para sempre a recordação. Sei que o Zé Maria vai estar sempre
presente. É o que temos que dizer e é o que temos que pensar. Mas a verdade, a
realidade nua e crua, terrível, é só uma: o Zé Maria partiu. Que impotência que
eu sinto, meu Deus, que horrível sensação de nada poder fazer para virar tudo
ao contrário, andar para trás no tempo, riscar Alcácer, pô-lo aqui de novo,
aquele sorriso franco, aquele olhar terno de amigo que é verdadeiro, aquela
força e aquele garra com que punha o barrete, batia as palmas e desafiava a
morte com uma tranquila serenidade que transmitia segurança e nos garantia que
dali ia sair mais um grande pegão. Como aconteceu há oito dias em Lisboa. Como
aconteceu de todas as outras vezes ou quase todas. Como ia acontecer em
Setembro em Montemor, onde ele ia despir a jaqueta e despedir-se de uma
carreira de glória, tanta glória, tanto aplauso, tanto momento único, tanta
pega de levantar as bancadas.
Sei
lá o que te dizer, João. Sei lá o que escrever. Sei lá quantas lágrimas me
escorrem pela cara abaixo enquanto teclo aqui nesta merda deste computador,
cheio de raiva, cheio de dor, cheio de tudo o que não me apetecia ter, nem
sentir, nem nada.
Sei
que não é fácil, João. Sei que eu não conseguia. Mas sei também que tu és
forte. Mais forte que eu. Que com tua Mulher e teus filhos conseguirás
ultrapassar este dia, esta dor e lembrar sempre o teu Filho - com a força que
ele tinha. Com o sorriso que ele partilhava. Com os exemplos que ele deu.
Um
abraço é pouco, João. Mas dou-to. Sem palavras. Sem mais nada.
Força!
Miguel
Alvarenga
Fotos Emílio de Jesus/fotojornalistaemilio@gmail.com
Publicada por jornalfarpas à(s)
14:23